Como Continuar a história do Antigo Testamento Hoje

Este é o terceiro e último post da nossa série sobre as três coisas mais importantes a igreja precisa de saber sobre o Antigo Testamento. No primeiro post eu abordei o que faz do Antigo Testamento relevante como a Palavra de Deus. Vimos como Cristo e os Apóstolos usaram-o como base para a nova revelação de Deus em Jesus Cristo, e também como Cristo se tornou uma ferramenta hermenêutica para ler e interpretar o AT. No segundo post eu toquei em como o Antigo Testamento deve ser lido. Vimos como é importante para todos os cristãos terem um conhecimento básico da história e geografia do Israel antigo. Com esse conhecimento, o leitor pode ter uma referência mental dos acontecimentos do Antigo Testamento e seus estilos literários. Vamos agora passar para a terceira coisa que vejo como mais importante para a Igreja saber sobre o Antigo Testamento; Como continuar a história do Antigo Testamento hoje.

A fim de continuar a história do AT, a Igreja deve entender como o Antigo Testamento relata o enredo redentor de Deus. No AT, a história da relação entre Deus e o Seu povo é contada através da utilização de diferentes temas que permeiam toda a narrativa bíblica. Tecnicamente definido, um tema é uma característica distinta, ou uma idéia dominante em uma composição literária. Temas como a criação, eleição, aliança e redenção servem para infundir significado na história de Deus. Estes não estão necessariamente ligados a um estilo literário ou à uma época da história específica. O tema da redenção por exemplo, pode ser encontrado em mitos, poesia, profecias e relatos históricos, como no livro de Juízes. Os temas fazem com que todo o AT torne-se igualmente importante; sim, até as extensas cronologias. Ao identificar estes temas e extrair o seu significado à luz do seu contexto, a Igreja é capaz de pintar uma paisagem mais abrangente da história de Deus que começa no AT, continua no NT e expande até os dias de hoje.

Estes temas servem como representações de intenção missiológica de Deus. Ao fazer isso, eles não só contam a história de Deus (o que Deus faz pelo Seu povo), mas também chamam o leitor a participar da mesma missão. Por exemplo, em Gênesis 12 vemos eleição e aliança como temas dominantes. Lemos que Deus elege Abrão para que através dele todas as famílias da terra sejam abençoadas. Após a sua eleição, Deus então estabelece uma aliança com Abrão em Gênesis 15, prometendo a terra de Canaã como sua herança. Considerando que a aliança define os termos do relacionamento de Deus e Abraão, a eleição define o seu propósito missionário. Deus elege Abraão para um fim, que começa com o relacionamento com Deus mas termina em bênção para todo o mundo através da pessoa de Cristo. O NT então dá continuidade ao tema do AT, o qual é relevante ainda hoje.

O tema da aliança na verdade antecede Abraão. Aliança é uma “vértebra” que está presente em Gênesis na criação e vai até ao livro de Apocalipse. Na criação, Deus é revelado como completamente transcendente e soberano sobre o caos (Gn 1, 2). Contudo, Deus estabelece uma relação de aliança com a humanidade, e a elege para o propósito de cuidar da Sua criação (Gn 1:26). Este tema mostra que, independentemente de sua interpretação de Gênesis 1, literal ou não, a mensagem e o significado do relato permanece o mesmo. A mensagem é que Deus não precisa dos seres humanos, mas mesmo assim os convida para participar da Sua missão criadora e re-criadora. Aliança é um tema dominante. É uma metáfora de raiz através da qual Deus revela sua divindade tanto no Antigo como no Novo Testamento. É esta hermenêutica missiológica do Antigo Testamento que pode ajudar a Igreja a dar continuidade à história redentora de Deus no mundo hoje.

Vejamos mais um exemplo de aplicação de temas missiológicos do AT. O apóstolo Paulo compreendeu esse princípio hermenêutico ao aplicar o tema da aliança nas igrejas em que plantava. Vemos isto principalmente nas Cartas aos Coríntios. Na época de Paulo, Corinto era uma cidade vibrante e diversificada. A cidade consistia de romanos, gregos, bárbaros e judeus, entre várias outras nacionalidades. Em Corinto havia pessoas livres e escravas, comerciantes, artistas, políticos, soldados e todo tipo de negócios devido ao seu importante porto no Mar Mediterrâneo. A diversidade cultural e econômica de Corinto era evidente para todos os que caminharam pelas ruas. Da mesma forma, a igreja plantada por Paulo refletia a diversidade da cidade. Na igreja haviam homens e mulheres, livres e escravos, judeus e gentios, os quais participavam da mesma comunhão por causa da fé em Cristo. Porém com o tempo, o sistema de classes sociais de Corinto havia infiltrado a vida comunitária da igreja.

Em 1 Coríntios 11: 17-34, encontramos o apóstolo Paulo admoestando a igreja em Corinto por ter violado a Ceia do Senhor. A ceia do Senhor é uma representação da aliança que começa no AT. Cristo havia instituído a Ceia como símbolo da Nova Aliança em Seu sangue. Paulo então imediatamente identifica o problema da igreja, apontando para as “divisões entre eles” (v.18), as quais eram uma questão de orgulho para mostrar quais deles tinham a “aprovação de Deus” (v.19). A palavra grega aplicada por Paulo para divisões é σχίσμα (cismas), que alude especificamente à uma divisão social. Estas divisões estavam destacando as diferenças sociais entre eles (v.21) e “humilhando aqueles que não tinham nada” (v.22). A prática da igreja de Corinto era a antítese da aliança missiológica modelada por Cristo e pelo Antigo Testamento. Paulo então refere-se a representação da aliança em Cristo(v.23), enquanto visa restaurar o seu significado naquela igreja. A interpretação de Paulo da reapresentação Nova Aliança em Cristo significava que a igreja era para todos, especialmente os excluídos da sociedade.

A compreensão e aplicação da Santa Ceia como representação da aliança no Antigo Testamento por parte de Paulo mostra a sua maestria em aplicar as verdades do AT no mundo contemporâneo. Paulo dá a entender que o tema da aliança tinha uma mensagem de significado e propósito na sociedade de Corinto de sua época. Paulo então dá continuidade à aliança na história da Páscoa onde Deus libertou os israelitas oprimidos do Egito no Antigo Testamento. Para Paulo, Cristo havia libertado os escravos e oprimidos como Deus havia feito no Êxodo. Deus estava agora escrevendo uma história de libertação entre os oprimidos e cativos de Corinto por meio da Igreja. A Ceia então era a celebração desta libertação!

Paulo era um mestre em contextualizar os temas missiológicos do Antigo Testamento. Da mesma forma, a igreja de hoje pode identificar esses temas principais e aplicá-los a diferentes contextos e desafios, dando assim continuidade à história de Deus no mundo. Em resumo, o Antigo Testamento deve informar como entendemos a missão de Deus no mundo hoje. Ao mesmo tempo, o Novo Testamento, que não é inteiramente “novo” mas sim uma continuação do Antigo, conta a história da intenção missiológica de Deus que segue não apenas hoje, mas até o fim dos tempos. Ao identificar e aplicar as representações da intenção missiológica de Deus através dos temas do Antigo Testamento, a Igreja pode dar continuidade à sua história no mundo de hoje.

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