Karl Barth e Wolfhart Pannenberg dialogam sobre Ciência e Teologia

Um diálogo entre Karl Barth e Wolfhart Pannenberg não é nada de novo. Barth foi professor de Pannenberg na Universidade de Heidelberg, na Alemanha, e os dois estudiosos continuaram a trocar correspondências ao longo de suas vidas. Lendo estas cartas pode-se notar que o diálogo entre os dois era muitas vezes direto e incisivo, porém sempre temperado com muita admiração e respeito. Voltando para o assunto em mãos, o meu último post abordou como a teoria de dois idiomas de Ted Peters explica a polarização entre a religião e as ciências naturais particularmente na teologia de Barth. Permita-me recordar-la. No verdadeiro estilo californiano, Peters usa uma analogia do voleibol para explicar como a religião e a ciência parecem estar contentes com bater a bola entre si nas suas respectivas extremidades da quadra. Enquanto alguns cientistas têm o prazer de se abster de implicações teológicas sobre sentido e propósito, alguns teólogos parecem contentes em se afastar da investigação científica empírica. Para Peters, a única solução viável é se um lado tomar a iniciativa, batendo a bola teórica sobre a rede na esperança de que ela encontre consideração e seja retornada com o mesmo ímpeto.

Em última análise, a chamada de Peters para o diálogo parece resultar de concessão de Pannenberg que as teorias científicas atingiram tão elevado grau de validade que qualquer consideração sobre a realidade do mundo de hoje deve primeiro passar pelo teste do método científico.  Esta realidade é tal que Pannenberg afirma que “é impossível mudar este fato por mero decreto .”1 A teologia deve então ser trabalhada usando as regras do academicismo moderno. Em suma, Pannenberg vê a ciência como a única “quadra” de vôlei onde o jogo pode ser jogado. Teólogos, portanto, deve usar as descobertas científicas contemporâneas e pesquisar as Escrituras e a tradição a fim de encontrar aproximações para explicar a sua própria linguagem de sentido. Como vimos, a concessão de Karl Barth era completamente diferente. Ele acreditava que a narrativa da criação em Gênesis só alcança o seu significado completo através de uma epistemologia dogmática que vai além de provas empíricas. Para Barth, o significado da narrativa está no que ela revela sobre a revelação de Deus naquele dado “evento”. Essas avaliações naturalmente incorrem as seguintes perguntas: Será que a adesão à modernidade significa que cada descrição científica da realidade precisam ser igualada por uma aproximação teológica? Por outro lado, será que cada declaração dogmática precisa do apoio do conhecimento científico contemporâneo para ser legitimado como verdade? Além disso, será que o relacionamento entre a ciência e religião deve igualitário ou complementário por natureza?

A resposta a essas perguntas esta talvez no público-alvo para cada teólogo. Enquanto Pannenberg só vê uma “quadra de vôlei”, que é a esfera pública-científica, Karl Barth parece estar preocupado com uma arena completamente diferente. Ao escrever sua Dogmática, Barth se identifica principalmente com a igreja a fim de fornecer a ela uma linguagem de sentido dogmática. Seu trabalho é extremamente eclesiocêntrico. Ele descreve sua tarefa dogmática como “o auto-teste o qual a Igreja cristã faz em relação ao teor da sua linguagem peculiar a respeito de Deus.”2 Neste cenário, Barth não encontra nenhum escrúpulo em confiar na Palavra para explicar a revelação direta de Deus como uma epistemologia válida. Tomando as peculiaridades da revelação como pressuposto, ele é capaz de construir uma teologia a partir de cima que não é impedida pela teologia natural ou dados científicos, mas que, todavia, comunica o sentido revelatório de Deus para a igreja.

Por outro lado, o objetivo de Pannenberg parece ser em restaurar o lugar da teologia entre a comunidade científica como um “campo que abrange outros campos.”3 Pannenberg se limita então quase à uma visão tomista da teologia como a “Rainha da Ciência”. Ele fervorosamente contesta o rebaixamento da teologia para as margens do academicismo por parte da modernidade e a acomodação de teólogos, Karl Barth, em especial, demonstraram neste respeito. Por sua própria admissão, Pannenberg procura comunicar o sentido teológico para o resto da comunidade científica, trazendo a teologia a “quadra de voleibol” pública. Nessa arena, a teologia não pode ser meramente dogmática, mas tem que ser apresentada como uma ciência, mesmo que seja a ciência de Deus per se. No seu exercício de teologia pública, Pannenberg então encontra base epistemológica no processo histórico, e, portanto, trabalha para construir uma teologia a partir de baixo.

