O Paradigma Trinitário da Hospitalidade

Neste post vamos explorar o paradigma Trinitário da hospitalidade em Gênesis 1 como ferramenta missionária para a igreja nos dias de hoje. Veremos como a prática da hospitalidade é muito mais do que diversão ou entreter amigos.

Gênesis 1 começa relatando a missão de Deus ao criar o mundo. A narrativa começa com a separação da luz das trevas no primeiro dia (Gn 1:3) e termina com o dia de descanso no sétimo (Gn 2:2). No início, a Bíblia define o estado inicial da terra como caótico, sem fim ou significado. O relato nos diz que a “terra era sem forma e vazia, havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1:2 NVI). A palavra hebraica para “sem forma” no versículo 2 é o termo תֹּהוּ (tohuw), que significa “terra devastada, um lugar de confusão e caos.” É neste contexto que a criação começa a acontecer. O versículo seguinte diz: “E disse Deus: Haja luz, e houve luz” (Gn 1:3 NVI). Também é importante notar a palavra usada para “Deus” aqui. O hebraico אֱלֹהִים (Elohim) implica dois atributos. Primeiro, o poder de Deus, o Criador. El em Elohim significa o “Deus forte.” E o que menos do que a força do Todo-Poderoso poderia trazer todas as coisas a partir do nada? Segundo, a pluralidade de pessoas na divindade, Pai, Filho, e Espírito Santo. Este nome plural de Deus (Elohim), em hebraico, fala de Deus como uma comunidade de pessoas vivendo em unidade.”

O entendimento de Elohim ao descrever a Divindade é importante para começarmos a atingir uma perspectiva bíblica sobre hospitalidade pelas seguintes razões. Primeiro, ele revela que Deus é poderoso para “declarar” (Gn 1:3) a criação à existência pelo poder da sua palavra. Não só o El em Elohim representa poder, mas também o Espírito de Deus é demonstrado como soberano “pairando” sobre a face das águas (Gn 1:2). Deus é apresentado como alguém que está acima da realidade atual do caos. No entanto, o Espírito aparece como um sinal de esperança, a perspectiva de uma nova realidade harmoniosa da criação está prestes a acontecer. Essa lógica segue o padrão bíblico de atividade divina como se vê por toda a Escritura, o Espírito trabalha quando a Palavra de Deus é declarada.

Em segundo lugar, Elohim indica que a divindade é uma pluralidade de pessoas. A Santíssima Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo – que apesar de ser três pessoas distintas, são um e iguais entre si. O relato da criação revela Deus como uma comunidade das Três Pessoas da divindade. Harmoniosamente interagindo entre si com base no amor e vida em comum. É a partir dessa perfeita unidade que ordem é estabelecida em meio ao caos. Portanto, a criação nos mostra que as qualidades necessárias para a hospitalidade, como ordem, comunidade e harmonia, são todas frutos da natureza e do poder de Deus.

É a partir da comunhão mútua do Deus Triúno que ordem passa a existir. A narrativa da criação é intencional em mostrar esta “ordem”. Ela relata um progresso cronológico marcado por sete dias. Tudo começou no primeiro dia. Luz e trevas foram separados, criando noite, dia, e a base para o tempo cronológico orientado pelo sol e lua (Gn 1:3). Progressivamente, a criação ocorreu até tudo o que existe veio a existir. Organização do mundo de Deus culminou no sexto dia, quando Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1:26 NVI). Deus olha para Si mesmo ao fazer os últimos seres da Criação. “Em nossa semelhança” implica que a humanidade seria inerentemente diferente de toda a criação antes dela. Não como alguém que evoluiu a partir de outros seres, mas como o resultado do envolvimento íntimo do próprio Deus. Considerando que todos os outros seres criados foram “falados” à existência, desta vez “Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2:7 NVI). A verbo “formar” יָצַר (yatzar) implica em “a ser moldado por um oleiro”, como um escultor que se envolver pessoalmente com a sua obra. Isto sugere o valor inerente a humanidade, como sendo criado à imagem de Deus. O sopro da vida é o próprio Espírito do Deus vivo, que pratica a hospitalidade ao acolher a humanidade na comunidade divina através do compartilhamento da Sua própria vida.

Intenção missionária de Deus para a hospitalidade transformacional é expressa a nós através da narrativa da criação das seguintes formas. Primeiro, ela mostra que a divindade é uma comunidade de amor e igualdade simbolizadas por Elohim. Não há necessidade de hospitalidade quando não existe intensão para formar uma comunidade. Consequentemente, a hospitalidade torna-se importante quando entendemos que ninguém é completo por si só. Em segundo lugar, na transformação do caos em ordem através de atos soberanos de vontade divina, Deus mostra que a harmonia é uma parte intrínseca da comunidade trinitária. A existência harmoniosa do Trindade é imanada na criação como uma expressão do próprio ser de Deus. Com a afirmação: “E viu Deus que era bom”, a existência harmoniosa de todos os seres vivos é repetidamente demonstrada como sendo o objetivo principal da criação (Gn 1, 9, 12, 15, 18, 21, 25, 31, NVI). Consequentemente, a vontade de Deus para que haja harmonia entre toda a criação deve informar a forma como abordamos a prática da hospitalidade missionária nos dias de hoje.

Em terceiro lugar, Deus cria o homem distinto de toda a criação. Um valor especial é dada à humanidade ao ser criada à “imagem e semelhança” de Deus. Embora os estudiosos discordem sobre as particularidades da Imago Dei, um entendimento comum é que Imago Dei fala do valor e igualdade de todos os seres humanos. Igualdade humana é portanto fundamentada na natureza do próprio Deus, e não em qualquer outra base de interpretação. Imago Dei nos informa que a prática da hospitalidade missionária a toda humanidade atribui valor a todos os seres humanos com base na semelhança divina, e não na raça, sexo, origem cultural ou econômica. Então, o paradigma trinitário da hospitalidade missional mostra que todas as pessoas devem ser consideradas iguais e incluídas na comunidade cristã.

Em quarto lugar, Deus acolhe a humanidade na comunidade divina e abençoa-a com autoridade entre a criação. Nós muitas vezes interpretamos a hospitalidade como a “preparação de um ambiente para receber amigos ou estranhos.” O relato da criação indica exatamente isso. Gênesis 2:8 diz: “Ora, o Senhor Deus tinha plantado um jardim no oriente, no Éden; E pôs ali o homem que tinha formado.” O Jardim do Éden era para ser o lugar de relacionamento entre Deus e Adão e Eva. Deus preparou um ambiente em que a humanidade poderia participar da comunidade trinitária através do amor de Deus. Assim, Deus praticou hospitalidade para com Adão e Eva, recebendo os em sua comunidade trinitária e criação. No entanto, a humanidade não era para apenas compartilhar no relacionamento com o Deus Trino, mas também no propósito do próprio Elohim. “O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar” (Gn 2:15 NVI). Desta forma, a vida em comum também gera uma missão e propósito em comum. Em conclusão, o paradigma trinitário nos mostra que a hospitalidade deve formar comunidades missionárias (igrejas) que compartilham vida e propósito, estendendo o seu alcance à toda humanidade em ordem, harmonia e igualdade.

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