Como a sua Cristologia afeta a sua Espiritualidade

Durante os dois primeiros séculos de sua existência a Igreja experimentou alguns desenvolvimentos teológicos significantes em sua teologia a respeito de Cristo, ou Cristologia, que a afetaram como comunidade adoradora. Naquela época, os dois principais centros da Igreja estavam em Alexandria e Antioquia. Alexandria foi principalmente influenciada pelo pensamento grego, enquanto Antioquia era predominantemente hebraico/judaico. Naturalmente, gregos e os judeus cristãos usaram suas visões de mundo particulares na construção de suas teologias como fé em busca de entendimento. De um lado, os pensadores gregos vieram de uma tradição helenista que era altamente filosófica, especulativa e conceitual. Era um tipo de teologia feita a partir de cima. Os helênicos eram mais propensos a pensar nas qualidades metafísicas da fé. Por outro lado, os judeus cristãos de Antioquia se apropriaram da fé como um modo de vida. Para eles, a teologia estava enraizada na vida prática, nos costumes e tradições. Isto fez de sua abordagem menos filosófica ou metafísica, tornando-o mais holística e a construindo a partir de baixo.

Uma das primeiras posições cristológicas que originou do filosófico e especulativo pensamento helenístico foi o Docetismo. O termo Docetismo vem da palavra grega dokeo, que significa “parecer” ou “aparecer”. Uma das primeiras seitas cristãs docéticas foram os gnósticos. Característico do gnosticismo era uma visão dualista da matéria e espírito. Os gnósticos acreditavam que toda matéria era má, uma vez que tudo que era material estava sujeito à corrupção, degradação e pecaminosidade. Eles, portanto, viam o corpo como uma prisão temporal do espírito, o que por sua vez era eterno e puro. Para os docetistas helênicos, se Jesus realmente foi divino, então ele não poderia ter encarnado, o que teria feito dele pecaminoso. Ao invés disso, Jesus foi imaterial. Os Docéticos acreditavam que forma corpórea de Jesus foi apenas uma aparição, onde a sua vida, sofrimento e morte eram apenas uma aparência, ou feita por Deus parecer daquela forma.

Considerando que o Docetismo surgiu como uma heresia cristológica entre os gregos, no acampamento cristão judaico a posição do “Adocionismo” foi ganhando popularidade. Entre alguns dos grupos que adotaram tal visão estavam os Ebionitas. Conseqüentemente, a teologia de Deus dos Ebionitas era essencialmente monoteísta. Jeová era o único e verdadeiro Deus do Antigo Testamento. No entanto, Jesus foi apenas um homem extraordinariamente justo e sábio, que se tornou Messias através do batismo do Espírito Santo e da obediência rigorosa da lei. Os Ebionitas viam à Jesus como um segundo Moisés, a quem foi dada a filiação através da adoção em prol da realização dos propósitos de Deus no mundo. Assim, o termo “Filho de Deus” se referia apenas ao seu ofício político como Messias. Portanto, o termo Adocionismo veio a descrever a relação de Jesus com Deus na condição daquilo que o fez “Filho de Deus”. Na visão adocionista, Jesus não era totalmente divino, eterno ou co-existente com o Pai. Jesus não compartilhava a natureza divina de Deus e nunca foi plenamente divino, ao passo que na visão Docética, Jesus era apenas divino e nunca plenamente humano.

Como essas heresias começaram a ganhar popularidade, bispos da igreja se reuniram em dois concílios ecumênicos a fim de resolver o problema. O primeiro a ser convocado foi o Concílio de Nicéia, em 325, que incidiu sobre a divindade de Cristo e como definir precisamente a sua relação com Deus Pai. A resolução foi encontrado através dos argumentos de Atanásio que colocaram a divindade de Cristo como igual a do Pai. O Credo Niceno afirmou que Cristo era “Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial com o Pai.” Uma vez que a divindade de Cristo foi afirmada, um segundo conselho foi convocado em 451 d.C. em Calcedônia para definir a forma como as duas naturezas de Cristo, humana e divina, relacionam entre si. Seu principal objetivo era encontrar um meio termo entre Nestorianismo, que dividia as duas naturezas, e Eutiquianismo, que não via nenhuma distinção entre as duas. Pelo uso da teologia apofática, o Conselho de Calcedônia foi capaz de declarar “Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, consubstancial ao Pai na sua divindade e consubstancial com a humanidade em sua humanidade.”

Docetismo e Adocionismo representam dois extremos que ainda estão silenciosamente vivos hoje. Os cristãos nas sociedades ocidentais (Europa e EUA), muitas vezes lutam com o lugar da religião na totalidade de suas vidas. O movimento secularista no ocidente restringiu fé às dimensões privadas da sociedade. A tendência então se tornou a pensar sobre a fé como algo altamente pessoal, privado e especulativo, que trata apenas das coisas metafísicas ou espirituais. A fé cristã passou então a ser algo que alguém “escolhe acreditar”, e isto em torno foi incentivado pelo individualismo expressivo.  O cristianismo então é uma crença pessoal e privada e não deve afetar os âmbitos públicos da sociedade. A fé é algo entre o indivíduo na terra e Deus que está “lá no céu”.

Por outro lado, sinais de Adocionismo são encontrados predominantemente no Sul Global onde religiões folclóricas (ou populares) são mais predominantes. Em religiões folclóricas, a fé é vista como algo altamente pragmático, confinado principalmente na realidade material. Religiões populares do Sul Global muitas vezes se concentram no reino espiritual como um meio de manipular a realidade natural e vice e versa. Os espíritos existem para curar, garantir uma boa colheita e até mesmo lidar com os inimigos de uma pessoa. Inspirada pela abordagem popular, Cristo torna-se então uma entidade que é mais poderosa que os demais espíritos, e por isso pode trazer uma solução para os meus problemas. A visão folclórica limita a fé somente à esta vida e a realidade que se pode ver. O Cristianismo se torna semelhante à feitiçaria, onde o reino espiritual é manipulado para o benefício próprio, muitas vezes até em detrimento das pessoas a nossa volta.

Diante desse cenário, você provavelmente pode agora colocar-se em algum lugar deste espectro. Nossa visão de Cristo, nossa cristologia, afeta quem somos como cristãos, nossa espiritualidade. O que os dois conselhos afirmaram foi um sim a estes dois extremos. Ao fazer isso, a igreja misturou a divindade e humanidade de Cristo na mesma pessoa. A palavra “misturar” aqui faz justiça, pois o alvo era não poder separar o divino do humano, o espiritual do natural. As duas realidades devem formar uma meta-consciência, onde o físico e espiritual se tornam indivisíveis. Desta forma, Cristo é capaz de identificar-se totalmente com a nossa própria humanidade e entender tudo o que passamos, ao mesmo tempo sendo totalmente Deus. A espiritualidade saudável é aquela que vê a vida e o propósito de Cristo em todo o reino da criação e entende que Jesus tem uma missão no mundo, ao mesmo tempo inspirando adoração à Cristo como Deus e Soberano Criador do Universo.