Em Lucas 9 encontramos uma narrativa que diz respeito à identidade de Jesus Cristo. Este enredo se desenvolve em 4 atos, cada ato tem seu protagonista que comunica a partir de um ponto de vista específico.

O primeiro personagem que encontramos é Herodes Antipas, o tetrarca. Ele comunica a partir da perspectiva do império, da realeza e da classe governante. Em segundo, encontramos a multidão que seguia a Jesus. A multidão comunica a partir da população geral e nos oferece insights a respeito do consenso sobre Jesus em meio à classe populista. No terceiro ato, os principais protagonistas são os discípulos de Jesus, aqueles que caminhavam mais próximo e viram sua missão se desdobrar experimentalmente. Aqui vemos como um conflito de interesse gera uma crise de identidade. Finalmente, no quarto ato encontramos a pessoa de Deus. Deus fala a partir da sua perspectiva divina. Aqui vemos como Lucas registra o próprio Deus como um sujeito ativo no ministério de Jesus e como uma fonte credenciada no revelar da sua identidade.

O que eu vejo em Lucas 9 são diferentes camadas de percepção organizadas pelo evangelista. A intenção clara é de projetar como a identidade e missão de Jesus alcançava todas as camadas da sociedade importantes para o seus leitores alvo. Sabemos o destinatário do Evangelho de Lucas era Teófilo, um governante gentio da província de Corinto que se convertera ao evangelho. O que acho interessante é que Lucas não parece preocupado em incluir a opinião das autoridades religiosas judaicas, se bem que mais tarde em seu Evangelho, ele registra a identidade e autoridade de Cristo como ponto de contensão entre Jesus e os fariseus (Lucas 20:2).

Dado este roteiro, vamos olhar para cada ato e juntar opiniões para formar um quadro exato sobre a identidade e missão de Jesus.

Herodes Antipas, o Tetrarca

Lucas 9 abre com Jesus instituindo os seus doze apóstolos como embaixadores do Reino de Deus, um Reino cujo qual o próprio Jesus era o Messias. Os Apóstolos então são enviados pela Galileia para declarar a chegada deste novo Reino, um ato que parece chamar atenção da classe dominante. Lemos que “o tetrarca Herodes ouviu comentários sobre o que estava ocorrendo e ficou assustado” (Lucas 9:7). O inquérito de Herodes a respeito de Jesus aparece no versículo 9; “Eu mandei decapitar a João; quem é, pois, este a respeito do qual tenho ouvido tais coisas?” Talvez um outra maneira de dizer seria; “Eu decapitei o maior profeta do país que se atreveu a falar contra mim. Quem agora é esse novo dissidente?”

A missão messiânica de Jesus parece desconhecida para a classe dominante neste ponto exato do seu ministério. Porém quando Jesus institui os Doze e os envia, ele se posiciona em oposição ao império. Para entender o porquê o inquérito de Herodes é importante primeiro entender quem ele era. Herodes Antipas era filho de Herodes o Grande, um rei infame que reinou na época que Jesus nasceu. Nós sabemos dos próprios Evangelhos que Herodes o Grande havia ordenado o massacre de todos os meninos com menos de 3 anos ao saber que um novo rei dos judeus havia nascido.

Herodes o Grande reinou com punho de ferro. Sua autoridade sobre a judeia era inquestionável. Ele havia sido apontado rei dos judeus pelo próprio senado romano, e depois de uma série de batalhas brutais, instituiu a sua própria dinastia com todo apoio de César. Herodes foi realmente brutal. Historiadores o descrevem como um louco que matou membros da sua própria família e muitos rabinos que levantaram contra ele, também o chamam de gênio maligno da nação judaica e alguém que estava preparado para cometer qualquer crime necessário para gratificar a sua ambição sem limites.

Herodes Antipas, o tetrarca, teria crescido dentro deste ambiente. Como seu pai, a sua missão era de proteger e perpetuar a sua dinastia contra qualquer ameaça. O ministério messiânico de Jesus, que declarava um novo Reino, o teria colocado de baixo da categoria de dissidente político. Assim como seu pai, Herodes Antipas iria depois querer matar a Jesus (Lucas 13:31), assim explicando o porquê ele “empenhava a conhece-lo” (Lucas 9:9).

O que acho interessante neste ato é que a identidade e ministério de Jesus eram extremamente públicos. O pequeno movimento que começou na Galileia se tornou influente a ponto de sua fama chegar às cortes reais. Vemos que o foco do protagonista deste ato, Herodes, era de proteger o status quo. Ele queria liberdade de qualquer ameaça que poderia enfraquecer o seu reinado. O “Pequeno” Herodes era igual o Grande Herodes que veio antes dele, ele tinha uma dinastia para proteger. Desta forma, ele estava ciente do seu passado e agia conforme o estilo governamental que seu próprio pai havia instituído. Jesus, portanto, representava nada mais do que uma ameaça à sua dinastia.

O “Pequeno” Herodes era igual o Grande Herodes que veio antes dele, ele tinha uma dinastia para proteger.

