Família e Fé: A minha estrada até aqui

Eu nasci no Brasil onde cresci numa família missionária durante os anos 80 e 90. Missão é algo que corre por muito tempo na minha família. Meus pais fazem parte da quarta geração de plantadores de igrejas da Igreja Presbiteriana do Brasil em nossa família. Em meados dos anos 80, eles saíram da Igreja Presbiteriana do Brasil para plantar igrejas independentes. Nestas décadas, missão era a equação de evangelismo + discipulado = plantação de igrejas. A ideia de missão sempre foi muito simples; usar a nossa casa como um lugar de hospitalidade, evangelismo e discipulado através de estudo da Bíblia, oração e de muita comunhão. Eu experimentei esse processo algumas vezes em casa e em viagens missionárias; apesar de meus pais estarem direta e indiretamente envolvidos na plantação de mais de 30 igrejas ao longo dos anos. Esta simples equação provou ser uma ótima maneira de fazer missão.

Meu próprio sentido da vocação tem sido uma jornada de descoberta gradual. Seria fácil presumir num sentido de identidade cristã e missionária dado o histórico familiar. Sem dúvida, eu acho que as práticas arraigadas na missão, hospitalidade e serviço aos outros que meus pais modelaram foram efetivos na minha própria vida. No entanto, eu só encontrei meu próprio senso de identidade cristã no final da minha adolescência. A esta altura, a minha família havia se mudado para os Estados Unidos onde meu pai fez um doutorado e continuou a trabalhar com plantação de igrejas.

Eu usava drogas e abusava do álcool na minha adolescência. Mas aos dezoito anos, tive uma experiência regenerativa numa cadeia depois de ser preso por dirigir sob a influência do álcool. Foi a primeira vez que eu posso dizer que eu realmente tive uma experiência com Deus. Eu eventualmente fui solto da prisão, mas permaneci sob liberdade condicional por um ano. Durante este tempo, eu saí da casa dos meus pais e fui morar em Londres, na Inglaterra, numa tentativa egoísta de fugir dos termos da minha liberdade condicional. Foi em Londres, num lugar longe de casa, que eu descobri que a igreja também era um lar. Eu comecei a frequentar uma pequena igreja internacional e até me tornar membro daquela comunidade. Foi como um foragido do meu passado numa terra distante que comecei a entender meu sentido de identidade cristã e vocação missional.

O discernimento vocacional é um compromisso comunitário. Norma Everist, em seu livro The Church as a Learning Community, descreve a Igreja como comunidade de novos começos. Ela afirma que na Igreja uma pessoa descobre novas relações de reciprocidade… que fornecem um ambiente confiável de aprendizagem… para que possa ser o que ela é em Cristo. Norma salienta que a descoberta da vocação pessoal recebe significado quando é feita em comunidade por meio de práticas de formação; tais como discernimento comunitário, confiança e responsabilidade. Na medida que me tornei parte daquela pequena igreja em Londres, comecei a ter um desejo profundo de conhecer mais a Deus. A igreja agiu como uma comunidade que serviu para santificar a minha própria vida. Não me leve a mal, a minha vida ainda estava uma bagunça. Mas ali eu comecei a viver um outro estilo de vida por meio das relações de reciprocidade e o ambiente de aprendizagem mencionados por Norma. Essas práticas espirituais provocaram em mim um sentimento de vocação e propósito. Eu também queria adorar a Deus através do serviço. Assim, eu marquei uma reunião com o pastor e ele então sugeriu algumas maneiras através das quais eu poderia ser útil. O serviço à comunidade tornou-se uma experiência gratificante para mim. Ele fortaleceu meu compromisso com Deus, com a igreja e meu entendimento de chamado ministerial. Esse sentimento só cresceu, e quando o meu ano em Londres chegou ao fim, eu já tinha discernido plenamente que queria servir no ministério em tempo integral, e então parti para um seminário no Brasil.

Minha avó materna (que também foi esposa de um pastor e plantador de igrejas) sempre diz que “se você não vive para servir, você não serve para viver”. Práticas de serviço são experiências formativas que moldam indivíduos e comunidades. Eu era um jovem fugitivo que encontrou um lugar numa pequena igreja do outro lado do mundo. Meu crescimento na fé e descoberta vocacional não teria sido possível se não fosse por aquela comunidade que praticava hospitalidade, vida em comunhão e discernimento coletivo. No entanto, esse mesmo discernimento missional foi que me levou para além das paredes da igreja local à um seminário que moldaria minha teologia e me equiparia para o ministério. Enquanto eu descobri o Deus da missão fiquei também intrigado com a missão de Deus. Pensar além das “paredes” tornou-se uma nova realidade para mim. A esta altura eu já estava bem engajado nos meus estudos teológicos na Faculdade Teológica Sul Americana, em Londrina, PR. Enquanto no seminário, fui abordado por um grupo de pastores que também estavam pensando missionalmente e queriam encontrar meios de transcender as paredes entre a igreja e a cidade. A solução foi criar uma base da AMID Mission chamada AMID Londrina. O acrônimo significa Associação Missionária, Integração e Discipulado. Por cerca de quatro anos trabalhamos promovendo justiça, reconciliação e integração social entre algumas das comunidades mais marginalizadas da cidade. O acolhimento comunitário propulsionou o envio missionário.

