Criação e Ciência na Teologia de Karl Barth

O Papa Pio XII afirmou certa vez que Karl Barth foi o maior teólogo cristão desde Tomás de Aquino. Tal título não é sem seus próprios méritos. Barth é considerado por muitos o responsável de ter causado uma mudança de paradigma no campo do conhecimento de Deus e da revelação divina. No entanto, a comparação com Tomás de Aquino quando se trata de uma teologia da criação não é sem um pouco de ironia, uma vez que Barth se opôs fortemente à adesão do movimento da teologia natural que Tomás de Aquino liderou na idade medieval. Para Barth, a teologia per se tinha uma maior abrangência para falar a partir e através das áreas onde o método científico tinha encontrado suas limitações.

Consequentemente, Barth não via as ciências naturais e teologia da criação como pertencentes ao mesmo campo de estudo. Pelo contrário, ele via ciências e a teologia natural como uma visão de mundo totalmente distinta da religião. Na abordagem de Barth nenhuma síntese dos dois poderia ser feita. Ambos partiam de diferentes epistemologias que acarretavam suas próprias considerações de tal maneira que cada uma “apresentava seu próprio reconhecimento de seu próprio objeto com sua própria base e coerência, não reivindicando ser melhor, mas sim um tipo de conhecimento diferente, que não exclui uma a outra, mas é desenvolvido em justaposição e antítese a ela.”1 Para Barth, a ciência natural e a teologia pertenciam à disciplinas não sobrepostas.

A apreensão de Barth no sentido de um diálogo entre a ciência natural e teologia foi em grande parte devida à sua aversão contra a agenda do projeto da modernidade na sociedade e no meio acadêmico. A modernidade tinha estabelecido novas exigências intelectuais para a compreensão da teologia e história, que consequentemente produziram uma nova escola de teólogos liberais. Guiados pela utopia do racionalismo e do pensamento crítico, a ideologia do Darwinismo começou a ser aplicada aos estudos teológicos como um sistema de pensamento, assim resultando em novas formas de interpretar a Bíblia. Tal movimento foi responsável pela criação do método histórico-crítico de Friedrich Schleiermacher, e a “Hipótese Documentária” de Julius Wellhausen. Ambas abordagens promoveram uma “desmitologização” da Escritura e uma demissão de mitos e sagas hebraicas que eram as chaves para o entendimento da revelação de Deus na teologia de Barth. Como a narrativa da criação em Gênesis 1-3 não podia ser provada empírica ou historicamente, ela tornou-se nada mais do que um mito hebraico para pessoas como Schleiermacher em 1700 e 1800, Wellhausen em 1800 de 1900, e muitos teólogos neo-liberais hoje. A obsessão pela hermenêutica da modernidade por parte de teólogos liberais fez com que Barth visse limitações intrínsecas na teologia natural como esquema epistemológico.

Isso não significa que Karl Barth não considerava a teologia como sendo uma exploração científica. Em vez disso, ele postulou que o “a teologia e a ciência natural trabalham e discutem ao lado um do outro como fenômenos que permanecem rigorosamente paralelos um ao outro.”2 Embora paralelos, Barth não via como necessário identificar sobreposições entre os dois campos, descartando qualquer noção de acordo parcial e rejeição entre as duas hermenêutica. Embora ambos incentivavam uma abordagem acadêmica, a criação na teologia de Barth falava intrinsecamente a respeito da revelação de Deus. Como resultado, sua teologia tornou-se extremamente preocupada com a transcendência divina. Em uma carta escrita a uma sobrinha-neta em 1965, Karl Barth resumiu sua opinião; “A história da criação lida apenas com o surgimento de todas as coisas e, assim portanto, com a revelação de Deus, a qual é inacessível para a ciência como tal.”3

