A Autoridade Universal das Escrituras

Cristianismo ao longo dos últimos 50 anos passou de ser um movimento em grande parte baseado na Europa e América do Norte para ser uma religião global. Pela primeira vez na história, a maioria dos cristãos vivem agora em países em desenvolvimento conhecidos coletivamente como o Sul Global. A recente globalização do cristianismo nos força a refletir sobre os princípios mais importantes da fé a partir de um ponto de vista global. Entre estes princípios está a visão da Bíblia como “verdade autoritária”. Com isto em mente, cristãos do mundo todo hoje são agora obrigados a repensar sobre como a Bíblia informa sua visão da realidade e epistemologias.

A Bíblia conta a história do cosmos através de uma epistemologia de revelação divina, aliança e encarnação. A Bíblia não só expõem a origem do universo, mas teologicamente, cada cultura e etnia também pode rastrear o seu início a Gênesis 11. Ao longo do Antigo Testamento, encontramos a relação de Deus com Israel através da Sua Palavra representada pela Torá, a Lei Mosaica. No entanto, no Novo Testamento, esta aliança é estendida a todas as etnias do mundo. A Palavra de Deus é encarnada em Jesus Cristo, que pelo Espírito Santo, escreve a Sua lei (Torá) no coração dos seres humanos. Ainda hoje, a Palavra de Deus se faz viva através da Bíblia que continua transformando e restaurando a vida por meio da fé.

Diferentemente de outros escritos sagrados, a Bíblia foi composta na língua nativa de seu povo. O Novo Testamento foi escrito originalmente em grego comum, conhecido como koiné, que era o vernáculo global daquele tempo. A língua grega era usada em todo o Império Romano como o idioma comum para negócios e diplomacia. O grego servia para unir todo o império. Da mesma forma, os autores bíblicos usaram grego para comunicar a Palavra de Deus de uma forma que todos pudessem entender. À medida que o movimento cristão se espalhou por diferentes culturas do mundo, a Bíblia também foi traduzida para as línguas locais tornando-a polifônica.

Os autores bíblicos nunca consideram uma língua como mais sagrada que as outras. Eles atribuíam e atribuiu a “santidade” de seus escritos à inspiração dada pelo próprio Espírito Santo. Desde o início, o uso da língua vernácula mostra a intenção de Deus para que a Bíblia fosse viva em todas as culturas, independentemente de epistemologias, línguas ou movimentos étnicos. O biblicista Lamin Sanneh argumenta que a Bíblia na língua do povo é um primeiro passo teológico na instrução divina da raça humana, com a diversidade dos vários idiomas do mundo, como o meio indispensável que Deus escolhe para trazer para as comunidades de fé à existência. Todos estes fatos demonstram que a Escritura não se limita somente à uma sociedade privada que possa interpretá-la, mas sim que ele tem autoridade global como uma ferramenta de epistemologia divina para qualquer pessoa em qualquer cultura.

A linguagem é apenas uma das facetas através da qual a verdade é interpretada. O processo de aprendizagem também é fortemente informado por epistemologias culturais. Biblicamente, encontramos Paulo utilizando a lógica grega para comunicar-se com os gregos. Encontramos-o também fazendo uso das tradições e costumes hebraicos ao ensinar entre seu próprio povo judeu. Na perspectiva global, vemos que reivindicações sobre autoridade e verdade muitas vezes podem se transformar em reivindicações que são subjetivas à forma como uma determinada sociedade constrói a sua própria visão da realidade .

Isto é verdade especialmente no Ocidente. N. T. Wright , em seu livro “As Escrituras e a Autoridade de Deus”, argumenta que essas afirmações particulares tendem a tornar-se em alegações de poder onde as declarações sobre “o modo como as coisas são” transformam-se em variações sobre “a maneira que eu vejo” ou até a “maneira que me agrada a vê-la”. A fim de evitar tais leituras desconstrutivas através do prisma de movimentos culturais , um argumento a favor da autoridade global das Escrituras emoldura sua abordagem hermenêutica dentro de uma metanarrativa dentro da própria Escritura.

Assim como Paulo usou epistemologias culturais para comunicar a verdade bíblica, N.T. Wright sugere um drama de cinco atos com base na criação, queda, Israel, Jesus e Igreja que se aplica à qualquer cultura. Ao incorporar a autoridade Bíblica numa estrutura canônica, é possível identificar a intenção missionária de Deus ao longo da história, e usá-la como uma ferramenta hermenêutica para oferecer continuidade entre a autoridade das Escrituras em meio ao povo de Deus na Bíblia e a Igreja hoje.

Assim sendo, a Bíblia torna-se o relato de como Deus ama a sua criação e tem a intenção de resgatá-la . Os cinco atos de Wright colocam o papel das Escrituras como a ferramenta de autoridade divina em revelar a intenção missiológica de Deus desde a criação do mundo. Ao mesmo tempo projetando uma esperança escatológica para a renovação de todo o universo. Em suma, a Escritura torna-se globalmente autoritária quando é traduzida para o vernáculo indígena e é comunicada no contexto da missão de Deus para o mundo. Ao fazer isso, aprendemos que a Bíblia é a fonte central da revelação epistêmica de Deus sobre Sua verdade e amor no contexto da diversidade e inclusão da Igreja Global.

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