Criação e Ciência na Teologia de Wolfhart Pannenberg

O teólogo alemão Wolfhart Pannenberg é um daqueles estudiosos pouco conhecidos no Brasil apesar de ser considerado por muitos como um dos maiores pensadores cristãos do último século. Parte de sua anonimidade se dá pelo fato de que poucos dos seus inúmeros livros chegaram a ser traduzidos para o português. Outra parte se dá pela complexidade da sua escrita tanto em alemão quanto em inglês. Ler e tentar entender Pannenberg é pedir para ter dores de cabeça, como o leitor há de ver. O que segue aqui é uma metanálise da sua teologia da criação usando fontes de primeira e segunda mão com o propósito de ver como ele busca dialogar com a ciência moderna no exercício da sua reflexão.

No último post, vimos como Karl Barth considerava que a ciência natural e teologia da criação eram incompatíveis. Seu pupilo, Wolfhart Pannenberg, tem uma abordagem totalmente diferente. Com o advento da modernidade, a teologia como ciência de estudo tinha sido relegada às margens do conhecimento objetivo. As alegações daquilo que era verdade junto com as declarações dogmáticas por parte da teologia já não eram consideradas cientificamente prováveis à luz da recém-descoberta realidade empírica e racionalista. Para círculos acadêmicos europeus e norte-americanos, a teologia passou a lidar só com o subjetivo e a existência metafísica do divino, ambos os quais eram impossíveis de serem provados na ótica empiricista. De acordo com este processo, teólogos liberais se adaptaram ao processo do racionalismo e se removeram do diálogo igualitário com outras ciências empíricas. O resultado foi um desequilíbrio na concepção da ciência e teologia como campos de estudo.

De fato, a teologia e a ciência começaram a falar dois idiomas completamente diferentes. Ted Peters, um teólogo luterano especialista em Pannenberg, veio a chamar isso de “a teoria de dois idiomas.” Peters identifica que foi o acampamento neo-ortodoxo, do qual Karl Barth era sua maior voz, que apresentou pela primeira vez esta nova abordagem desalojada. Ele escreveu: “Esta teoria (de dois idiomas) sustenta que não há conexão alguma entre o que os cristãos acreditam sobre a criação do universo de Deus e a criação observável por métodos científicos.”1 A adversidade de Peters contra a teoria de dois idiomas é reflexo da própria crítica que Pannenberg fez da abordagem de Karl Barth, o qual considerava a revelação divina como epistemologia objetiva. Pannenberg pensava que se alguém começa pela ótica da revelação ao lidar com a teologia como a ciência de Deus, é preciso primeiro pressupor a existência da própria revelação. Ele concluiu que “o não-mediado ponto de partida de Barth em Deus e sua palavra revelatória acaba por ser não mais do que um postulado infundado da consciência teológica”.2

Para Pannenberg, afirmar a Deus e a criação dogmaticamente os deixa suscetíveis à subjetividade religiosa. A chave reside, portanto, na abordagem de Deus como um problema a ser resolvido interdisciplinarmente. Afastando-se da subjetividade, Pannenberg procurou recalibrar a escala desigual entre a ciência e teologia. Usando muita criatividade, ele reinstitui o velho desafio dialógico para teólogos e cientistas. O desafio para os cientistas era esse, se o Deus da Bíblia é o Criador, em seguida, os processos da natureza não podem ser plenamente compreendidos sem referência a ele. Por outro lado, o desafio para teólogos era de que se a natureza pudesse ser plenamente compreendida sem referência à Deus, “conseqüentemente, ele tão pouco pode ser verdadeiramente Deus ou ser confiável como fonte de ensinamento moral.”3

No entanto, para que a ciência e a teologia pudessem dialogar elas tinham primeiro que falar a mesma língua. Neste ponto, Pannenberg categoriza ambos como estudos científicos, não contando os princípios empíricos encontrados em ciências naturais. Tentando superar o obstáculo empírico, sua solução foi apropriar conhecimentos científicos filosóficos sobre o conceito da verdade a partir do campo das ciências sociais para assim assimilá-los à teologia como uma ciência humana. A hermenêutica aplicada por Pannenberg derivou da filosofia e sociologia de Wilhelm Dilthey e Jürgen Habermas relativa às linguagens de sentido/significado dentro do processo histórico. O ponto de partida de Pannenberg foi esse; “Apenas o sentido afirmado pelo próprio agente dá acesso adequado ao comportamento que é direcionado à situação interpretada por ele.”4

Portanto, a linguagem de discurso antecede o indivíduo no seu contexto, o qual revela o significado do que é comunicado naquele momento na história. Esta aplicação sociológica ao relato da criação então implica num reequilíbrio na escala científica proverbial. A Bíblia como linguagem de discurso agora poderia ser analisada sociologicamente. “A inter-relação da conceitualidade científica e filosófica determina a estrutura para uma discussão racional sobre se as afirmações teológicas a respeito da criação do mundo são relacionáveis com a descrição científica do mundo natural.”5 Usando esta chave hermenêutica, o Pannenberg então olha para o relato da criação através das narrativas encontradas na história humana. Ele julga então que o relato bíblico da criação comparado à outros relatos do mundo antigo era a melhor explicação sobre a origem do mundo na época de sua concepção.6 Em outras palavras, os autores bíblicos podiam apenas entender o mundo de acordo o entendimento disponível à eles naquele momento histórico. Para Pannenberg, essa mesma abordagem deve servir como um modelo para teólogos hoje. Ao invés de criar um novo método científico (creacionismo) para explicar a criação através de um entendimento teológico, Pannenberg permaneceu confiante de que “a verdade não podia ser dividida e que não havia oposição entre a teologia e as ciências naturais”7 no contexto histórico da humanidade.

