A Santa Ceia como um Paradigma Missionário

Neste post, gostaria de convidá-lo a olhar para Santa Ceia através de uma perspectiva missionária. Muitos de nós chamamos a Santa Ceita de “Eucaristia”, ou até “a Mesa do Senhor”, mas talvez um nome mais biblicamente correto seria “a Ceia do Amor” ou simplesmente “Ágape”. Ceia do Amor era como os antigos cristão da Igreja Primitiva se referiam ao que hoje chamamos de Santa Ceia.

Talvez não exista um maior símbolo de prática missionária do que a “a Ceia do Amor” instituída por Jesus Cristo. É na ceia que os seguidores de Cristo celebram a sua comunhão com Deus e consigo mesmos. Jesus modelou esse tipo de prática quando ele comia com publicanos (Lc 5:29), incluía os marginalizados (Lc 14:13), e ensinava seus discípulos a praticar o mesmo (Mateus 14:16-19). A comunhão em volta da mesa é a representação de uma comunidade global unida pelo sangue de Cristo como um só corpo.

Estas reuniões e ceias para nutrir a comunhão e hospitalidade eram uma prática comum da igreja primitiva. O comentarista da bíblico, William Barclay, diz que “a Igreja primitiva tinha uma ceia chamada a Ágape ou Ceia do Amor. Todos os cristãos vinham à ela, trazendo o que podiam, os alimentos eram reunidos e todos sentavam-se para ter uma refeição em comunidade. Este era um lindo costume, era uma forma de produzir e nutrir verdadeira comunhão cristã”.

Era neste ambiente de hospitalidade mútua que as diferenças sociológicas eram derrubadas. Na Ceia do Amor, todos os participantes eram iguais, pecadores perdoados pela graça de Deus. Barclay acrescenta que “a Igreja primitiva era o único lugar em todo o mundo antigo, onde as barreiras sociológicas caíam. A igreja era o único lugar onde todas pessoas reuniam-se e eram tratadas iguais. A igreja elevou a mulher ao seu legítimo lugar na sociedade, restaurou a dignidade do trabalho, aboliu a mendicância, e aliviou o veneno da escravidão. O segredo desta revolução estava no fato de que o egoísmo racial e social encontrado no mundo era esquecido na prática da Ceia do Senhor. Assim, um novo alicerce para a sociedade começou a ser formada baseado no amor da imagem visível de Deus nas pessoas por qual Cristo morreu.” Esta prática de comunidade missional representava o próprio modelo de discipulado de Cristo.

No entanto, a igreja de Corinto tinha perdido de vista o sentido da Ceia do Amor. Nos dias de Paulo, Corinto era uma cidade vibrante e diversificada. A cidade consistia de romanos, gregos, bárbaros e judeus, entre outras nacionalidades. Haviam homens livres e escravos, comerciantes, artistas, políticos e todos os tipos de negócios que giravam em torno do porto de Corinto. A diversidade cultural e econômica de Corinto era evidente para todos os que caminharam por suas ruas. Da mesma forma, a igreja plantada por Paulo refletia a diversidade da cidade em torno dela. Essas diferenças culturais infiltraram para dentro da igreja. Consequentemente, em vez de celebrar a Ceia de Amor que promovia a hospitalidade, a comunidade e a inclusão social, a igreja se tornou dividida em suas classes sociais.

Em 1 Coríntios 11:17-34, encontramos o apóstolo Paulo advertindo a igreja em Corinto por ter violado a Ceia do Senhor. Paulo imediatamente identifica o problema apontando as “divisões entre eles” (v.18), que eram uma questão de orgulho para mostrar qual deles tinham a “aprovação de Deus” (v. 19). A palavra grega aplicada por Paulo é σχίσμα (cisma), referindo às divisões sociais. Estas divisões apenas destacavam as diferenças sociais entre eles (v.21) e “humilhavam aqueles que não tinham nada” (v.22). As práticas da igreja de Corinto tornaram-se a antítese da Santa Ceita modelada por Cristo. Paulo imediatamente aponta para o modelo de Cristo (v.23), enquanto busca restaurar a prática da justiça social naquela igreja.

A prática da Ceia do Amor nos mostra de forma significante a intenção de Deus para que a Igreja seja uma comunidade missionária no mundo. Primeiro, a Ceia do Amor celebra a reconciliação da humanidade com Deus. Vemos que o foco da Ceia não está no que se encontra na mesa, mas sim na graça de Cristo oferecida a cada indivíduo. A Ceia se torna missionária quando a graça de Deus para com toda a humanidade é exaltada no partir do pão e da comunhão dos crentes. Encontramos isso quando Paulo muda do problema, para a solução em 1Cor 11:23. A intenção de Paulo era de restaurar a Ceia do Amor como uma prática centrada na pessoa de Cristo. Através disso, a obra de Cristo, portanto, é fundamental para a compreensão de todo o cristão sobre a sua auto-identidade e vida em comunidade. A Ceia do Amor tornar-se então a continuação e a proclamação da obra de Cristo em reconciliar toda a humanidade com Deus.

Além disso, a Ceia do Amor também representa a reconciliação da humanidade consigo mesma. A Ceia se torna um prática contracultura, pois ela derruba as divisões sociológicas dentro de sociedade. Até o mundo é capaz de formar comunidade. No entanto, a Ceia do Amor representa a inclusão dos pobres e marginalizados na comunidade de Deus, promovendo a unidade através da fé em Jesus Cristo. A centralidade de Cristo é, portanto, evidenciada na mediação da reconciliação entre grupos de pessoas que aparentemente são opostos, derrubando toda e qualquer divisão sociais. A Ceia então gera vida em comunidade amparada pela graça e perdão mútuo.

Por fim, a Ceia do Amor representa a alegria do Reino já presente e do por vir. Paulo alude à discrepância das “emoções” na ceia celebrada pelos corintos. Um “permanecia com fome, enquanto o outro se embebedava” (v.21). Um sentia-se humilhado, enquanto o outro se alegrava. Atos 2:46 diz: “Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria (extrema alegria) e sinceridade de coração.” Esta cena da Ceia é também uma representação de alegria quem encontramos no Reino de Deus. Paulo fala sobre o Reino de Deus como marcado por alegria (Rm 14:17). Tal como acontece com Paulo, Isaías também declara: “Neste monte o Senhor dos Exércitos preparará um farto banquete para todos os povos, um banquete de vinho envelhecido, com carnes suculentas e o melhor vinho” (Is 25:6). A prática da Ceia conforme o modelo de Cristo promove então vidas cheias de alegria, perdão e graça. Ela se torna uma força missionária quando ela produz a inclusão dos pobres, marginalizados e os estrangeiros (Lc 14:21) para dentro da comunidade de Deus. Que possamos sempre lembrar que a ceia é uma extensão do amor ágape que nos foi dado por Deus.

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