O Dia de Pentecostes

O século passado providenciou a maior transformação e crescimento que o cristianismo já experimentou. Pela primeira vez na história, o cristianismo é hoje mais prevalente nos países em desenvolvimento. Missiólogos e sociólogos atribuem este crescimento ao que hoje é rotulada de “Era do Espírito”. Esta era do Espírito foi marcada por eventos de avivamentos carismáticos que ficou conhecido como o Movimento Pentecostal. Central para o Movimento Pentecostal foi o redescobrimento de Atos 2, que chama a Igreja a ser revitalizada pelo vento do Espírito e pela investidura de Seu poder. O líder carismático T.L. Osborn disse certa vez que o nome Pentecostal é em si uma nomenclatura redundante, pois toda a Igreja, não só movimentos carismáticos, têm suas raízes em Atos 2. Eu aplaudo e promovo esta posição. Todo cristão é “pentecostal” sendo ele ligado à um movimento carismático ou não. Com isso, a proposta deste post é para convocar todos os cristãos a refletir sobre Atos 2 e o que nos torna verdadeiramente “Pentecostais”.

O Livro dos Atos dos Apóstolos é talvez uma das narrativas mais vibrantes e dinâmicas em todo o cânon bíblico. O autor de Atos foi Lucas, um médico e autodenominado historiador que também escreveu o Evangelho que leva seu nome. Atos serve como uma continuação do Evangelho de Lucas. Ele é cheio de grandes e maravilhosas histórias sobre o Movimento de Jesus que começou com o chamado de doze improváveis discípulos três anos antes. Ele retrata o que aconteceu depois da ressurreição e ascensão de Jesus, e como esses discípulos continuaram a missão que Cristo tinha começado. Em Atos encontramos registros do crescimento explosivo da Igreja, vemos milagres, sinais e maravilhas realizados pelos discípulos. Em Atos, vemos como aqueles improváveis discípulos tornaram-se grandes líderes e pregadores, declarando o Evangelho do Reino de Deus em Jerusalém, Judéia, Samaria e no mundo.

O Dia de Pentecostes em Atos 2 marca a transição de quando os improváveis discípulos se tornam líderes de um movimento. Lucas retoma onde o Evangelho que leva seu nome deixou. Ele fornece uma continuidade da morte e ressurreição de Jesus, fala sobre a sua ascensão e instruções finais para seus seguidores. Lucas faz questão de mostrar que a ressurreição de Cristo não foi o ato final de Deus e ressalta o clamor dos anjos dizendo, “por que olhais para os céus, galileus?”. Lucas infere que uma grande missão estava prestes a começar pela Igreja. Enquanto alguns dos discípulos esperavam uma procissão triunfal em Jerusalém, derrotando o Império Romano, Jesus chama os seus discípulos para esperar na cidade, até que recebessem poder através do Espírito Santo. Somente assim eles poderiam exercer a sua missão de testemunhar a respeito do Reino, cujo Rei é Jesus.

Pentecostes então marca a fundação da Igreja e da sua missão. O dia de Pentecostes era uma ocasião alegre. Para os judeus do primeiro século, este dia representava o início do festival da colheita. A Festa de Pentecostes era um momento de júbilo e ação de graças onde que a sociedade agrícola de Israel oferecia as primícias da sua colheita à Deus. As libações e abundância da colheita energizava uma esperança e expectativa para a colheita porvir. É com este pano de fundo que Lucas escreve Atos 2. Os judeus sabiam o que Pentecostes significava, e por isso não foi por acaso que Deus escolheu para derramar o Espírito Santo em abundância nesta ocasião. Há algumas semelhanças notáveis ​​no relato de Lucas com a Festa de Pentecostes. Os discípulos ficaram cheios de esperança, fé e alegria quando o Espírito desceu. Para alguns, isso se assemelhava aos efeitos do vinho novo que fluía abundantemente durante o festival da colheita. Da mesma forma, o Espírito veio e produziu um novo poder e força, que era necessária para o início de uma nova época de colheita, assim como fazia a Festa de Pentecostes.