Diante do que ele considerava uma ameaça para a fé cristã, Karl Barth renunciou seu treinamento teológico liberal e assim começou a procurar uma nova maneira de pensar. Em busca de uma alternativa, ele assimilou “uma abordagem que procurou reavivar o imediatismo do encontro divino-humano através das palavras da Sagrada Escritura.” [Note] Ibid. Página 42 [/note] Ele então desenvolveu uma abordagem dialética em sua teologia. Neste exercício, ele procurou sintetizar as diferenças entre revelação e religião, o Criador e a criação e Deus e o mundo. Esta viragem radical contra a maré da academia teológica liberal lhe resultou em em ser chamado de “neo-ortodoxo” por parte da esquerda adversária. Foi a busca da apropriação das Escrituras mantendo a teologia como campo acadêmico que levou Barth a limitar a sua teologia em Cristo como a revelação especial de Deus. Neste esforço, Barth restaurou Deus como o objeto da teologia, assim defendendo “que o conhecimento teológico deve respeitar as estruturas de todo conhecimento humano e se conformar ao seu próprio objeto de estudo.”4

A Bíblia fala da revelação de Deus e portanto a teologia deve manter uma abordagem dogmática. O retorno de Karl Barth para uma epistemologia dogmática e seu foco na revelação divina, sem dúvida, trouxe implicações para a sua teologia da criação. Como mencionado, a história da criação na teologia de Barth tem a ver com a auto-revelação de Deus e a realidade do conhecimento de Deus que surge desta revelação. Deus só é cognoscível porque Deus escolhe revelar-se a si mesmo. Enquanto a teologia liberal se concentrava em descartar a veracidade de Gênesis 1, para Barth, a história da criação se tornou um importante “evento” porque continha a auto-revelação de Deus, que em última análise, atinge a sua recriação em Cristo. Desta forma, falar da criação requer uma confissão de fé em Cristo como o Filho de Deus a priori. Portanto, isto significa que o estudo de Gênesis 1-2 tem pouco a ver com a verdade empírica, e tudo a ver com a dogmática do seu conteúdo revelatório. Em Cristo, “o próprio Deus tornou visível a relação entre o Criador e a criatura na sua base, sua norma, e seu significado.”5

Inspirado por sua visão dogmática altamente cristológica, a principal contensão de Barth com as ciências naturais estava na tentativa darwinista em fazer alegações sobre o significado e causa final da existência de todas as coisas. Usando Cristo como sua chave interpretativa do relato da criação, a teologia da Imago Dei desempenha um papel importante na doutrina da criação e da antropologia teológica de Barth. É neste ponto que as ciências naturais e sociais pareciam encontrar suas limitações. Para Barth, Cristo é o cumprimento da criação, um protótipo da nova humanidade. Portanto, “o que é dito na perspectiva de Jesus tem de ser entendido primeiramente na retrospectiva dele; toda a circunferência do conteúdo da Escritura, e, portanto, também a verdade e a realidade da criação do mundo por Deus, só pode ser entendida a partir deste centro cristológico.”6

Apesar de Karl Barth ter sido objetivamente (ou subjetivamente) dogmático em sua abordagem epistemológica, é importante notar que a sua intenção era evitar os intermináveis debates sobre a inerrância das Escrituras que foram provocados com a aplicação de princípios darwinianos no campo da teologia bíblica. Ao mesmo tempo, não era a intenção de Barth se alinhar com o ressurgimento fundamentalista que estava ganhando força particularmente nos Estados Unidos. O que Barth pretendia era um retorno à revelação como a base da epistemologia divina, assim criando distância entre revelação e a teologia natural. A criação em sua teologia é essencialmente dogmática, sendo a estrutura revelatória pela qual obtemos nosso sentido de valor e propósito como criaturas de Deus. Ao fazer isso, ele confinou a teologia e a ciência, como linguagens de significado, nos seus respectivos campos ideológicos. Para ele, teologia e ciência operavam como dois trilhos do mesmo trilho de trem, uma posição que se tornou assertivamente contestada por seu pupilo, Wolfhart Pannenberg.

Notas de Rodapé

  1. Schwarz, Hans. 2002. Creation. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Co. Página 142
  2. Ibid. Página 142
  3. Sherman, Robert. 2005. The Shift to Modernity: Christ and the Doctrine of Creation in the Theologies of Schleiermacher and Barth. New York: T & T Clark International. Page 41
  4. Dyrness, Willian A., and Veli-Matti Kärkkäinen. 2008. Global dictionary of theology: a resource for the worldwide church. Downers Grove: IVP Academic. Página 103
  5. Barth, Karl, Geoffrey William Bromiley, and Thomas F. Torrance. 2004. Church Dogmatics Vol 3: The Doctrine of Creation Part 1. London: T&T Clark International. Página 25
  6. Ibid. Página 24
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