Wolfhart Pannenberg então olhou para os descobrimentos científicos modernos para poder extrair possíveis “correspondências” teológicas (como os autores bíblicos haviam feito em sua época). Na base existencial da natureza, ele é capaz de ver uma inter-relação marcante entre a o relato sequencial da criação em Gênesis 1 e a explicação física-cosmológica sobre a origem do universo onde “a luz surge no começo e seres humanos aparecem no final da sequência.”8 Neste processo, Pannenberg identifica um certo nível de contingência na qual a existência de vida depende. Ele então assimila este conceito abstrato para poder providenciar uma visão mais completa da ordem criada, postulando que a contingência para existência de vida é amplamente ignorada pela ciência natural. Neste vácuo, Pannenberg então vê um lugar para explicação teológica como uma linguagem de sentido sugerindo que a presença de tais variáveis implica que “a existência de todo o mundo é contingente no fato de que ela não precisa existir. A criação então deve a sua existência à atividade livre da criação divina.”9 Junto com as variáveis contingências para a existência da vida, a necessidade de interdependência para a preservação da vida também aponta para inter-relação da natureza com a atividade divina. Criação é então um ato livre de Deus, o qual é por si mesmo distinto da mesma. A natureza em sua ordem e necessidade de preservação são contingentes aos contínuos atos de providência divina.

É baseado nesta necessidade de preservação ininterrupta que Pannenberg apropria um outro elemento de ação divina. Neste processo, o Espírito se torna dinamicamente envolvido na sustentação da ordem criada. Com muita criatividade, o teólogo apropria o conceito de campo da física para relacionar a convergência de força que forma aglomerados de matéria, com a atividade do Espírito que sustenta toda a criação. Neste ponto, Pannenberg acredita que “o conceito de campo de força podes ser usado para fazer efetiva a nossa compreensão da presença espiritual de Deus em fenômenos naturais.”10 Ele concede que entender o Espírito como uma “força” pode condescender a sua pessoalidade Trinitária, porém ele defende que a desassociação do Espírito de linguagens antropomórficas pode também ajudar a preservar a sua transcendência. Através desta aproximação, Pannenberg parece se distanciar do Teismo Clássico, apontando para uma forma sutil de “panenteísmo” onde o Espírito é a força animadora do cosmos. Ele sugere que existe uma necessidade metafísica como base de toda existência, ao mesmo tempo mantendo distinções ontológicas entre Deus e a criação.

Ao todo, Pannenberg nos convoca à uma contextualização do relato bíblico da criação com o entendimento científico moderno. Ele sugere que isso acontece através da identificação de possíveis aproximações entre o sentido teológico do discurso bíblico e descobertas científicas contemporâneas. Pannenberg defende que nenhuma ciência é conclusiva até que o processo histórico da mesma chegue ao seu fim. Desta maneira, nem as mais recentes descobertas científicas podem ser completamente conclusivas e autodeterminantes. Em última análise, Wolfhart Pannenberg entendeu que a busca pela origem de todas as coisas é em sua essência uma busca de sentido e significado. Ao contrário de Karl Barth, Pannenberg desassocia a teologia de sua epistemologia dogmática e classifica-a como ciência humana através da sociologia habermasiana. Suas ideias sobre possíveis “aproximações” entre a teologia e ciência usando as descobertas da física e cosmologia mostra a sua tentativa de sobrepor as “disciplinas não sobrepostas” encontradas no pensamento de Barth.

O que temos visto até agora é uma exposição de duas abordagens totalmente diferentes quanto ao relato da criação em diálogo com a ciência. No meu próximo post vou tentar produzir uma síntese das duas abordagens, proporcionando reflexões preliminares sobre suas contribuições à uma teologia da criação relevante para o mundo de hoje.

 

Notas de Rodapé

  1. Pannenberg, Wolfhart. 1976. Theology and the Philosophy of Science. London: Darton, Longman & Todd. Página 4
  2. Ibid. 227
  3. Pannenberg, Wolfhart. 1993. Toward a Theology of Nature: Essays on Science and Faith. Louisville: Westminster/John Knox Press. Página 3
  4. Pannenberg, Wolfhart. 1976. Theology and the Philosophy of Science. London: Darton, Longman & Todd. Página 86
  5. Pannenberg, Wolfhart. 1993. Toward a Theology of Nature: Essays on Science and Faith. Louisville: Westminster/John Knox Press. Página 33
  6. Ibid. Página 45
  7. Schwarz, Hans. 2002. Creation. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Co. Página 158
  8. Pannenberg, Wolfhart. 1993. Toward a Theology of Nature: Essays on Science and Faith. Louisville: Westminster/John Knox Press.Page 46
  9. Ibid. 34
  10. Ibid. 48
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