A Centralidade e Exclusividade Global de Cristo

Numa aula recente aqui no Fuller Theological Seminary fui desafiado a elaborar uma declaração de fé incluindo os pontos mais importantes para o exercício da teologia e ministério num contexto global. Depois de muita consideração, minha reação instintiva foi começar elaborando uma teologia global centrada no que eu acredito ser o elemento mais essencial da nossa fé. Eu então titulei este ponto como “A centralidade e exclusividade global de Cristo.” Meu objetivo era defender a centralidade e exclusividade global de Cristo reafirmando uma teologia baseada na Eucaristia. Então, logo de começo isto gerou um par de perguntas. Primeiro, como pode o Evangelho de Jesus Cristo ser uma mensagem global? E segundo, como é que a Eucaristia nos informa a respeito da centralidade e exclusividade global de Cristo? Vou aqui procurar respondê-las.

A revelação de Deus é universal, portanto Cristo “se sente em casa” em qualquer cultura. No entanto, o Jesus histórico nasceu num tempo e contexto social específico, no qual a palavra “Cristo” comunicava uma mensagem e significado particular. Na época de Cristo, Israel estava dividido em cerca de 160 diferentes seguimentos sociais diferentes, os quais produziram suas próprias teologias sobre a pessoa e a missão do Messias (Cristo). Todos tinham uma perspectiva diferente sobre a vinda e a obra de Cristo. De tal forma que Jesus passou a ser rejeitado quando não se encaixava na perspectiva das teologias contextuais existentes. Essa diversidade se refletiu também entre os seguidores do próprio Movimento de Cristo, onde havia Zelotes, herodianos, estudiosos da lei, mulheres e eventualmente até mesmo fariseus (Atos 15).

Com o tempo, o movimento iniciado por Jesus passou a ganhar seguidores em Jerusalém, Judéia, Samaria e os confins da terra. A igreja tornou-se então um movimento multiétnico e poliglota. Durante a Festa de Pentecostes em Atos 2, vemos que a grandeza de Deus foi comunicada no vernáculo de uma ampla gama de etnias, mostrando a intenção de Deus em manter multiculturalidade da igreja. Acima de tudo, a partir do Pentecostes surgiu-se uma nova metacultura, a qual passou a envolver todas estas subculturas. A multiplicidade cultural da igreja passou a unir-se em torno de uma teologia cristocêntrica, a qual celebrava a Eucaristia como o seu modo de vida. Cristo tornou-se o fator comum entre todos. E assim, a centralidade e exclusividade global de Cristo foi evidenciada por meio da cruz, como a única possibilidade para a existência de uma verdadeira comunidade global. A Eucaristia, portanto, passou a simbolizar a reconciliação da humanidade com Deus e consigo mesma.

Como nos dias do Jesus histórico, hoje a pluralidade de movimentos culturais e linguagens também influenciam a produção de teologias contextuais. No Ocidente, por exemplo, estudiosos têm argumentado que estamos vivendo em uma era pós-moderna de intensa globalização, onde o consumismo tornou-se um sistema de significado e identidade. Nosso valor e identidade sócio-cultural passou a depender da qualidade dos produtos que consumimos. Esta retórica do consumismo também tem influenciado o campo da religião, no qual a produção teológica tornou-se apenas mais um produto da fé entre outros que são oferecidos na vasta cultura de hoje do mercado religioso. De certa forma, teologias contextuais que foram guiadas por este tipo de pluralismo acabaram por subestimar a importância da centralidade e exclusividade global de Cristo. Assim, a mensagem da Eucaristia passou a perder o seu significado, fazendo com que a igreja se acomodasse em sua missão. Ao contrário da Igreja Primitiva, vemos que um fator comum entre muitos cristãos hoje é um desejo para a satisfação espiritual pragmática, a qual é “comprada” por meio de experiências e serviços em nossas igrejas. Com isto em mente, eu vejo a necessidade de voltar à uma teologia cristocêntrica centrada na mensagem da Eucaristia.

Então no resta perguntar, como que a afirmação da centralidade e exclusividade global de Cristo nos ajuda a manter uma fé eucarística? Primeiro de tudo, a Eucaristia afirma uma verdade teológica fundamentalmente universal. A Eucaristia proclama Cristo como o centro do verdadeiro Evangelho Bíblico, e a cruz como o ponto de convergência onde a humanidade pecadora reúne-se com um Deus amoroso e misericordioso. Através do sacrifício de Cristo somos reconciliados com Deus. A Eucaristia declara que Cristo morreu por todos (2Cor 5,15), independentemente de gênero, raça ou etnia, estendendo universalmente a expiação e o convite para a renovação de toda a vida. Em segundo lugar, a Eucaristia torna-se também o prisma pelo qual a igreja global obtém seu senso de identidade e missão. Informada pela Eucaristia, a Igreja torna-se uma comunidade contra-cultural que derruba as divisões sociológicas do mundo. Assim, a centralidade e a exclusividade de Cristo é promovida através da mediação no processo de reconciliação entre grupos étnicos que se opõem. Exemplificada através da reconciliação de judeus e gentios que passaram a constituir a igreja na época de Jesus.

A Eucaristia também nos informa a respeito da exclusividade de Cristo. Através do Evangelho, Cristo revela plenamente a sua obra salvífica, rejeitando qualquer tipo de sincretismo ou de diálogo que implica que Deus fala e reconcilia igualmente através de todas as religiões e ideologias. Dessa forma, Cristo torna-se o único mediador entre Deus e a criação, reconciliando a humanidade à Deus e a si mesma. A Eucaristia derruba a ideologia criada pelo consumismo, que declara que o Evangelho é apenas “mais um” dos demais produtos da religião. Ela promove a exclusividade redentora de Cristo numa época de globalização e pluralismo. A cruz usada como instrumento de morte pelos romanos, torna-se instrumento de vida para a comunidade global.

Acima de tudo, a Eucaristia serve para unir as dimensões de tempo e espaço. Ela ressalta que ao celebrarmos a nossa comunhão com Deus no tempo presente, fazemos isso em memória da obra de Jesus no tempo passado, anunciando a esperança na volta de Cristo no tempo futuro. Neste tempo de Quaresma, que possamos reafirmar a centralidade e exclusividade de Cristo tanto no contexto global, como localmente em nossas próprias vidas e comunidades.

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