A Multidão

O segundo ato que vemos neste enredo sobre a identidade de Jesus acontece em meio à população geral. O evangelista dedica uma considerável quantidade de tinta para registrar quem multidões seguiam a Jesus. Em Lucas 9, Jesus já tinha construído uma reputação entre população como profeta, mestre e fazedor de milagres. O Reino havia chegado para os destituídos, e as multidões se achegavam para serem curadas (Lucas 9:11) e até alimentadas (Lucas 9:13).

Lucas 9 representa uma mudança sísmica onde Jesus aponta os Apóstolos como pastores do povo. A missão dos Apóstolos era centrífuga, porém também centrípeta. Jesus não só havia os enviado para adentrarem cidades e lares com o Evangelho do Reino (Lucas 9:1-4), mas também os comissionou para cuidar das multidões que se achegavam e seguiam o movimento (Lucas 9:13). Os apóstolos eram para estar em meio ao povo, cuidando e os alimentando como pastores do rebanho. Essa proximidade às multidões os deu um insight agudo sobre o que o povo pensava a respeito de Jesus.

Para as multidões, Jesus era João Batista, Elias ou um dos profetas antigos (Lucas 9:19). Em outras palavras, Jesus era um profeta “à moda antiga”. A perspectiva da multidão fazia sentido. Antes do surgimento de João Batista houve-se quase nenhuma atividade profética em Israel. Estudiosos protestantes geralmente referem à este período como os “400 Anos de Silêncio”. Este “silêncio de Deus” é a principal característica do período intertestamentário que vai de Malaquias, o último livro do Antigo Testamento, e o surgimento de João Batista. Eventos durante este período e o aparente silêncio de Deus teriam alimentado uma expectativa profética em Israel. Depois de um longo período de silêncio, de repente surge Jesus como a esperança para mudar a realidade presente do povo. Ele fazia milagres, curava e promovia justiça. O Ano do Jubileu havia chegado. Jesus era, portanto, um profeta à moda antiga, como os demais que permeavam a rica história do povo judeu.

Onde Herodes Antipas olhou para o passado, as multidões olhavam apenas para a sua realidade presente. Como um profeta das antigas, Jesus tinha poder para trazer liberdade das necessidades presentes. As narrativas nos Evangelhos que envolvem às multidões são quase sempre repletas de uma urgência do presente. Elas geralmente seguem este ritmo; Jesus vem aqui, Jesus vai ali, Jesus faz isso e faz aquilo… Curas, libertações e outros milagres acontecem no tempo presente, geralmente como resultado de uma petição imediata. A multidão se interessava no aqui e agora. Como profeta, Jesus intervém no natural, porém é mantido ali na perspectiva da multidão. A multidão mantinha uma interação com Jesus baseada nas necessidades naturais, quase nunca permitindo que um relacionamento frutífero florescesse. Isso então explica a confusão a respeito da pessoa de Jesus (ele era João Batista, Elias ou qualquer outro), porém também demonstra um consenso sobre os benefícios de andar atrás de um profeta.

Os Discípulos

Lucas continua a remover as camadas da identidade de Jesus ao abordar a perspectiva dos seus seguidores mais próximos. Neste instante, eu vejo uma significante mudança no tom da narrativa, a qual é representada pelo uso da conjunção “mas”. “Mas vós, quem dizeis que eu sou?” (Lucas 9:20) A conjunção aqui é claramente usada para causar um contraste entre as perspectivas anteriores e uma nova que está a ser revelada.

Pedro então responde; “És o Messias de Deus” (Lucas 9:20). A partir deste momento, Jesus não era somente um profeta satisfazendo a expectativa profética do povo, mas ele era o Messias de Deus, o Cristo, cumprindo a Esperança Messiânica de Israel. É fácil aqui para nós, leitores modernos, interpretarmos esta passagem “a partir de cima”. Isto é, a lemos à luz dos outros livros do Novo Testamento e a partir da nossa própria teologia. Mas para entender a perspectiva dos discípulos, precisamos lê-la “a partir de baixo”, juntando pistas de dentro dos próprios Evangelhos para entender o que Pedro quis dizer.

Uma leitura compreensiva dos Evangelhos mostra que os discípulos entendiam o papel messiânico de Jesus através de uma forte conotação política. Sabemos que os discípulos buscavam prestígio no novo Reino (Marcos 10:37), e até mesmo depois da ressurreição, esperavam que Cristo restaurasse o reino à Israel (Atos 1:6). Acima de tudo, a instalação do Reino de Deus significava a derrota do Império Romano.

Esta posição era de se esperar. Pedro e outros seguidores de Jesus eram zelotes, membros um partido político que buscava expulsar a ocupação estrangeira de Israel. Jesus também havia começado seu ministério na Galileia, uma região chave para a resistência contra o Império Romano naquela época. Muitas rebeliões contra o Império haviam começado na Galileia, onde também estava localizada Cesárea, uma cidade construída pelos romanos para estabelecer o reinado de César sobre aquela região. Cesareia significava a glória de Roma na Galileia. Ao declarar a chegada de um novo Reino na região, era como se os discípulos estivessem reconquistando território perdido (Lucas 9:4).

