Meu Esboço Básico de Pregação

Esse é um daqueles posts que partem direto do coração. Como já estou chegando no final do meu mestrado aqui no Fuller Theological Seminary, tenho me dedicado bastante ao trabalho de auto-reflexão a respeito da minha identidade vocacional. A maior parte deste trabalho gira em torno de três questões básicas; Qual é a minha vocação? Como tenho trabalhado no sentido de cumpri-la? Quais são os passos necessários a fim de caminhar em frente?

Eu adoro pregar e ensinar (ou “palestrar” para vocês mais modernos). Sério! Eu creio que tenho sido chamado para pregar e ensinar a Palavra de Deus. A passagem de Jeremias 1:4-9 está no epicentro do meu entendimento vocacional e é a grande parte da razão pela qual tenho um chamado ministerial. Pregar é uma daquelas atividades que me deixa animado e aterrorizado ao mesmo tempo. Faz pouco mais de 10 anos que venho pregando por aqui e por ali. Eu ainda lembro do meu primeiro “sermão dominical” a muitos anos atrás numa pequena igreja presbiteriana na periferia da cidade de Londrina, no Paraná. O título da minha mensagem naquele domingo foi “A Eleição e Aliança de Deus e suas implicação para a Igreja” (bem presbiteriano, eu sei!).

Eu não me considero presbiteriano. Mas desde aquela primeira experiência tenho pregado/ensinado/palestrado incontáveis vezes em diversas igrejas de várias denominações em mais de 6 países em 3 continentes diferentes. Eu já até preguei de um continente para o outro. Sem brincadeira! Uma vez preguei pelo telefone diretamente do Estados Unidos para milhares de ouvintes de um programa cristão de rádio em São Paulo. Eu respondi ligações e orei por algumas pessoas depois. Eu até já “corri do púlpito”. Certa vez um amigo que é um famoso líder de louvor me convidou para pregar para umas 2 mil pessoas numa de suas conferências. Eu tremi na base. Acabei recusando o convite de tanto medo. Eu era bem mais jovem na época, mas para falar a verdade, meus joelhos balançam quando vou pregar na minha própria igreja até hoje. Talvez um pouco de temor seja bom!

Eu também já preguei tudo que é tipo de sermão; expositório, temático, textual e até contextual (pode pesquisar, existe mesmo isso!) Alguns foram muito bons. Outros nem tanto. Já perdi o sono por muitos outros. Na verdade eu perco o sono até quando não tenho que pregar. As vezes acordo no meio da noite com idéias para sermões ou insights bíblicos. Eu deixo um caderninho do lado da minha cama só para não ter que levantar do meu aconchego para anotar minhas idéias. Se bem que ser acordado pelo Espírito Santo é uma coisa muito boa. Muitas dessas idéias viram mensagens, outras viram posts aqui no meu blog.

Outras viram mensagem em lugares inusitados. Eu já preguei algumas delas em lugares onde jihadistas estavam do lado de fora do edifício gritando “Allahu Akbar!” Outras eu preguei em funerais num dos dias mais tristes da minha vida. Também já preguei em tetos de prédio, da carroceria de uma caminhonete, na praia, no lago, dentro de uma piscina, num barco (como Jesus) e até no auditório da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa em Portugal. Pregar não é fácil. Mesmo que eu creia que este é o meu chamado e que Deus tem me abençoado neste sentido, pregar para mim requer muito trabalho, oração e antecipação (sem contar as horas sem dormir).

Então é aqui que a gente chega na razão para este post. O que segue abaixo é meu esboço básico que uso para sermões. Ele é como se fosse a minha jogada ensaiada favorita no futebol. É como naquele golaço de falta do Raí na final do mundial com o Barcelona (sãopaulino de coração aqui!). Mas antes de prosseguir, aqui vão 2 avisos. Primeiro, eu não sou um “palestrante profissional” nem um estudioso de homilética. Não me entenda errado. Estou terminando um mestrado em missiologia e já tive várias classes e li vários livros a este respeito. Mas estou longe de ser um “Catalizador de Proclamação” como eu li na biografia de um cara a pouco tempo atrás.

Segundo, eu sou um grande fã do “Sermão de 3 Pontos”, contando que os 3 pontos sejam; fale para a igreja o que você vai falar, fale o que você tem que falar, e fale o que você acabou de falar. Realmente não tem como errar com esses 3 pontos. Neste esquema a sua mensagem tem uma cabeça, corpo e pés. Falando sério, eu sou um grande fã dos 3 pontos, mas como uma grande diferença. Ao invés de pontos, eu prefiro vê-los como 3 passos. Um sermão deve ter apenas UM (1) ponto. Esse ponto é a sua proposição, a qual é a sua tese principal. Esse é o único prego que você deve “pregar”. Esse é o coração e a alma da sua mensagem. Os “3 pontos” então são 3 passos para chegar à proposição. Assim, a sua mensagem começa a fazer sentido.

Avisos à parte, vamos dar uma olhada no que é um esboço básico para mim.

 

Introdução – É aqui que você dá um “oi” e um sorriso! Apresente quem você é, a sua passagem bíblica e o tema do seu sermão. Os experts dizem que você tem que usar humor para criar uma ligação com os ouvintes. Eu tento evitar piadas sem graça. Não tem nada mais chato e incômodo do que transicionar de uma piada ruim para um sermão ainda pior. A expectativa dos ouvintes cai geral. Nessa parte também é bom relembrar algumas pregações recentes, ainda mais se o teu sermão fizer parte de uma série que está em andamento. Assim você mantém continuidade e insere sua mensagem na metanarrativa que a igreja está vivendo.

