Missão e Hospitalidade numa Perspectiva Trinitária

O Caso para uma Perspectiva Trinitária

Uma teologia de Deus molda nossa visão de mundo cristã. No mesmo sentido, uma perspectiva trinitária de Deus informa nossa concepção ontológica e teleológica. Teologia começa em Deus. Portanto, a teologia deve considerar a Trindade como o seu início. O que surge então é uma definição da nossa maneira de ser (ontologia) e propósito de existir (teleologia).

Uma visão adequada de Deus é portanto imprescindível. Enfatizar uma única Pessoa da Trindade produz visão desequilibrada de Deus. O primeiro risco é de “Triteismo” (onde cada pessoa é um Deus diferente) ou modalismo (onde Deus é uma só pessoa que se expressa em três modos diferentes). Uma visão adequada exorta-nos a considerar a Trindade como uma relação das três Pessoas em perfeita comunhão. Os Pais da Igreja ilustravam essa dinâmica divina usando termo grego perichoresis. Perichoresis infere uma mutualidade recíproca, uma co-inerência e relacionalidade. Deus é a relação entre o Pai, Filho e Espírito Santo. Relacionalidade, em seguida, define a personalidade como um “quem” ao invés de “o quê”. Reciprocidade se dá por sujeitos, e não objetos. É a partir desta comunhão “pericorética” trinitária que a criação, a salvação e a renovação de todas as coisas vem à tona.

Conceitos errôneos da Trindade como Triteismo e Modalismo produzem uma teologia distorcida de Deus. Uma ênfase exagerada sobre o Pai tende a levar ao que conhecemos como patriarcalismo e monarquialismo. Essa visão apresenta Deus como Pai todo-poderoso que governa a ordem criada como servidores subordinados. Esta é a posição dominante do Teismo Clássico. Deus é visto como impassível e aristocrático. Este ponto de vista encontra-se predominantemente em círculos fundamentalistas que subscrevem a uma perspectiva regulatória de Deus. Na sua conclusão, esta abordagem androcêntrica confina o poder e influência na figura masculina, que por sua vez produz sexismo e justifica a existência de classes superiores dentro de uma sociedade. Uma ênfase patriarcal de Deus leva à um patriarcalismo hierárquico nas estruturas humanas.

Por outro lado, uma ênfase dominante no Filho destaca horizontalidade sem nenhuma verticalidade. Deus é encarnado em Jesus e torna-se “como um de nós”. Ele é um irmãozão, um camarada que se identifica com a nossa luta e nos ajuda na revolução. Este ponto de vista é dominante em algumas teologias contextuais como, por exemplo, a teologia Feminista e da Libertação. Ela tende a rejeitar interpretações do Teísmo Clássico e usa uma hermenêutica política com base em eventos sociais para moldar a sua teologia. Por isso, esta abordagem tende a ser militante e reacionária, uma “luta” para qual a figura do Cristo Libertador fala claramente. O desmantelamento das estruturas opressivas torna-se o telos utópico, muitas vezes à custa da instalação de novos sistemas autoritários.

Enfim, uma ênfase excessiva sobre o Espírito Santo muitas vezes leva à uma espiritualidade privada, subjetiva, e individualista que existe em detrimento da realidade eclesiástica comum. As necessidades individuais de bênção e paz interior são o impulso para a busca de Deus. Essa perspectiva é mais comumente encontrada em círculos carismáticos/pentecostais. Considerando que outras perspectivas tendem a se concentrar na verticalidade e horizontalidade, a perspectiva que enfatiza apenas no Espírito Santo concentra–se na “internalidade”. Ela acomoda traços comportamentais produzidos pela narrativa individualista-consumista e costuma ser pragmática, experiencial e hedonista. No seu âmago, a satisfação pessoal e capacitação do indivíduo tornam-se a meta final. Tudo isso acontece sob a bandeira do carisma do Espírito Santo.

Deus e Mundo através da Hospitalidade Trinitária em Gênesis 1

A Bíblia conta a história da relação entre Deus e o mundo. Desde o seu início, o relato da criação oferece pistas importantes sobre hospitalidade trinitária como paradigma relacional entre Deus e da ordem criada. Vale lembrar de que quando falo sobre relacionamento falo de reciprocidade e mutualidade, onde o agente é visto como sujeito e não um objeto. Genesis 1 começa fazendo o layout da ordem sequencial de obra criadora de Deus. Ele começa com a separação da luz e das trevas no primeiro dia (Gn 1: 3) e termina com o dia de descanso no sétimo (Gn 2: 2). Antes de qualquer coisa surgir, a definição inicial do mundo era sem forma, sem ordem ou sentido (Gn 1: 2). É neste contexto que a criação começa a acontecer.

No princípio, Deus… Antes mesmo da criação existir, Deus já era. O “quem” de Deus já existia antes do “que” de Deus começar a acontecer. O caos inicial revela um Deus transcendente que é Elohim. Elohim é supra-natural, poderoso para “declarar” (Gn 1: 3) e colocar ordem no caos pelo poder da Palavra. Elohim não só representa transcendência, mas também vemos que o Espírito de Deus é mostrado como sendo soberano pois estava pairando sobre as águas do caos (Gn 1: 2). Aqui, o Espírito é super-natural, envolvido na criação porém à parte dela. Portanto, Deus transcende a realidade atual, mas está perto o suficiente para ser ativo em meio ao caos. Deus não é afetado, porém deixa afetar-se pela situação. A criação começa em Deus. Neste cenário, o Espírito aparece como um sinal de esperança, a perspectiva da nova realidade harmoniosa da criação que está por vir. Através do Espírito, Deus “imana” na ordem criada por meio de ações de sua vontade e soberania divina. Esta auto-revelação segue o padrão bíblico de ação divina como pode ser visto por toda a Escritura; O Espírito opera quando a Palavra é pronunciada.

