Como o Antigo Testamento é Relevante Hoje

Como o Antigo Testamento é Relevante Hoje

Bem-vindo a você que acompanha este blog. Este é o primeiro numa série de três posts sobre o que a Igreja precisa aprender a respeito do Antigo Testamento. Esta série e destinada à analisar o Antigo Testamento de uma forma que vá além da semiótica rasa que é usada pela igreja no Brasil hoje. Por semiótica rasa eu me refiro à adoção de usos e costumes arcaicos, à judaização da fé e a criação de uma superstição cristã que usa a simbologia e numerologia do Antigo Testamento como pretexto para práticas contrárias à Palavra de Deus. Acontecimentos recentes, como a construção do “Templo de Salomão” pela IURD em São Paulo, serve como prova que a Igreja precisa aprender muito sobre o Antigo Testamento. Com isso em mente, vamos ao que interessa.

A primeira coisa que a igreja precisa aprender sobre o Antigo Testamento é que ele ainda é relevante hoje. O Antigo Testamento é muitas vezes visto como um conjunto de leis de um Deus irado que está sempre preparado para punir quem as desobedece. Essa perspectiva mal informada vê a atividade principal de Deus no Antigo Testamento como uma de julgamento e ira sobre a humanidade. Conseqüentemente, por que Deus revelou sua Divindade através da graça no Novo Testamento, de alguma forma Deus não é mais daquele jeito e o portanto Antigo Testamento não se aplica mais.

Isso não poderia estar mais longe da verdade. Deus é o mesmo em ambos os Testamentos. A Bíblia é narrativa, e o Antigo Testamento marca o início da história de Deus com a humanidade. Antigo, neste caso, não significa antiquado, irrelevante ou inaplicável. Antigo simplesmente significa que ele veio primeiro, que antecede o Novo. Por que o Antigo Testamento veio primeiro, ele serve como base para o Novo. Representa o primeiro ato na história de Deus com a humanidade, a mesma que continua no Novo Testamento e nos dias de hoje.

O estudo do Antigo Testamento então é importante para podermos obter uma imagem completa da história de Deus com a humanidade. Mas mais do que isso, ele é importante para a compreensão do próprio Novo Testamento. É o Antigo Testamento que molda toda a estrutura teológica e epistemológica dos escritores do Novo Testamento. Os Apóstolos consideravam que o Antigo Testamento era a Palavra inspirada de Deus (2 Tm 3:14-17), viva e eficaz (Hb 4:12) no mundo. Eles também davam importância primordial para o estudo e ensino do AT (Atos 6:4) e, por sua vez, incentivavam toda a igreja para aprender e se apropriar de sua mensagem (Rm 15:4). Por isso, o Antigo Testamento se iguala ao Novo em importância e significado, com o objetivo de contar a história do relacionamento de Deus com o Seu povo, uma história à qual a Igreja de Cristo pertence hoje.  Acima de tudo, o próprio Jesus estudou e ensinou a partir do Antigo Testamento. Ele o usou para fortalecer a sua fé quando estava passando por dificuldades (Mt 4:4), usou-o também ao ensinar seus discípulos sobre a vida cristã (Mt 5:18), e até para definir sua própria missão no mundo (Lucas 4:16-21).

A utilização e receptividade do Antigo Testamento como Palavra de Deus na Igreja Primitiva não era baseada na idéia moderna de veracidade e historicidade que temos hoje.  Eles não precisavam de provas arqueológicas para crer que o Antigo Testamento era verdade. Pelo contrário, o Antigo Testamento foi aceito fato de que Jesus o usou como um testemunho de si mesmo (Lucas 24: 13-35). Então, o Antigo Testamento testemunha a respeito de Cristo e por isso é válido como Escritura. De certa forma, todo o entendimento da Igreja Primitiva a respeito do Antigo Testamento partia da fé que eles tinham em Jesus Cristo. Portanto, a Igreja de hoje deve acolher e crer no Antigo Testamento, pois ela crê no Cristo de quem o AT dá testemunho.

Com isto em mente, Jesus torna-se a ferramenta hermenêutica com que a Igreja interpreta o Antigo Testamento. Os escritores neotestamentários apresentam Jesus como sendo a continuidade e o cumprimento das simbologias e profecias do Antigo Testamento. Os apóstolos acreditavam que a Lei (que não significa “lei” como estatuto, e sim instrução de vida), era uma sombra dos benefícios que haviam de vir em Cristo (Hb 10:1). Em reinterpretar o Antigo Testamento Cristologicamente, eles não ocuparam-se necessariamente com a interpretação histórica do seu significado. Em vez disso, eles procuraram interpretá-lo à luz da tradição judaica e a revelação de Messias na pessoa de Jesus. Ao contrário do que consideramos ser conhecimento histórico hoje, a legitimidade da interpretação e mensagem do Antigo Testamento não estava ligada à autenticidade histórica (ou falta da mesma) dos relatos que aconteceram no AT. A história e a tradição do Antigo Testamento foi simplesmente presumida pelos autores do NT. Sua historicidade ficou em segundo plano, a fim de comunicar a sua mensagem e significado cristológico.

No entanto, isso não implica que o Antigo Testamento não estava inserido num contexto histórico-geográfico, ou que os Apóstolos não se importaram com isso. Pelo contrário, o Antigo Testamento foi interpretado como o prelúdio da ação de Deus que aconteceu dentro do território geográfico (terra de Canaã) e história de Israel, cujo os  movimentos políticos e sociais do tempo de Jesus haviam originado. Jesus vem ao mundo em Israel num tempo onde a expectativa pelo Messias, como libertador político, estava em seu auge. A presença do Império Romano e o surgimento das diversas facções judaicas em Israel informam uma continuidade histórica do Antigo para o Novo, no período que é chamado de intertestamentário. É a presença destes seguimentos que produz uma ponte entre o Antigo e Novo, a qual Jesus e os discípulos usam para atribuir a relevância do Antigo Testamento naquele tempo e nos dias de hoje.

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