Então, o Espírito veio em forma de vento e fogo. Este era realmente um novo poder e esperança. Atos 2 relata a primeira vez que vemos os apóstolos pregando o Evangelho em público após a ascensão de Jesus. Após os dias da morte e ressurreição de Cristo, encontramos os apóstolos escondidos com medo da ameaça dos líderes judeus e soldados romanos. Embora Cristo lhes aparece em público em várias ocasiões, não vemos os discípulos fazendo qualquer tipo ministério público até quando recebem poder no dia de Pentecostes. Pentecostes então tornou o medo em ousadia, e fraqueza em fé.

Vemos que os apóstolos também pregaram e realizaram o ministério público de uma maneira nova. Até aqueles dias, a Palavra de Deus era geralmente lida em hebraico e ensinada em aramaico. Mas no dia de Pentecostes, o Espírito Santo faz com que os apóstolos declararem louvores a Deus em uma multiplicidade de línguas. Deus estava estendendo a sua mensagem para as nações, e a maior parte do mundo conhecido da época ouviu a mensagem das grandezas de Deus em seus próprios idiomas. O Espírito estava convocando, através das bocas dos discípulos, as nações a se reunirem numa só comunidade sob o senhorio de Cristo. Isso significava que a mensagem do Evangelho era para todos, não apenas os judeus.

O Dia de Pentecostes marcou algo novo, mas também foi uma continuação da história salvífica que Deus já havia iniciado há muito tempo atrás. Para os judeus do primeiro século, o Dia de Pentecostes também marcava o quinquagésimo dia após a Páscoa original e o êxodo do Egito sob a liderança de Moisés. A tradição judaica ostentava que Israel havia chegado no Monte Sinai após 50 dias de viagem pelo deserto. No Monte Sinai, Moisés recebeu a Lei que era para agir como norma para como Israel havia de viver em sua nova liberdade. Isto novamente não foi coincidência para Lucas. Seu relato sobre o derramar do Espírito no dia de Pentecostes chamava Israel a entender que Deus estava agora libertando o mundo através de Jesus, em vez de Moisés, e dando uma nova norma para a liberdade através do Espírito da vida, em vez da Lei escrita. A Lei de Deus agora estava sendo escrita nos corações das pessoas ao invés de tábuas de pedra, transformando-as a partir do interior.

Através do vento impetuoso e línguas de fogo, Pentecostes formou uma nova comunidade à partir do exílio, como vemos em Êxodo. Jesus, aquele que era maior que Moisés, agora estava libertando todos os povos do cativeiro do pecado e da morte, e dando o seu Espírito como um sinal da aliança de Deus com o seu povo. Por sua vez, o Espírito era o poder para manter esta liberdade, chamando as nações para adorar a Deus em uníssono com Israel de baixo de uma única só comunidade de vida e missão. Desta forma, Atos 2 marca a inauguração da Igreja como um novo ato na continuação da história missionária e salvífica de Deus.

O exílio havia servido para dispersar pessoas, porém o Pentecostes havia se tornado um movimento de ajuntamento. Através da Igreja, o Espírito estava reunindo “todas as nações debaixo do céu” para ouvir as grandezas de Deus, talvez até mesmo o nome inefável de Deus (YHWH), sendo declarado em suas línguas nativas. Neste contexto de multiculturalidade, o Espírito cria uma nova metacultura sob a bandeira do Reino de Deus. Israel e as nações tornam-se um só corpo, e o povo de Deus agora é definido a partir daqueles que são libertados da escravidão do pecado através de Cristo, e recebem o Espírito Santo como selo. O Pentecostes serviu como uma redefinição do povo de Deus através de uma expressão multicultural. Por meio dele, Cristo estava unindo judeus e gentios através da libertação do pecado e da igualdade na dispensação do Espírito.

Embora Pentecostes revele o desejo de Deus para multiculturalidade, ele revela que Deus também preza pela particularidade da identidade cultural. Muitas línguas estavam sendo faladas naquele dia, porém Pedro se levanta com os outros apóstolos e prega para as pessoas usando o vernáculo. A reação do público estava dividida entre espanto e zombaria, porém o Espírito usa Pedro e os discípulos para explicar o que Deus estava fazendo em seu meio. Esta explicação comunitária leva à convicção daqueles que estavam ao redor. Ao contrário da Lei que havia sido dada e ensinada por um só homem, Moisés, o Espírito foi dado a todos e interpretado pela comunidade inteira. Por isso, Lucas relata que Pedro e os demais apóstolos se levantaram para pregar.