Além disso, Deus se auto-revela como uma pluralidade de pessoas. Deus, o Espírito e a Palavra se movem em sincronia pericorética em dar vida à criação. Através dos Evangelhos, entendemos ser esta a Santíssima Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo. O relato da criação revela a Deus como uma comunidade das Três Pessoas que estão harmoniosamente interagindo uma com as outras com base na vida compartilhada. Isso é perichoresis. Ordem passa existir em meio ao caos como um reflexo da comunidade Trinitária em perfeita harmonia. Criação revela a doação da vida como um ato de amor onde a igualdade de comunhão e de existência harmoniosa são consequência do poder de Deus. Deus dá, portanto, Deus ama (João 3:16). É a partir da própria vida mútua de Deus que ordem passa a existir. A narrativa da criação é intencional em mostrar o surgimento desta ordem mantendo um progresso seqüencial marcado por sete estrofes. Luz e escuridão são separados, criando noite e dia, a base para o tempo e as estações com ciclos de vida (Gn 1: 3). Organismos vivos geram ordem, porém a ordem não pode dar vida ao organismo. Assim, o ser precede o fazer na medida que o “quem” antecede o “que”.

A vida de Deus organiza o caos. Isso acontece não no sentido de leis naturais fixas, mas em estabelecer um ambiente onde a vida sustentada pelo Espírito é permitida a florescer. Reflexiva da natureza pericorética, Deus olha para a sua própria existência e cria a humanidade como os últimos sujeitos da Criação. “Em nossa imagem e semelhança” (Gn 1:26) implica que a humanidade seria essencialmente diferente de toda a criação antes dela. A Imago Dei (imagem de Deus), portanto, se assemelha à qualidade divina de particularidade e reciprocidade. Cada Pessoa da Trindade é distinta, recíproca e mutualmente dependente. A humanidade era para ser acolhida na comunhão pericorética divina e por isso foi lhe concedida liberdade (como poder) para se relacionar e se comunicar com a Trindade. Deus formou o homem do pó, mas também deu vida em suas narinas (Gn 2: 7). A humanidade passa a refletir o seu Criador porém ao mesmo tempo surge da própria criação. Ela é natural mas também espiritual. Humanidade é definida pela sua ontologia, seu valor especial entre criação, e pela sua teleologia, a capacidade de reciprocidade com a comunidade Trinitária. Desta forma, Deus dá a vida e acolhe homens e mulheres na comunidade divina como um ato de amor, assim, estabelecendo seu ato de hospitalidade.

Três Consequências da Hospitalidade Trinitária

A relação entre Deus e o mundo no relato da criação expressa hospitalidade trinitária das seguintes maneiras. Em primeiro lugar, na definição de caos em ordem por meio de atos soberanos de vontade divina, Deus mostra que a existência harmoniosa é uma parte intrínseca da comunidade trinitária. Com a declaração “e Deus viu que isso era bom”, a existência harmoniosa de todos os seres vivos é repetidamente mostrada como sendo o objetivo principal da criação de Deus (Gn 1: 9, 12, 15, 18, 21, 25, 31). Harmonia não é definida por um conjunto de leis naturais fixas, mas como um ecossistema dinâmico e epigenético que preserva o florescimento da vida. Harmonia se dá pela mútua dependência e reciprocidade. É um movimento constante de vida (perichoresis) e não uma estrutura hierárquica rígida.

Em segundo lugar, Deus cria a humanidade como diferente de toda a criação. Um valor especial é dado à humanidade por ter sido criada por Deus de acordo com sua “imagem e semelhança”. Embora alguns estudiosos discordem sobre as particularidades do Imago Dei, um terreno comum é que a Imago Dei fala do valor e da igualdade inerente à todos seres humanos. Reciprocidade e dependência mútua é comunicada à comunidade humana através da Trindade. Igualitarismo é, portanto, fundamentado na natureza do próprio Deus Triuno e não em qualquer outra base de interpretação. Imago Dei informa-nos que somos seres recíprocos, cuja melhor existência se dá em comunhão com Deus e com uns aos outros. Assim, somos iguais, indiferente de raça, gênero e posição social.

Finalmente, Deus mostra amor e convida a humanidade para participar da sua comunidade trinitária ao dar de sua vida. Hospitalidade é o ato de preparar um ambiente para nutrir relacionamento. Deus planta um jardim no Éden e para relacionar-se com a humanidade (Gn 2:8). No entanto, a humanidade não era apenas para compartilhar no amor vivificante de Deus, mas também no propósito de manutenção da vida de Deus (Gn 2:15). Ontologia é seguida por uma teleologia. A Trindade define a diferença entre teologia e totemismo, pois Deus nos chama para participar de sua missão, e não vice-versa. A perspectiva trinitária projeta particularidade e reciprocidade de Deus na humanidade, fornecendo a base através da qual Pai, Filho e Espírito Santo são iguais porém distintos, porém igualmente envolvidos de forma dinâmica na história da salvação do mundo.Uma comunidade de reciprocidade se torna o ethos da criação. Além disso, Deus dá autoridade para homens e mulheres igualmente participar de uma missão comum em que a preservação da vida torna-se o telos da criação. Assim, uma leitura trinitária da criação implica que a hospitalidade deve criar uma nova realidade de igualdade em meio ao caos atual através da mutualidade de vida e propósito. Esta é a missão de Deus na qual somos chamados a participar.

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