O Diálogo entre Ciência e Religião nas Teologias de Karl Barth e Wolfhart Pannenberg

Estamos vivendo em tempos de muito avanço tanto para cientistas quanto para teólogos. Os últimos 150 anos nos apresentou com significativos avanços científicos e tecnológicos que contribuíram para um reorganização sísmica das sociedades ocidentais. Estes avanços têm influenciado como olhamos para viagens, comunicações, saúde, e até mesmo como entendemos a nossa própria existência no cosmos. Algumas das descobertas mais importantes tais como no campo da geologia com Charles Darwin, e no campo da cosmologia física com Albert Einstein e Peter Higgs, alteraram as narrativas mais essenciais de nossa existência. O que resultou dessas descobertas não foi apenas uma nova taxonomia de vida, mas também uma redefinição de nossa própria compreensão ontológica.

Tais avanços não só criaram uma nova epistemologia por meio do empiricismo, como também introduziram uma nova linguagem de significado. No seu papel de produzir uma nova linguagem de significado, muitas destas descobertas científicas foram recebidas com entusiasmo, reserva ou total rejeição pelos diferentes segmentos do cristianismo. Para o segmento racional-liberal europeu e norte-americano, o qual por meio de pessoas como Friedrich Schleiermacher já havia acolhido e aplicado a teoria da evolução de Darwin ao campo da interpretação bíblica, tais avanços implicaram que a doutrina da criação predominante até então agora necessitava ser reformulada, ou senão ser totalmente descartada. Na outra extremidade, nos segmentos conservadores e fundamentalistas particularmente nos Estados Unidos, um movimento reacionário foi lançado através da promoção de posições “fundamentais” que apelaram para o biblicismo, assim procurando preservar uma visão literal da criação e ao mesmo tempo rejeitar as propostas da geologia e cosmologia. Pego no meio desta briga surgiu uma nova tendência no pensamento evangélico norte-americano, que procurou manter valor das Escrituras e ao mesmo tempo permanecer sensível à novas descobertas científicas. É importante ressaltar aqui que nos Estados Unidos a nomenclatura “evangélico” não se aplica à todos que não são católicos, como fazemos no Brasil. Nos EUA, Pentecostais não são “Evangelicals”, tão pouco são os “Reformados Liberais” de certas denominações Presbiterianas e Episcopais, muito menos são os “Fundamentalistas” de algumas denominações Batistas ou Anabatistas. O movimento Evangélico Americano existe à parte de tudo isso, sendo um meio termo entre o liberalismo clássico e o fundamentalismo cristão. Contudo, nos EUA existem evangélicos conservadores e evangélicos neo-liberais. Complicado, eu sei!

O que é significativo nisso tudo é que hoje em dia tanto a ciência quanto a religião/teologia passaram a ser linguagens de significado que operam por meio de epistemologias comuns, porém também por epistemologias totalmente distintas. É à luz destes desenvolvimentos que um diálogo entre os dois encontra o seu significado. Essa é a premissa deste post. O que se segue nos próximos dias será uma tentativa de apresentar duas abordagens inerentemente diferentes para o “problema” que é o diálogo entre a ciência e religião referente à criação. Este “problema” basicamente se resume em duas frentes. Na primeira se encontram os proponentes da visão “não-dialogante”. Esse pessoal crê que a teologia e a ciência pertencem à campos tão distantes que um diálogo é impossível. Os fundamentalistas aderem a esta posição não por que o cristianismo depende de uma epistemologia diferente, mas sim porque eles tentam desapropriar o significado de certas descobertas científicas. Nesta frente esta a teologia da criação do grande Karl Barth, o qual por meio da sua alta visão das Escrituras prega uma diferente epistemologia. Barth de maneira alguma era um fundamentalista, mas sua posição “pró Bíblia” atraiu apelidos pejorativos como o de “neo-ortodoxo” por parte da maestria liberal. Ao contrário dos fundamentalistas americanos, o suiço Barth nunca procurou desmentir a ciência, ele simplesmente alegou que a fé depende de uma outra epistemologia, a epistemologia dogmática. Esse será o tema do meu próximo post. Na outra frente está o pessoal da visão “totalmente-dialogante”. Esse pessoal crê que a teologia completa onde a ciência se limita e vice-versa. Acima de tudo, esse pessoal crê que a ciência e religião podem dialogar “pau a pau”, e o método que é aplicado à uma pode também ser aplicada à outra. Nesta frente está um outro grande teólogo que ironicamente foi pupilo de Karl Barth, seu nome é Wolfhart Pannenberg. Analisarei a sua teologia da criação no terceiro post dessa série. Como a moral deste post é promover um diálogo entre a ciência e a religião, achei que um bom começo seria deixar que Barth e Pannenberg dialoguem dentro da esfera do cristianismo. Este será o tema do meu último post, quando traçarei um caminho para um diálogo frutífero entre a ciência e a religião referente à origem de todas as coisas.

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