Frase de Transição – Romance é importante para criar uma ligação. Namore primeiro. Acalme-se, respire e leia a sua passagem. Não chegue propondo compromisso assim do nada. Você pode acabar assustando e sendo dispensado pela noiva.

Proposição – Agora é a hora de propor compromisso. Fale de forma clara qual é a sua intenção. Como no casamento, use uma frase simples e direta. Essa é a grande tese/tema da sua mensagem. É o teu coração, o ponto mais importante do sermão. Lembre-se, pregue um só prego, de novo digo, um só prego!

Frase de Transição – Você tá pronto para mergulhar, mas experimente a água primeiro. Veja se a sua congregação está preparada para entrar nas profundezas da Palavra. Vai entrando devagarinho como Ezequiel no capítulo 47. Se você pular direto na parte mais funda da sua mensagem você pode acabar afogando seus ouvintes.

1° Passo – Esse é o primeiro passo para chegar na sua proposição e como você pretende fazer a noiva feliz. É tua primeira chance de firmar o prego. Veja isso como seu ponto de partida. Essa parte inclui uma leitura mais abrangente da passagem bíblica. Geralmente inclui um assunto mais superficial ou um tema predominante na passagem. Identifique o que está acontecendo no texto e como isso se relaciona com a igreja. Essa parte é como um espelho que reflete temas comuns entre o texto bíblico e a realidade atual. Eu gosto de usar histórias e exemplos do cotidiano para trazer a congregação até a Palavra. É aqui que você estabelece a necessidade/razão pela qual está usando esta passagem. Algumas perguntas guias são; O que está acontecendo no mundo do texto? Por que este tema é importante e onde podemos ver isso acontecendo hoje?

2° Passo – Este é o segundo passo para chegar na sua proposição. Aqui você vai tentar convencer o pai da noiva que você é o cara certo. O prego já está fixo e agora você vai realmente aprofundá-lo. Você já pegou embalo e agora pode tomar passos mais largos e ser mais ousado. Você já molhou o pé e está na hora de ir mais fundo. Este passo envolve um entendimento mais profundo da sua passagem bíblica. Faça uma exegese rigorosa. Comece com aquilo que Deus está falando. Pesquise também comentários e veja o que já foi escrito teologicamente sobre o seu tema. Evite abobrinhas, chuchus e os demais alimentos sem sabor. Incorpore também a doutrina de fé e a visão da igreja. É neste ponto que você estabelece a verdade de Deus sobre o assunto de forma Bíblica e teológica. Algumas perguntas guias são; O que está acontecendo no mundo por de trás do texto? Por que esta passagem foi escrita? O que Deus está falando sobre este assunto? O que a gente crê sobre isso?

3° Passo – Você agora está chegando na sua proposição. É a hora do casamento! Você está numa maratona e é aqui que entra o seu “segundo fôlego”, sua pegada final para cruzar a linha de chegada. Olhe para o prêmio! A combinação da necessidade do texto com a verdade bíblica cria uma nova realidade de esperança e imaginação. A equação é assim: A realidade atual + a verdade de Deus = uma história de esperança e redenção na qual todos são chamados a participar. O casamento é uma coisa linda. Pense na luda de mel, na família crescendo. Mas pense também na responsabilidade requerida. Pense sobre a mudança de vida, dos compromissos e experiências que serão necessários de agora em diante. É aqui que você lança a visão da realidade estabelecida por Deus em sua Palavra e cria um novo imaginário e esperança na vida das pessoas. É aqui que você desafia a igreja a ser quem Deus quer que ela seja. Algumas perguntas guias são; O que está acontecendo no mundo à frente do texto? Como esta verdade bíblica afetou o personagem bíblico? Como ela afeta e molda a minha realidade agora em diante? Qual é o meu compromisso e chamado para agir?

Frase de Transição – Segure seu fôlego. Tome cuidado com a “Doença Descompressiva”. A congregação pode sentir um mal estar se você ascender rápido demais das profundezas da Palavra. As responsabilidades de um novo compromisso podem parecer “afogantes” para alguns. Tenha calma nessa hora ao sair da profundeza do texto.

Conclusão – Você conseguiu. Pregou um sermãozasso e deve estar contente em ser usado por Deus para edificar a Sua igreja. Está quase na hora da lua de mel. Relembre aqui a sua proposição e a razão pela qual muitas pessoas ficaram te ouvindo por quase uma hora. Relembre também os seus passos e como você cumpriu a sua meta. Ressalte o que a Palavra de Deus diz sobre o seu assunto e lance novamente a visão de Deus para igreja. Dê aquele beijo e sele o compromisso!

Este é meu esboço básico.

Humor à parte, eu sou um grande fã deste esquema de 3 passos. Ele envolve a realidade atual, a Palavra de Deus, profundidade teológica e a missão da igreja. Ele é também um exercício em auto-reflexão e examinação. O meu esquema requere uma práxis constante de reflexão e ação e mantém a aliança de Deus e nosso compromisso em Cristo no centro de tudo. Acima de tudo, ele constrói um novo paradigma kerigmático, o qual forma uma nova imaginação e lança uma nova visão de esperança para o futuro para a igreja

Com isso em mente, qual é a sua jogada ensaiada favorita? Qual estilo de sermão você prefere? O que você adicionaria ou tiraria do meu?

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