Será que a mensagem da cruz de Cristo é só relevante durante a Quaresma e a Páscoa? Parece-me que tendemos a pensar sobre o caminho da cruz apenas depois que nos abastamos do auto-consumo do carnaval. As práticas espirituais são preludidas pelas práticas carnais, o que me parece um tanto quanto antagônico. A cruz então se torna um pequeno intervalo nas nossas vidas egoístas, ao invés de uma prática diária conforme sugere Mateus 16:24.

De qualquer maneira, o caminho da cruz carrega uma significância tremenda para todos os segmentos do Cristianismo, irrelevante de tempos ou épocas. Todas as maiores tradições cristãs refletem e praticam o caminho da cruz de maneiras diferentes. A tradição Católica por exemplo, venera este caminho, que é chamado de Via Dolorosa. Até hoje, católicos do mundo todo visitam a cidade antiga de Jerusalém para peregrinar nos passos de Cristo. Esta peregrinação prelude uma nova experiência, marcada pelas “14 Estações da Cruz”, as quais levam o fiel a pensar e agir à semelhança de Cristo. Por outro lado, a tradição reformada, anabatista, e consequentemente a evangélica atual, tende a não atribuir significância para o ato de peregrinação, e sim para a narrativa Bíblica como revelação de Deus e fato histórico. Isto não significa que pensadores católicos não refletem sobre a cruz à luz da revelação de Deus, mas sim que as tradições protestantes/evangélicas atribuem pouca significância ao ato prático da peregrinação da Via Dolorosa como andando nos passos de Cristo.

Há muita especulação sobre qual exatamente foi o caminho trilhado por Cristo. Tanto a tradição Católica quanto a Ortodoxa mantém que Cristo foi crucificado e prontamente sepultado no lugar onde hoje se encontra a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém. As tradições reformadas/evangélicas não encontram base histórica ou arqueológica para estas afirmações, e acham que o lugar mais provável é o Jardim da Tumba, que fica fora dos portões da cidade conforme narram os Evangelhos. Independentemente da tradição, estudiosos acreditam que este caminho era em torno de 1 (um) quilômetro de distância.

No caminho da cruz há uma profunda verdade teológica que vai além de fatos históricos ou especulações arqueológicas. Para Cristo, o caminho do Gólgota resultou em sua morte e consequente ressurreição. Porém para nós, simbolicamente falando, o último quilômetro rumo ao Gólgota é o caminho que nos leva para fora do tumulto e barulho da cidade, para um lugar retirado. Este caminho nos leva para um lugar de profunda reflexão, um lugar de morte para si e crucificação do ego, ou como o próprio significado original indica, um Lugar da Caveira.

Na narrativa bíblica, é no caminho do Gólgota que encontramos um homem chamado Simão. Mateus 27:32 nos conta que ele era de Cirene, uma cidade situada no norte da África. É muito provável que Simão era um judeu africano e que estava em Jerusalém por conta das festas da Páscoa e Pentecostes. O cenário então explica que Simão estava caminhando da cidade, vindo do campo, provavelmente num ritmo alegre de festa e de descontração junto com os seus dois filhos Alexandre e Rufo. De repente, Simão se encontra numa situação complicada. Ele cruza o caminho de Jesus, que estava carregando a sua cruz rumo ao Gólgota.

Naquela época, o Império Romano tinha uma lei que obrigava os cidadãos das províncias imperiais a carregarem por 1 milha (romana) qualquer coisa que o exército romano mandasse. Cidadãos eram obrigados a carregar armamentos e outros mantimentos quando as tropas se deslocavam. Então por obrigação de lei, vemos que Simão foi obrigado a carregar a cruz de Jesus, sendo Jesus um prisioneiro do império prestes a ser executado. Esta ordem obrigou Simão a largar tudo que estava fazendo, suas intenções, seus planos para a festa, para assemelhar-se com Jesus carregando a cruz de um prisioneiro do império e do Sinédrio.

Este relato nos ensina um princípio. Ainda hoje, quando cruzamos o caminho de Jesus, somos obrigados pela sua Palavra, a Lei do Espírito, a tomarmos uma atitude semelhante a de Simão de Cirene. Vale lembrar que a cidade inteira de Jerusalém estava em alvoroço por causa da Páscoa e crucificação de Cristo. A sua condenação havia se tornado um episódio público e por motivo da festa pascal, onde os romanos libertavam um prisioneiro político para ganhar o coração e mente dos colonizados, os cidadãos de Jerusalém haviam escolhido a Barrabás. Ao carregar a cruz, Simão havia se identificado com o Jesus condenado. Muito além, para os judeus, Simão havia se identificado com o blasfemo que dizia ser o Filho de Deus. Simão havia se identificado com Cristo na sua vergonha, fraqueza e aparente derrota. Neste momento até os próprios discípulos de Cristo já o haviam abandonado, pois não queriam receber a mesma perseguição e sentença que Jesus recebeu. No caminho da cruz, Cristo foi exposto à humilhação pelo mundo e a religião. Ambos agrediram, insultaram, cuspiram e envergonharam o suposto Messias. Simão estava ali, sentindo na sua própria carne a humilhação. Talvez sentindo os resquícios dos cuspes tocando a sua pele. O peso das pedras e dos insultos proferidos contra o agitador Jesus. Simão foi forçado a identificar-se com a vergonha de Cristo. A vergonha de quando Deus parecia ser falso ou fraco demais para se defender.

O último quilômetro rumo ao Gólgota é o caminho da cruz para todos nós hoje. Simão é compelido a se identificar com Cristo quando o mundo, o Império Romano, e a religião, o Sinédrio dos Judeus, havia o condenado como falso e sem poder. A história de Simão em Mateus 27 levanta algumas questões para nós hoje. Primeiro, quantos de nós somos envergonhados hoje por sermos cristãos? Por obrigação da lei romana, Simão não podia apenas largar a cruz e afastar-se de Cristo. Porém, quantos de nós hoje somos rápidos a fugir da vergonha para pouparmos a nossa própria imagem? Até onde estamos dispostos a carregar a cruz e nos identificarmos com Cristo sob os olhos do mundo e da religião?

De certa forma, tendemos a pensar sobre a cruz de Cristo somente durante a Quaresma, depois do abastecimento da carne. No entanto, a identificação com Cristo em sua morte é uma ação diária e contínua, irrelevante do momento no calendário litúrgico. Talvez o que é mais impactante sobre este relato é o fato de que em nenhum momento Cristo se defendeu. Jesus sabia que a perseguição era uma ferramenta de Deus para o cumprimento da sua missão. Da mesma forma, Cristo não nos promete que não teremos perseguição ou sofrimento pela nossa fé. O que Deus promete é a ressurreição, uma nova vida no poder do Seu Espírito. Contudo, esta ressurreição só é atingida se nos identificarmos com o Cristo crucificado, conforme a lição de Simão.

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