Alguns membros do meu corpo local recentemente levantaram a questão se eu sou chamado para servir lá. Eu imediatamente pensei comigo mesmo; ou sou chamado, ou sou um tremendo de um chapado por servir aqui.

Só o fato de eu ser membro do corpo deveria comunicar que sou chamado. Eu não sou novo neste corpo. De fato, eu faço parte da comunidade tem mais de 5 anos. Não só sou membro, como também venho servindo a este corpo em tempo integral em diversas maneiras por cerca de 3 anos. Eu tenho pregações nos arquivos da igreja que datam ao ano 2011. De lá pra cá acumulei inúmeras delas. Todas elas são resultado de muita diligência em oração e estudo. Eu não gosto de pregar sermões fracos, então um típico sermão me leva de 15-20 horas de preparo. Isso é bastante trabalho para uma hora de ensino. Eu sempre abordei toda ocasião de ensino com a mesma atitude, não só pregações do púlpito. Porém jamais recebi qualquer tipo de crédito ou compensação por este trabalho. Por isso, ou sou chamado ou sou chapado!

Eu já ocupei vários cargos ao mesmo tempo no corpo local. Em 2012, eu era um pregador frequente nos domingos e quartas-feiras, realizava vários tipos de trabalhos pastorais miscelâneos no escritório durante a semana e também era o capelão em tempo integral para os alunos do ensino médio e superior na nossa escola local. Houveram semanas que pregava 4 sermões diferentes; um no domingo, outro diferente na quarta-feira, um especial para adolescentes nas capelas da escola na sexta-feira, e de novo no domingo seguinte. Ocupei vários cargos sem salário ou recompensa, quer em ofertas ou qualquer outro tipo. A única coisa que recebi fui uma conta de e-mail da igreja para que pudesse receber responsabilidades mais rapidamente. Por isso, ou sou chamado ou sou chapado!

Hoje, o corpo local colhe de mim o que não plantou. Em 2013, eu fui para os Estados Unidos para fazer um mestrado em teologia e estudos interculturais num dos melhores, e certamente o maior seminário evangélico no mundo. Cursei com as melhores mentes e isso me custou mais de 65,000 dólares, incluindo mensalidade, custo de vida, livros, etc. Tudo isso eu paguei de bolso, sem nenhum custo para o meu corpo local. Cerca de 8 anos antes do meu mestrado, eu cursei um bacharelado em teologia no melhor seminário da América Latina, isso também com muito sacrifício. Esse curso me levou 4 anos de estudo, com mais de 1,300 horas-aula. Hoje tenho cerca de 7 anos de educação teológica e preparo ministerial. Eu estimo que somente a minha educação custou mais de 100,000 dólares; isso sem mencionar o custo físico, emocional e mental. Todo esse conhecimento e experiência eu trago para o meu corpo local sem nenhuma restrição da minha parte, mas também sem nenhuma compensação por parte do corpo. Por isso, ou sou chamado ou sou chapado!

Meu corpo local já me negligenciou em mais do que uma ocasião. Eu já passei por rejeição, difamação e fofocas por parte de outros membros. Alguns me viam, outros ainda me veem como uma ameaça para seus alvos ministeriais. Tudo isso eu encaro com graça e misericórdia, sem jamais ser contencioso. Certa vez tive que viajar para renovar meu visto grego, o qual no final foi negado. Eu fui proibido de reentrar na Grécia e fiquei em limbo milhares de quilômetros de distância da minha casa. Eu fui retido como um detento por quase 6 horas num aeroporto, eventualmente sendo forçado a retornar para o meu país natal com só a mala de bordo que levei para aquela viagem de 3 dias. Eu fiquei longe do campo por meses depois disso. Meu corpo local me abandonou naquela ocasião. Ninguém me ofereceu ajuda, nem sequer para jogar fora o leite, queijo e outros perecíveis que ficaram apodrecendo na minha geladeira. Um amigo, que sequer faz parte do meu corpo local, eventualmente interviu. Eu, contudo, sigo fiel nesta aliança. Por isso, ou sou chamado ou sou chapado!

Eu já dediquei inúmeras quantias de recursos e minhas finanças pessoais para servir o corpo local, tudo isso sem incentivo ou retorno. O corpo sequer considerou ressarcir-me. Eu já levei adolescentes para conferências e comprei materiais para atividades da igreja com o meu próprio bolso. Toda vez que vou aqui ou ali para ministrar também sai do meu próprio bolso. Mesmo desenvolvendo muitas funções pastorais, o corpo local jamais abriu qualquer tipo de porta para que eu crescesse como ministro do Evangelho. Os dons irrevogáveis que recebi de Deus, assim como minha ordenação ao ministério do Evangelho, pré-datam a minha vinda ao corpo. Eu faço parte de 5ª geração de pastores na minha família e trago este legado de fidelidade ao ministério para minha própria vida. Mesmo assim, ainda não tenho qualquer perspectiva de desenvolvimento profissional ou vocacional no corpo onde sirvo. Por isso, ou sou chamado ou sou chapado!

Respondendo à pergunta dos membros; Você sente-se chamado para estar aqui? Eu reflito, ou sou chamado, ou sou um tremendo de um chapado. Mas pela graça de Deus eu prefiro pensar que sou o primeiro caso, ao invés do segundo!

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