Ambas as formulações são, portanto, sistemicamente diferentes devido ao público-alvo de cada uma. Isto implica que ambas as teologias são relevantes dentro do seu contexto apropriado. Considerando que a abordagem dogmática de Barth define a auto-revelação de Deus como uma verdade absoluta a partir de cima, Pannenberg depende do processo histórico a fim de oferecer o mais recente entendimento da teologia da criação a partir de baixo. No entanto, ambas são altamente especulativas. Barth especula sobre a Escritura, liturgia e credos enquanto Pannenberg especula sobre interpretações metafísicas, aproximações teológicas à descobertas científicas recentes e sobre as ineficiências do método histórico-crítico quando ele trata de Gênesis 1 como a melhor narrativa disponíveis sobre a origem de todas as coisas. Parte da desilusão teológica da pós-modernidade está ligada diretamente às insuficiências do método histórico-crítico como epistemologia científica. É por isso que hoje vivemos num estado de pluralismo hermenêutico.

Isto leva-me aos pontos positivos do diálogo entre essas duas abordagens. Ambas as teologias parecem preocupadas em afirmar e preservar o sentido teleológico que Gênesis 1 e 2 atribui para toda criação. Barth faz isso usando o conceito de Imago Dei e Pannenberg usando suas idéias sobre contingência. Ambos parecem usar suas respectivas teologias como uma estrutura de prestação de contas dentro do processo de investigação científica. Barth faz isso demonstrando suas preocupações com o darwinismo social, e Pannenberg em sua visão da necessidade de preservação da natureza e a falha da modernidade e industrialização em realizar isso. O que é, talvez, o seu contraste mais evidente é a direção através da qual cada um deles se aproxima das respectivas teologias de criação. Karl Barth constrói sua teologia a partir de cima não vê nenhum problema com o uso de revelação como um ponto de partida. Barth faz isso, a fim de apurar a verdade teológica que a narrativa da criação comunica evitando as areias movediças do método histórico-crítico. Por outro lado, Wolfhart Pannenberg se aproxima de sua teologia a partir de baixo com os princípios filosóficos e sociológicos como um método científico adequado. Sua intenção é usar a teologia como ciência e assim não vê problema algum em adaptar a mensagem bíblica às descobertas científicas contemporâneas. No geral, vemos que até a busca cosmológica e geológica sobre a origem do universo é em si uma busca de sentido. É à luz destes e de outros desafios que a narrativa judaica-cristã da criação pode servir como um ethos orientador para a preservação de toda a realidade.

Esta série de posts tentou apresentar um diálogo entre duas abordagens distintas referentes à narrativa bíblica da criação, destacando suas diferenças e semelhanças. Eu explorei as suas metodologias e conclusões particulares no contexto mais amplo da ciência e da religião buscando fazer distinções entre a semiótica e semântica da teologia dogmática e da teologia pública. Infelizmente, as interações atuais entre a ciência e a religião nos meios de comunicação e na esfera pública deixam muitas vezes de ser um diálogo e se tornam mais parecidos com um debate interminável de apologética. Nessa dinâmica, a defesa de qualquer posição implica, naturalmente, que um primeiro deve armar-se com as armas da desinformação, a fim de invalidar o lado oposto. Essa tem sido a abordagem feita pelo Novo Ateísmo na literatura e os meios de comunicação. Ao mesmo tempo, o ressurgimento do fundamentalismo teológico com base na apologética unilateral deixa de fornecer qualquer avanço para um possível diálogo. Esta realidade aparentemente dialética ainda está para produzir uma síntese que beneficia ambos os lados. Assim, estamos presos em um pântano de facções que disputam ou procuram desvalorizar o outro. No entanto, Karl Barth e Wolfhart Pannenberg são pensadores perspicazes que nos equipam com recursos para promover um diálogo na própria busca da humanidade por sentido e propósito.

 

Footnotes

  1. Pannenberg, Wolfhart. 1993. Toward a Theology of Nature: Essays on Science and Faith. Louisville: Westminster/John Knox Press
  2. Barth, Karl. 1975. Church Dogmatics: The Doctrine of the Word of God. Part 1. Vol. 1 Vol. 1 . Edinburgh: Clark.
  3. Pannenberg, Wolfhart. 1993. Toward a Theology of Nature: Essays on Science and Faith. Louisville: Westminster/John Knox Press. Page 7
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