A Criança e o Capitão

A Criança e o Capitão

Havia uma criança que por volta dos seus 10 anos de idade chegou para o seu pai e disse: “Papai, gostaria de conhecer o mar.” Seu pai, se voltando a ela respondeu: “Meu filho, se você passar de ano com boas notas eu te levarei para conhecer o mar.” A criança guardou aquelas palavras do seu pai e se esforçou muito o ano todo para tirar boas notas. Chegado o final do ano, ela trouxe seu boletim de notas para o seu pai relembrando a promessa que ele uma vez fizera a ela. O pai olhou para ela e disse: “Tá bem meu filho, nessas férias nós vamos conhecer o mar.” Chegando na praia, a criança foi direto para a água. Molhando os seus pés no mar ela sorria alegremente. Ela finalmente havia conhecido o mar!

Próximo dali estava uma linda caravela que fazia passeios pelo litoral. Entusiasmada, o pai levou a criança a fazer um daqueles passeios. O capitão que navegava aquela caravela era um homem muito experiente. Ele conhecia os ventos, as correntes, a beleza e os perigos do oceano. Ela sabia o suficiente para manter todos os seus passageiros seguros. Se aproximando daquele velho capitão a menina perguntou: “O senhor conhece o mar? Porque eu sim o conheço!” Ela continuou: “Eu já estudei sobre o mar, li livros na escola e hoje até entrei na água.” Intrigado, aquele capitão relembrou algumas de suas experiências em alto mar e pensou consigo mesmo: “Será que realmente ela realmente conhece as profundezas e a grandiosidade do oceano?”

Este conto ilustra a realidade do nosso relacionamento com Deus. Assim como é o oceano, o conhecimento de Deus também pode ser vasto e profundo. Nós vivemos em tempos onde a busca pelo conhecimento se resume na agregação de resquísios de informações buscadas no Google. Em milésimos  de segundos, você é capaz de agregar algum tipo de informação sobre qualquer coisa que exista no mundo. Este é o conhecimento da Wikipedia, que é rapidamente digerido sem muito discernimento. Vivemos também no tempo onde a sabedoria pode ser resumida em 140 caracteres no Twitter. Esta é a sabedoria que comunica apenas o que queremos saber. Assim, preferimos frases curtas de impacto à complexidade de ensinamentos profundos. A busca pelo conhecimento e sabedoria hoje é completamente desvinculada da experiência. Ela é instantânea e rasa. Este é o zeitgeist do nosso tempo.

Espiritualmente podemos reconhecer a mesma tendência no que se condiz ao conhecimento de Deus. Muitos de nós somos como essa menina. Molhamos os pés nas águas rasas do conhecimento de Deus, sem nunca navegar até as suas profundezas e vivemos no engano de que nossas experiências imediatas são suficientes. Esta realidade foi bem exposta por Leonard Ravenhill, um dos grandes profetas da igreja no século XX. Ao olhar para a geração atual e o padrão dos heróis da fé na Bíblia, ele sentenciou: “Estamos remando na praia do oceano das possibilidades da graça de Deus.”

Em Cristo, nossas vidas podem ser vistas como barcos que navegam no oceano do Espírito, no oceano das possibilidades da graça Deus. O conhecimento de Deus não é um saber puramente intelectual, ou o simples ajuntamento de informações e dados a respeito do caráter de Deus. O conhecer a Deus está baseado na experiência relacional que começa quando somos introduzidos a Ele através de Jesus Cristo. A experiência do novo nascimento e da vida em comunidade e adoração. Assim como no nosso conto, o conhecimento de Deus é uma substância, e esta substância pode ser medida. Porém contrário aos padrões educacionais, não medimos o conhecimento de Deus a partir da informação que podemos reter, mas sim através da implicação deste conhecimento em nossas vidas. O conhecimento de Deus é experimental. Desta forma, conhecer a Deus está diretamente ligado em deixar-se ser conhecido por Ele num diálogo constante.

O nosso conto revela duas realidades, a da menina e a do capitão. Ambos podem afirmar, com toda sinceridade, que conhecem o mar. Ambos podem falar da sua experiência e do que sentiram. Porém apenas um pode falar do conhecimento que vai além das margens. Do conhecimento que vem através dos riscos tomados, dos perigos e lutas enfrentadas, e das experiências de quando nos aventuramos além do que consideramos nosso porto seguro e zona de conforto. Apenas um pode falar do conhecimento que vem quando deixamos o mar interromper as nossas vidas. Quando cedemos controle ao vento do Espírito Santo, e de quando somos levados por correntes que vão além da nossa própria vontade. Apenas um pode falar do conhecimento que vem através da perseverança e vai além da superficialidade daquilo que consideramos divertido e prazeroso. Mesmo que ambos conheçam o mar, apenas o capitão pode afirmar que ainda tem muito o que aprender.

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