Deus em Sociedades Igualitárias

Enquanto os avanços na área do desenvolvimento humano continuam a remodelar a interpretação tradicional daquilo que faz homens e mulheres semelhantes, porém ao mesmo tempo diferentes, a teologia também tem se apropriado destes avanços para melhor refletir a respeito do divino. Hoje em dia, este é o desafio para todos que buscam construir uma teologia de Deus em sociedades igualitárias, particularmente no Ocidente. O que segue à baixo é uma breve reflexão com uma simples proposta para beneficiar esta conversa.

A Bíblia (como coleção de livros) foi compilada no percurso de milhares de anos por uma grande variedade de autores. Tais autores estavam inseridos em contextos sócio-históricos que informavam como eles entendiam e comunicavam a revelação de Deus. Neste cenário, uma variedade de nomenclaturas foram usadas para comunicar o entendimento a respeito de Deus. No Antigo Testamento por exemplo, nós encontramos uma variada gama de nomes que se referem à Deus. Vemos isso em Genesis 1-2, o nome genérico  “Eloim” que é na verdade um substantivo, usado em Gênesis 1, ao específico “Yahweh”, listado como o nome próprio do Deus de Israel em Gênesis 2. Não limitando-se apenas ao nomes próprios de Deus, os autores bíblicos também fizeram uso de uma variadade de substantivos e adjetivos para dar nome à alguma dimensão da pessoa e atributos de Deus. Então, pela Bíblia toda podemos encontrar Deus sendo chamado de Rocha, Fortaleza, Fogo, Estrela da Manhã, e até Rio. Ainda que descritivos, estes substantivos não são sufientes para atribuir um completo significado à Deus.

Ao tentar captar a totalidade do relacionamento entre Deus e a humanidade, os autores bíblicos também fizem uso de pronomes masculinos ao referírem-se à Deus. Inseridos numa sociedade que reverênciava os patriarcas (pais), tornou-se lógico referir-se à Deus como “ele”. Assim sendo, a aliança de Deus e suas promessas foram comunicadas usando linguagem androcêntrica. O Verbo incarnado tornou-se “homem”, o “filho” primogênito do “Pai”. No contexto do Antigo Testamento, os Israelitas entendiam que o Messias seria um homem, o “filho” de Davi. O uso de pronomes masculinos e linguagem androcêntrica melhor comunicava significado numa cultura patriarcal que vivia na expectativa do “Rei” de Israel. Jesus foi homem, apresentado como tal no templo aos 12 anos de idade conforme os costumes judaicos. Jesus também referiu-se à Deus como “Pai”, e ao Espírito como “Conselheiro”, usando artigos masculinos.

Hoje, a tradição milenar da igreja tem continuado no caminho estabelecido por Cristo e pais da igreja. Por isso, Deus é frenquentemente referido como sendo “ele”. Este fato tem produzido um clamor em sociedade igualitárias para o uso de linguagem mais inclusiva. Este clamor é bem-vindo, pois até a Bíblia, tanto no Antigo como Novo Testamento, não se acanha em usar nomenclaturas femininas em referência à Deus. Em Oséias e Isaías por exemplo, Deus é descrito como uma “mãe que amamenta seus filhos”. No Novo Testamento, Deus é uma viúva que perdeu uma moeda de grande valor, e como uma galinha que reune seus pintinhos de baixo de suas asas.

Mesmo que apenas Yahweh seja apresentado como o nome próprio de Deus, a Bíblia estabelece o fato que um pode – e deve – usar todo tipo de nomenclatura que fielmente atribui significado à Deus, independente do gênero usado. Acima de tudo, um deve preocupar-se com o abuso da linguagem androcêntrica, porém ao mesmo tempo mediar entre o exemplo de Cristo, a tradição da igreja de batismo e ceia, e o chamado para uso de nomenclaturas inclusivas por parte das teologias contextuais.

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