Para alguns discípulos, Jesus parecia se encaixar no alvo ideológico dos zelotes. Assim como Herodes Antipas olhava para o passado para garantir liberdade contra ameaças e manter sua dinastia, e assim como as multidões olhavam para o presente para obter liberdade das suas necessidades imediatas, alguns discípulos olhavam para o futuro para garantir sua liberdade ideológica; e o futuro era promissor. Vemos em Lucas 9 que a esperança messiânica dos discípulos estava prestes a ser realizada. Eles haviam recebido autoridade (Lucas 9:1) e provado o sucesso do Reino (Lucas 9:6, 16), o reino estava próximo (Lucas 9:27) e agora estavam até debatendo sobre quem era o maior (Lucas 9:46).

Jesus era sim o Cristo, mas não de acordo à ideologia dos discípulos. Este conflito de interesse gera uma crise de identidade. Como seria ele o Messias se ele mesmo profetizou a sua morte? (Lucas 9:22) Eles haviam provado do poder divino que poderia beneficiar a resistência, porém não entendiam a razão pela qual o seu líder ideológico havia de se entregar para o inimigo (Lucas 9:43-45). Jesus não seria apenas uma peça na máquina sociopolítica dos zelotes. Jesus não seria apenas um camarada que se identificava com a luta ideológica dos discípulos. O Filho do Homem era também o Filho de Deus.

Jesus não seria apenas um camarada que se identificava com a luta ideológica dos discípulos. O Filho do Homem era também o Filho de Deus.

A Divindade

No último ato deste drama vemos que Lucas não nos deixa com Pedro, mas nos leva mais fundo para dentro da perspectiva divina a respeito de Jesus. Lucas então remove a última camada e nos leva para o núcleo da identidade de Cristo. Neste ponto, um personagem inesperado surge no enredo. A narrativa que começou com Herodes perguntando “Quem é este Jesus?” agora termina com o próprio Deus respondendo; “Este é o Meu Filho, o Meu Escolhido; à Ele dai toda atenção!” (Lucas 9:35)

Deus adentra tempo e espaço, abrangendo toda a realidade para afirmar a identidade de Jesus. Santo Agostinho no século 5 captura a complexidade deste intercâmbio; “Cristo Jesus, o Filho de Deus, é Deus e Homem: Deus antes de todos os mundos, homem em nosso mundo… Mas sendo o único Filho de Deus, por natureza e não pela graça, ele se tornou também o Filho do Homem para que também seja cheio de graça.” A implicação deste ato é a filiação de Cristo. Cristo é o sujeito da missão de Deus, não o objeto das ideologias terrenas. É importante ressaltar que a única vez onde lemos sobre a voz de Deus vindo do céu é no batismo de Jesus (Lucas 3:22). Ali também Deus declara; “Este é o meu Filho amado.” Esta declaração vem antes de Jesus começar o seu ministério, antes de fazer qualquer milagre; significando que a sua identidade não era baseada naquilo que havia de fazer, mas sim na sua posição eterna em glória.

Se Jesus é o sujeito da missão de Deus, o objeto é a glória do próprio Deus. O próprio Pedro defende a sua experiência como “testemunha ocular da Sua majestade” (2 Pedro 1:16-19). O ato da transfiguração de Cristo diz respeito a revelação da glória de Deus, sua “glória majestosa” (2 Pedro 1:17) revelada no santo monte. Assim como Moisés, que subiu no monte santo de Deus onde pediu para ver a sua glória para depois mediar uma aliança (Êxodo 33), Jesus recebe um maior testemunho. O próprio Cristo foi transfigurado em plena glória divina (Lucas 9:29), o Deus incarnado cujo qual Moises e Elias são servos (Lucas 9:31), o Cristo que tornou-se Mediador de uma melhor aliança (Hebreus 8:6). A identidade de Cristo é então baseada em nada além do que a própria glória de Deus. João, evangelista, apóstolo e discípulo amado, captura a essência da missão de Jesus ao dizer que; “O Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1:14).

Jesus o Filho de Deus, a exata representação da glória divina, traz liberdade das realidades temporais que buscam definir nossa identidade. Ele abrange toda a existência, para que se torne tudo em todos (Col 3:11). Jesus torna-se mediador de uma aliança baseada na graça, que molda a todos de acordo com a nova natureza baseada na imagem do Criador. Filiação nos conduz à liberdade que em torno glorifica à Deus. Pois, “o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. Mas todos nós, com cara descoberta, refletindo, como um espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (2 Cor 3:17-18).

Assim, qualquer perspectiva sobre a identidade de Jesus que não leva em consideração a glória de Deus erra o alvo. A missão do Filho esta em glorificar ao Pai através da mediação de uma aliança eterna cuja qual a glória é eterna. Cristo não é para ser moldado à nós, mas sim nós temos de ser moldados à Ele. Desta forma, o Filho, em sua divindade, tomou a nossa humanidade, para que nós, em nossa humanidade, pudéssemos tomar a sua natureza divina.

Se Jesus é o sujeito da missão de Deus, o objeto é a glória do próprio Deus.
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