Como Ler o Antigo Testamento

Como Ler o Antigo Testamento

Este é o segundo de uma série de três posts sobre o que eu acredito que a Igreja deve saber sobre o Antigo Testamento. Meu último post explorou como Cristo e os primeiros discípulos atribuíram grande importância para a Torá, os Escritos e os Profetas, considerando-os como a Palavra de Deus divinamente inspirada. Toquei em como os Apóstolos interpretaram o AT Cristologicamente, permitindo que as reivindicações a respeito de sua historicidade assumissem um papel de apoio a fim de projetar o significado de seu imaginário por meio de Cristo. Vimos que essa é uma abordagem válida, porque a maior parte do Novo Testamento segue um estilo literário onde os autores presumem que os leitores compartilham o mesmo background cultural e conhecimento histórico.

Esta presunção é útil na definição de quem foi o público-alvo original, mas também apresenta desafios significativos para os leitores de diferentes origens culturais e históricas. Porque o conhecimento sobre a história de Israel é presumido, naturalmente urge a todos que não são judeus cristãos vivendo no tempo de Cristo a mergulhar no mundo do Antigo Testamento por si mesmo. É por isso que a segunda coisa que a igreja precisa saber é Como Ler o Antigo Testamento. Só assim o leitor irá poder extrair uma compreensão mais completa do Novo.

Conhecer a história e o mundo do Antigo Testamento é uma obrigação para qualquer cristão. Por isso, a Igreja deve entender os principais marcos históricos e acontecimentos registrados na história de Israel no Antigo Testamento. Principalmente os que servem como pano de fundo para o Novo. Mas junto com o contexto histórico, a Igreja também deve compreender a geografia e os principais pontos de referência que desempenham um papel nas importantes narrativas veterotestamentárias. Ao fazer isso, a Igreja é capaz de colocar a narrativa bíblica dentro de um contexto histórico-geográfico e melhor compreender o que esses eventos voltados para os israelitas naquele momento particular da história.

Além disso, tendo este pano de fundo o leitor pode também entender melhor a estrutura teológica e epistemológica dos escritores neotestamentários, e a mensagem que eles buscavam comunicar. Este exercício cria um ciclo hermenêutico que complementa ambos os Testamentos. Os escritores do Novo Testamento entenderam a pessoa de Cristo à luz do Antigo, mas também começaram a entender o Antigo Testamento à luz de Cristo no Novo. Esta abordagem dá um equilíbrio para a narrativa bíblica onde tanto o contexto histórico de Israel no AT e a nova revelação de Cristo no NT são valorizados.

Junto com a compreensão do contexto geo-histórico de Israel, aprendendo a identificar os diferentes estilos literários presentes no Antigo Testamento podem também ajudar a Igreja a lê-lo de forma eficaz. O Antigo Testamento não é um único volume uniforme. Ele é uma compilação de livros e narrativas escritas ao longo de um período de cerca de mil anos. Eles foram escritos e compilados usando diferentes línguas, hebraico e aramaico, e uma variedade de estilos literários vindos de antigo Oriente Médio. Considerando que a Bíblia Hebraica tem apenas três partes principais (a Torá, os profetas e os escritos), a tradução protestante do Antigo Testamento que provém da Septuaginta é dividida em quatro partes principais com um total de 39 livros. A primeira parte é o Pentateuco (Gênesis-Deuteronômio), a segunda são os livros históricos (Josué, Juízes, Rute, 1-2 Samuel, 1-2 Reis, 1-2 Crônicas, Esdras, Neemias e Ester), a terceira é composta de Livros Poéticos (Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos), e, finalmente, os livros proféticos (Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias).

Todas estas partes têm diferentes estilos literários que são usados ​​para transmitir a mensagem divina. Por exemplo, o Pentateuco em Gênesis oferece uma redefinição da origem do mundo que difere de outras narrativas antigas e também das teorias de origem contemporâneas. O Pentateuco apresenta Deus como o Criador soberano que transcende a realidade criada, mas que também não deixa de estar envolvido na existência e sustentabilidade do mundo. Gênesis também oferece o conceito de Aliança através da eleição de Abraão e sua família, um conceito que se torna importante em toda a Bíblia e tem seu cumprimento em Cristo. O Pentateuco também inclui a Torá, comumente referida como a Lei. A Torá não é “lei” em si, mas sim “instruções” divinas sobre como viver dentro dos limites da aliança de Deus. Portanto, o Antigo Testamento não é “lei/julgamento”, onde o Novo Testamento é “graça/salvação”. Ambos nos dão instruções sobre como andar no caminho do Senhor, complementando-se mutuamente e formando a Bíblia como um todo.

A Bíblia também tem livros históricos. Estes são narrativas que cuja principal finalidade é revelar como Deus está envolvido na vida cotidiana de Israel através de eventos históricos que servem para trazer o propósito de Deus à realidade. Estas narrativas históricas definem o contexto para a história de Deus, ao mesmo tempo que revela a pessoa e a missão de Deus como sendo ativa no mundo. Neles encontramos como Israel chegou a possuir a terra de Canaã (Josué e Juízes) através dos milagres de Deus, como Israel se desenvolveu em uma monarquia (Samuel e Reis), e como a terra foi perdida para o Império Babilônico (Reis e Crônicas) dando origem ao exílio.

Além disso, os livros poéticos oferecem um olhar austero sobre a condição humana através de uma ampla gama de poesias e provérbios de sabedoria. Por exemplo, os salmos oferecem um olhar criativo e reflexivo sobre o relacionamento com Deus através da adoração e orações de vários tipos. Devoção nos Salmos é expressa em tanto em comunidade quanto individualmente, mostrando como Deus está envolvido no contexto mais amplo, mas também no nível individual e particular. Por fim, os livros proféticos servem para transmitir a mensagem de Deus ao povo de Deus. Profetas do Antigo Testamento não só servem para prever o futuro, mas eles agem como intermediários entre Deus e a humanidade. Os profetas servem como porta-voz de Deus para confrontar, confortar e coagir o povo de Deus a viver uma vida em justiça. Eles emitem advertência e julgamento, mas também declaram a vontade de Deus, Suas promessas e Seu amor através da aliança com povo de Israel.

Ao aprender a mergulhar no mundo do Antigo Testamento e identificar seus diferentes estilos literários, a Igreja pode entender melhor a sua mensagem e significado para os dias de hoje. Os escritores do Novo Testamento não se preocupam em fornecer ao leitor moderno com a informação necessária sobre a história de Israel. Este deve ser o exercício da Igreja, como comunidade interpretativas, de se envolver com o Antigo Testamento em profundidade, de uma forma que o mesmo molde a fé cristã e a nossa compreensão do Novo Testamento nos dias de hoje.

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