Espiritualidade da Aliança

Eu tinha dezenove anos quando preguei pela primeira vez num culto dominical. Lembro-me que era uma manhã fria numa pequena igreja presbiteriana na periferia de Londrina, no Paraná. Os bancos de madeira eram ocupados por pessoas que naquela manhã sentavam mais perto umas das outras do que o normal numa tentativa de aliviar o frio. O título do meu sermão naquele dia foi “As Conseqüências da Eleição e Aliança para o Povo de Deus.”

Como um primeiro sermão de alguém, você estaria certo em presumir que meu tópico estava muito além do meu alcance. No entanto, quando o reverendo daquela igreja me deu liberdade quanto ao tema, eu imediatamente recorri àquilo que considero mais fundamental para a minha fé.

Espiritualidade e relacionamento com Deus sempre foram um foco chave na minha caminhada como pastor e missionário. Por causa disso, a aliança tem sido o prisma sempre presente pelo qual interpreto a minha vida como um homem cristão. Desde aquele primeiro sermão dominical à mais de 15 anos atrás, eu tenho procurado desenvolver uma abordagem de espiritualidade e missão que é Cristocêntrica e aliançada. É como parte desta busca que eu também lancei o Carregando a Cruz em 2007. Esse site então ter sido um canal para tudo o que eu produzo sobre o assunto.

Aliança é um tema que arca sobre toda a narrativa bíblica. Em primeira análise, vemos que a aliança bíblica é tanto individual quanto coletiva. Deus estabelece uma aliança com indivíduos como Noé, Abraão e Davi mas também como todo um povo, como vemos com Israel e a Igreja. É através da aliança que Deus se revela num enquadro relacional de confiança, liberdade e reciprocidade. Na Bíblia também vemos que a aliança serve para orientar a comunidade de Deus, como no êxodo do Egito que estabeleceu a legislação de Israel. Então, aliança não apenas guia a interação humana-divina, como também torna-se um modelo para relacionamentos interpessoais entre eu e você.

A aliança é um tema central na Bíblia e pode iluminar o nosso entendimento sobre o agir de Deus e nossa agência como cristãos. Ela se torna uma espinha dorsal pela qual outras vértebras são fixadas. Vemos que a principal característica da aliança bíblica é que a própria começa em Deus, a qual em torno capacita uma resposta da humanidade. A aliança é portanto um reflexo do poder e da graça de Deus.

Nós geralmente pensamos sobre aliança como uma série de negações. Mas é a graça e fidelidade de Deus ao invés da retidão humana que serve como base da aliança. A graça é o poder de Deus que permite que o seu povo ande em fidelidade. Ao entrarmos em aliança entramos de baixo da graça divina. Aliança então é uma incubadora da graça e gratidão que nos conduz à uma existência santificada.

A nossa espiritualidade, ou a maneira como vivemos e praticamos a nossa fé, torna-se então uma resposta ao imperativo da graça de Deus. No contexto da aliança somos conformados progressivamente à imagem divina. Nossa vida gradualmente se padroniza conforme o caráter divino (imitatio Dei) cumprindo o ideal criativo de Deus para nos (imago Dei). Assim, a aliança se torna o enquadro para a expressão da vida cristã.

Essa relacionalidade nos põe num processo dialógico com o outro, o qual se estende verticalmente à Deus, horizontalmente aos seres humanos e internamente com si. À Deus, aliança evoca adoração e santidade, asserção de si e abandonamento de si. Com o próximo, a aliança requere alegria e tristeza, verdade em amor, e edificação com liberdade. Com si mesmo, a aliança convoca à dispergir o velho e a liberdade para receber o novo ser num processo que chamamos de conversão ou regeneração.

A aliança divina cria uma espiritualidade onde a agência humana é capacitada através da graça e gratidão. Esse modelo expressa a sociabilidade da existência humana assim como o valor único/pessoal de cada indivíduo. A aliança nos mostra que indivíduos jamais são unidades trocáveis, como propaga a visão utilitária e contratual de relacionamentos.

Na Bíblia vemos que o Deus que é soberano, poderoso e gracioso, é também o iniciador da aliança. Deus não negocia termos com a humanidade, mas usa um nomos como guias da graça onde confiança, liberdade e a própria vida podem prosperar. A aliança comunica que nós precisamos um do outro. Somos seres sociais que devem à cada um a nossa vida e recursos. Essa reciprocidade e mutualidade é demonstrada através da graça e gratidão, a qual reflete igualdade o valor humano.

Sobre tudo, a aliança nos providencia um enquadro onde a ação divina e a resposta humana são intimamente ligadas uma à outra. Ao aderirmos à lei da graça de Deus, cada cristão vai além de antagonismo da negação. A expressão da espiritualidade cristã então se define quando cada um participa do arco redentor de renovador da história de Deus. No final, a aliança firma as diretrizes da graça e gratidão que estimulam a imitação do caráter divino culminando no desvendar do glorioso propósito de Deus no mundo.

 

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