A Igreja tem uma vocação para o contexto e comunidade às quais pertence. O missiólogo Alan Roxburgh, em seu livro chamado A Journal of Missional Practices, emite um aviso importante contra as tendências eclesiocêntricas pleas quais Igreja reflete sobre a missão de Deus no mundo. Certos aspectos da prática missionária vão além das categorias internas da igreja, como o crescimento, saúde da igreja e estilos de cultos. Roxburgh declara que o Deus que age neste mundo atua na materialidade concreta do local, do comum e do cotidiano. Comunidades cristãs que se concentram principalmente em práticas orientadas para dentro ignoraram o fato de que os seus congregantes são parte de uma rede maior de relações que incluem famílias, amigos, escolas, locais de trabalho e locais de lazer. Essas esferas são moldadas por histórias sociais e culturais que são muitas vezes são marcadas pela segregação e marginalização de diferentes grupos de pessoas com base na identidade étnica e econômica.

O Dr. Mark Branson, que é professor de Teologia Prática no Fuller Seminary, fala de práticas missionárias como sendo a transposição de fronteiras na sociedade. Ele alerta para o fato de que o movimento cristão liderado por Jesus e pela Igreja Primitiva foi formado por comunidades heterogêneas que praticavam inclusão e reconciliação. Ele afirma que o Novo Testamento mostra uma atenção às realidades sociais, incluindo as línguas, a opressão, o acesso aos recursos, e como os líderes são identificados, chamados e comissionados. A Igreja Primitiva estava alerta para o seu contexto social maior, e o Evangelho foi a ferramenta para desmantelar as narrativas culturais dominantes de opressão. Comunidades cristãs começam a se conectar com a missão de Deus quando elas discernem seu contexto e trabalham para a reconciliação de todos na sociedade atravessando fronteiras culturais e sócio-econômicas.

Na minha jornada, foi sendo um estrangeiro do outro lado do mundo em Londres que eu descobri que a igreja era um lugar de reconciliação e família. Por outro lado, foi em Londrina, no meu próprio país, que descobri que a igreja também era uma comunidade missionária chamada para fora. Há uma certa ironia e “cristoscidência” interessante aqui. Ambos lugares são “Londres”. Londrina literalmente significa “Pequena Londres”. Meu descobrimento de Deus e missão foi da “Grande Londres” para a “Pequena Londres”. Mal sabia eu que de “grande para pequeno”, ou de”macro para micro” iria se tornar um padrão em meu ministério. Em junho de 2007, depois de ter graduado do seminário e ser ordenado ao ministério, eu fui enviado para a Grécia como missionário.

Esse envio foi uma resposta à um desejo “macro” de servir a Deus (o qual havia me levado para o seminário no início) e um “micro” chamado para um país específico (o Senhor tinha falado comigo especificamente sobre a Grécia). Enquanto cumpria meu micro chamado, comecei a trabalhar administrando macro projetos numa agência nacional de missões em Atenas. Eu trabalha com tarefas e não com pessoas. Era responsável por projetos de abrangência nacional que envolviam várias igrejas e cidades ao mesmo tempo. Minha abordagem ainda era “macro” por natureza. Depois de 3 anos, minha missão foi de macro para micro novamente quando fui convidado para integrar a liderança pastoral numa pequena igreja local que no bairro onde morava em Atenas. No âmbito deste padrão de macro para micro, o desejo de servir a Deus que começou em Londres e me levou para Londrina se transformou em um chamado para a Grécia. Este chamado para o país se tornou num chamado para uma cidade na Grécia, que me levou a uma igreja local, e, finalmente, a um chamado para servir as pessoas daquele lugar. A “Grande Comissão” passou a ser realmente cumprida na minha vida a partir do momento que comecei a defini-la através da vida do meu próximo. A revelação geral de fazer discípulos de todas as nações deve ultimamente nos levar à uma abordagem contextual específica.

Tal como em minha própria jornada, o processo de discernimento missional é uma descoberta que molda a identidade de indivíduos e comunidades. Em certo sentido, é um processo em que a revelação geral da vocação leva a um chamado de ação em uma comunidade específica que se encontra num contexto particular. Assim como os padrões que nos levam do geral para o específico, (ou do macro ao micro), é a minha conclusão de que a macro Igreja (com I maiúsculo) é constituída por micro comunidades que promovem o Reino de Deus por meio de práticas que formam uma nova forma de vida num contexto local. De fato, a Igreja é um microcosmo de novas possibilidades em um mundo dilacerado pela injustiça. Ela é um organismo vivo, expressa como uma comunidade regenerada através da vida coletiva de indivíduos que vivem uma graça presente e uma esperança futura, e são formados pela adoração à Deus e pela Sua missão ao mundo.

Related Posts