Desta forma, Pedro e os discípulos usam a língua comum para falar de seu conhecimento comum, baseado em sua história comum. Pentecostes estava incorporado na imaginação profética que era comum a todos os judeus. Ele tinha uma base de continuação no Antigo Testamento, pois o profeta Joel havia predito este acontecimento. Pentecostes não era uma “coisa nova” que era para ser entendida aquém da aliança. Pelo contrário, Pentecostes era o cumprimento das promessas preditas na história de Israel. Ele era a continuidade do que Deus sempre teve a intenção de fazer, e isto fazia sentido para alguns judeus. Pentecostes marcava a chegada dos últimos dias conforme havia dito Joel. Era o clímax da história de Deus com o povo de Deus. Deus estava agora usando todos de Israel, filhos e filhas, homens e mulheres, escravos e livres, para trazer a salvação ao mundo através de Cristo.

Por fim, Pedro apresenta Pentecostes como um evento cristológico. O derramamento do Espírito Santo foi uma confirmação da ressurreição de Jesus e sua exaltação como Senhor e Cristo. Era uma confirmação do que Cristo havia dito a respeito de si mesmo. Pedro traz um novo elemento para a sua proclamação, o Espírito age para testemunhar sobre Cristo. Pedro proclama que Cristo é o Rei legítimo com base em promessas e linhagem davídica. Os discípulos eram testemunhas que Jesus era o Messias e que havia ressuscitado, e seu testemunho foi validado através da manifestação sobrenatural do Espírito. E assim, Pedro declara que Israel é culpado de traição contra o verdadeiro Messias.

Pedro não declara a traição de Israel como alguém está acima das pessoas em julgamento. Pelo contrário, ele declara como alguém que também havia traído o próprio Cristo e que também havia experimentado perdão, reconciliação e inclusão na comunidade de Deus. Por isso, ele apela para o arrependimento de Israel, pois ele mesmo sabia que Deus era poderoso para perdoar. Não só Deus perdoa a todos os que se arrependem, mas também resgata e inclui na nova comunidade de Deus, dando o dom do Espírito Santo. Esta convocação não era exclusivamente para Israel e seus descendentes, mas sim para todos a quem o Senhor chamar.

Como dito no começo, Pentecostes é o evento que define a própria identidade da Igreja. O cristianismo nasceu na junção de três continentes cercado por dois impérios. Até o final do primeiro século, ele já tinha chegado até a Índia através de importantes rotas de comércio do mundo antigo. Junto com a sua fé, os primeiros cristãos levavam consigo mesmos suas culturas, línguas e costumes. Por causa de Pentecostes, o cristianismo tornou-se um movimento policêntrico, polifônico e multiétnico. A Igreja não era o produto de uma única etnia, mas sim uma expressão multicultural de adoração demonstrada pela primeira vez em Atos 2.

Como podemos observar em Atos 2, os primeiros cristãos estavam unidos sob uma única fé cristológica que proclamava a Jesus como Cristo e salvador do mundo através do poder do Espírito Santo. Aqueles que aderiram à mensagem formaram uma comunidade de exílio que era contra a cultura dominante e o status-quo. As práticas contraculturais da Igreja muitas vezes incitava a perseguição de líderes judeus, e mais tarde do Império Romano sob o reinado de Nero. Líderes temiam, pois eram capazes de ver real transformação em suas sociedades através da Igreja. Assim como Pentecostes havia redefinido o povo de Deus, o povo de Deus estava agora redefinindo a sociedade.

Lucas encerra Atos 2, gravando algumas das práticas contra-culturais dentro dessa nova comunidade de exílio chamada Igreja. Embora a Igreja era liderada por um grupo de classe baixa de galileus incultos, os apóstolos se tornaram capazes de ensinar com poder, eloquência e autoridade. Embora a Igreja era pobre e oprimida, a generosidade altruísta era prevalente entre eles e promovia igualdade entre todos. Embora a Igreja havia sido ridicularizada no começo, a comunidade permaneceu hospitaleira para com todos, reunindo-se na parte do templo onde judeus e gentios poderiam frequentar e eventualmente teve a aceitação dos cidadãos. Estas e outras práticas promoveram uma nova cultura, e tudo isso se tornou possível por causa do poder do Espírito Santo, que permitiu a todos a viverem a partir de uma nova liberdade e consciência.

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