Missiologia da Aliança

A aliança não é apenas um dos temas mais predominantes na Bíblia mas é também uma chave hermenêutica para entendermos o que é missão. A aliança presume uma eleição e ambas operam juntas para o cumprimento da missão. N.T. Wright no seu livro A Autoridade das Escrituras defende que “na eleição Deus define o propósito, mas na aliança ele define o relacionamento.”

O que Wright estava dizendo é que a missão de Deus não pode ser cumprida sem o Deus da missão. Propósito e relacionamento são mutualmente dependentes. E até quando pensamos sobre a missão da igreja propriamente como missio ecclesiarum, um deve entendê-la como uma extensão da própria missio Dei. Missão é a síntese do dialético porém aliançado relacionamento entre Deus e sua Igreja.

Esse entendimento sobre a mutualidade entre propósito e relacionamento é especialmente importante para nós hoje. Atualmente vivemos uma dicotomia entre relacionamento e trabalho. Ambos tem se tornado esferas polarizadas que jamais devem intersectar. Um lado é pessoal e o outro profissional. Essa abordagem reducionista culminou na priorização da tarefa em detrimento do relacionamento e vice-verse. Isso acontece ao ponto onde os valores inerentes ao seu humano são denegridos na busca incessante por uma funcionalidade mecânica utilitária do próprio relacionamento.

No processo de priorização, a abordagem profissional convoca indivíduos a deixarem suas esferas pessoais para trás. Sua vida pessoal jamais deve interferir na sua performance como profissional, e assim construímos vias de regras como, “isso não é pessoal, é negócio” para justificarmos ações que denigrem a nossa pessoalidade. Isso não apenas reorganiza prioridades, mas também perpetua injustiças através de um sistema mercantil de valor baseado em performance e troca de serviços a ponto que o próprio relacionamento íntimo e pessoal acaba sendo utilitariamente definido.

O modelo divino de aliança e missão fala profeticamente contra julgamentos de valor utilitário. O conceito da Missiologia da Aliança nos ensina que toda pessoa é indispensável para a missão e que todo trabalho é feito em relacionamento com Deus e sua Igreja. Um estudo recente feito pelo Gordon-Conwell Theological Seminary nos EUA descobriu que missionários tradicionais somam apenas .07% da igreja brasileira, um número que também condiz com a média de .1% da igreja norte-americana. O modelo do “missionário profissional” prevalente no século passado promulgou a mensagem de que missão é o serviço de apenas alguns poucos escolhidos que desassociam o pessoal do profissional. Eu creio que existe um lugar para o missionário de carreira, porém também creio que o maior impacto acontecerá quando toda a Igreja for chamada para pregar todo o Evangelho para todo o mundo utilizando todo meio possível.

A aliança é o enquadro onde Deus se revela e a sua verdade é atuada. A Bíblia nos mostra que Deus habita em lugares de aliança. No Tabernáculo de Moisés, a glória de Deus encheu o santuário e Israel experimentou o poder, amor e misericórdia de YHWH. Do mesmo modo nos dias de Salomão, quando a glória de Deus encheu o templo e o mesmo se tornou uma casa de oração para todos os povos. No Novo Testamento, a glória de Deus habita em Cristo de uma vez por todas no templo do Seu corpo, reconciliando o mundo à Deus e à si mesmo através na Igreja.

Missão é a síntese da eleição e aliança que Deus faz com o seu povo. Propósito e relacionamento caminham juntos no desvendar do glorioso plano de Deus. É na Igreja, como o Corpo de Cristo, que a verdade é decretada para desmontar estruturas de injustiça e a Sua glória é revelada como a atuação do Reino de Deus na terra.

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