Em Busca de uma Teologia Bíblica do Trabalho

Neste post eu vou tentar explorar brevemente o conceito teológico de “trabalho” na narrativa da criação e do ministério de Jesus. Muitos de nós hoje encaramos o trabalho como um “mal necessário”. No entanto, cada cristão deve examinar a sua própria teologia a respeito do trabalho. O local de trabalho é repleto de decisões morais e éticas, onde a fé cristã pode oferecer muita orientação. Mas primeiro, deixe-me dizer um pouco sobre mim.

Além de ser brasileiro, eu também sou filho de um pastor. Por mais de cinco gerações tem havido ministros e missionários em minha família. Até minha própria geração, meus ancestrais eram ou produtores agrícolas ou ministros/missionários, às vezes até ambos. Eu cresci vendo meu pai modelando um modo de vida onde o ministério, família e fé estavam intimamente unidos. Ele costumava interromper “o tempo em família” para cuidar do ministério e vice-versa. Jamais o vi fazendo segregação do “sagrado” contra o “secular”, ou uma compartimentação da vida e da fé. A fé era a vida, e a vida era pela fé. Em meus 31 anos, eu vi meu pai plantar de forma independente mais de vinte igrejas e fundar quatro seminários. Acho que você poderia dizer que ele é um empreendedor do Reino de Deus. Como no mercado de trabalho, o empreendedor missional deve interpretar a realidade em torno para antecipar e prever uma necessidade na comunidade ou igreja. Meu pai continua a modelar este tipo de abordagem visionária até hoje.

Assim, você pode dizer que eu cresci tendo a fé como um modo de vida. Talvez a lição mais importante que eu aprendi ao longo destes anos é que “o trabalho é pessoal.” Minha própria fé foi orientada por uma teologia holística de trabalho que coloca a família, ministério (trabalho), e devoção na mesma esfera. O teólogo americano Tim Keller explica que na Bíblia “o trabalho não é um mal necessário que entram em cena mais tarde, ou algo que os seres humanos foram criados para fazer, ou algo que estava aquém do próprio Deus. Não! Deus trabalhou pois criar O agradava”. [1 . Timothy Keller, Every Good Endeavor , p. 34-35 ]. Na criação, vemos que a atitude de Deus em relação ao trabalho era de envolvimento pessoal. O trabalho partia de sua natureza criativa.

É quando nos deparamos com a narrativa bíblica, começando em Gênesis, que começamos a encontrar um senso de propósito a respeito do trabalho em nossos próprios contextos. Talvez o fator mais determinante para a minha própria teologia do trabalho dentro da narrativa da criação se encontra em Gênesis 2:7. ” E o Senhor Deus formou o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gn 2:7). A palavra “formar” יָצַר ( yatzar ) implica em ser moldado por um oleiro, como um escultor que se envolve pessoalmente com seu trabalho. Aqui vemos que Deus não somente se alegra com o seu trabalho, mas também está disposto a “sujar suas mãos” no processo. Este envolvimento pessoal de Deus ressalta o trabalho como um ato integral e santo.

Neste ponto, alguns podem sentir a necessidade de delinear entre trabalho e vocação. Muitos de nós tendemos a pensar que a vocação é só o que você faz dentro das esferas “sagradas” do ministério ou de uma igreja. Nós muitas vezes não vemos o trabalho “secular” como uma vocação. Como se um fosse sagrado e o outro secular. É também uma tendência em nossa sociedade valorizar o trabalho intelectual sobre o trabalho braçal. Um é visto como mais digno do que o outro. No entanto, a narrativa da criação mostra que Deus trabalhou tanto por meio de Seu intelecto quanto manualmente (de forma braçal). Gênesis nos informa que a dignidade do trabalho não está associada a uma determinada tarefa, mas sim à motivação para com a tarefa. Como um verdadeiro sinal de empreendedorismo, a dignidade de Deus estava na sua fidelidade em cumprir a sua obra. Por meio do trabalho, Deus estava construindo uma cultura de comunidade com a Sua criação que era uma extensão da própria Trindade. Assim, toda a narrativa do Antigo Testamento procura definir o trabalho onde Deus e Israel colaboram (trabalham juntos) na mesma obra missionária.

Na época de Jesus, Israel tinha perdido este entendimento a respeito de sua cooperação com Deus. O judaísmo naquela época havia se tornado segregado em muitas seitas (seguimentos) diferentes. Todas procuravam beneficiar-se a si mesmas. Estas variavam entre àqueles que buscavam os benefícios de Roma (como os herodianos e saduceus), e os que buscavam uma separação completa do Império (como os zelotes). O trabalho, como ato de cooperação com Deus, passou a ser definido pelas cosmovisões que nortearam as motivações destas diferentes seitas. É neste momento que Jesus inaugura a sua vida pública, e busca restaurar a cultura e o significado do trabalho de volta à Deus. Em João lemos, “Jesus lhes disse: “Meu Pai está sempre ao seu trabalho para o dia de hoje , e eu também estou trabalhando” (João 5:17 NVI). Jesus identifica seu trabalho como uma continuação da intenção original de Deus em formar uma família em Cristo. A narrativa do Evangelho então define a teologia do trabalho como a extensão da próprio empreendimento missionário de Deus. Assim, o trabalho é para ser uma ferramenta na missão maior de Deus, ao invés de promover os interesses egoístas e individualistas. Tim Keller explica: “Deus é o Criador do mundo, e nosso trabalho reflete seu trabalho criativo quando criamos uma cultura que está de acordo com a sua vontade e visão para com os seres humanos, quando esta se alinha com a narrativa bíblica.”

Ao procurar definir uma teologia do trabalho, um precisa primeiramente pensar: “Como é que a minha história se encaixa na história de salvação de Deus?” A narrativa bíblica nos mostra que o trabalho é uma expressão da intenção missionária de Deus, que visa promover a harmonia entre toda a criação. Vemos que o trabalho não é um “mal necessário”. Também não é um ato guiado pelas forças do individualismo ou do capitalismo, como encontramos em nossa cultura hoje. A teologia bíblica do trabalho leva em conta a cultura do Reino de Deus, que busca formar uma comunidade de graça. O trabalho bíblico é integral, um modo de vida que envolve o sagrado, o secular, e toda a criação de Deus.

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