Quem é o meu Próximo?

Lucas 10:25-37 registra um intercâmbio entre Jesus e um mestre da lei sobre a questão do padrão de justiça encontrado na Lei. Toda a narrativa da “Parábola do Bom Samaritano” não gira em torno da questão inicial, “O que devo fazer para herdar a vida eterna?”, mas sim na questão no versículo 29: “E quem é o meu próximo?”

Comentando a respeito de Lucas, Phillip Ryken [1 . Phillip Ryken ” Lucas : Volume 1 “], explica: “De acordo com os estudiosos, o vizinho de um israelita é qualquer membro de sua nação, mas não aquele que não é israelita. Assim, no que se diz respeito ao amor ao próximo, algumas pessoas contavam e outras não. Os israelitas cuidavam dos seus, mas não achavam que eles tinham a obrigação de cuidar de qualquer outra pessoa.” Israel na época de Jesus era um lugar complicado. Politicamente, o país estava sob o controle imperial dos romanos, que impuseram pesados impostos que demonstravam fidelidade a César. Religiosamente, o judaísmo daquele tempo estava dividido entre algumas seitas que incluíam os fariseus, saduceus, essênios, e outros partidos de fins políticos, como os herodianos e os zelotes.

No entanto, talvez a maior divisão na nação estava entre judeus e samaritanos. Estes dois grupos eram fortemente divididos em questões culturais e religiosas. Ryken acrescenta: “Nos séculos que antecederam a Cristo, os samaritanos tinham desafiado a lei de Deus casando-se com os assírios. Com o tempo eles tinham desenvolvido a sua própria versão da Torá e criaram seu próprio templo de culto.” Para os judeus, os samaritanos eram considerados pagãos – estrangeiros que não tinham parte na aliança abraâmica. Na época de Jesus, as tensões entre os dois grupos estavam em seu ponto mais alto. Ao longo dos séculos, este antagonismo foi marcado por uma série de traições e atos de vingança. Em 128 a.C., o líder judeu Hircano invadiu Samaria e incendiou o santuário samaritano no monte Gerazim. No ano 6-7 d.C., durante a infância de Jesus, os samaritanos se infiltraram na celebração da Páscoa em Jerusalém espalharam ossos no templo, contaminando-o. Assim, uma guerra de orgulho cultural irrompeu entre judeus e samaritanos.

É neste cenário de intensa rivalidade que Jesus conta a parábola do Bom Samaritano. Em Lucas 10:25, um estudioso da lei confronta Jesus sobre a questão da justiça que leva à vida eterna. Pensando que Jesus iria responder de acordo com sua interpretação de “vizinho”, o estudioso da lei quis justificar-se: “E quem é o meu próximo?” (Lc 10:29 NVI). Jesus vai direto ao ponto errado na sua teologia da justificação. A parábola diz que tanto um sacerdote quanto um levita passaram pela vítima de um assalto, que havia sido deixado para morrer na beira da estrada. O local do roubo, a estrada de Jerusalém a Jericó, é importante nesta parábola porque indica que o sacerdote e o levita haviam acabado de realizar suas funções no templo em Jerusalém. Por conseguinte, consideravam-se ritualmente puros, o que os impediam de tocar em sangue. Mesmo estando um companheiro israelita (um vizinho autêntico) quase morto na beira da estrada, eles não estavam dispostos a ajudá-lo. Aí vem um “inimigo”, um samaritano, que tem “pena dele” (Lc 10:33 NVI) e leva-o para uma hospedaria para cuidar do homem semimorto. Para os líderes religiosos que estavam ouvindo a Jesus este foi um escândalo. Jesus estava sugerindo que os samaritanos eram capazes de atos de justiça de acordo com a Lei. Além disso, Jesus estava apontando a hipocrisia de suas próprias práticas quanto à interpretação da Lei.

Através desta passagem, somos capazes de ver o ato de hospitalidade no cumprimento da missão de Deus. Amor e misericórdia assumem a forma da hospitalidade quando o “bom” samaritano leva o homem golpeado o para uma hospedaria. Há um pouco de ironia nesta declaração. Uma hospedaria/pousada faz parte do que chamamos hoje de, “indústria da hospitalidade”. Aqui vemos que um lugar que foi construído intencionalmente para a prática da hospitalidade torna-se um lugar de cura, cuidado pessoal e recuperação. Nesta passagem, Jesus estava comunicando três coisas sobre a intenção da missão de Deus através de hospitalidade.
Em primeiro lugar, amor ao próximo deve ser estendido além das nossas fronteiras. Jesus estava ensinando aos judeus que o “próximo” incluíam também aqueles que eram considerados inimigos, mesmo se a história tivesse sido marcada por hostilidade e violência. Dada a história hostil, esperava-se que o samaritano tirasse proveito de um judeu caído. Ao invés disso, ele mostra graça e misericórdia para com ele (Lc 10:33). Através desta parábola, Jesus apontou para o samaritano como um vizinho amável e comandou o estudioso da lei a “ir e fazer o mesmo” (Lc 10:37 NVI). Jesus deu a entender que um judeu deve tornar-se mais como um samaritano, que os atos de graça e misericórdia devem ter precedência sobre a identidade cultural e preconceito. Hospitalidade era para ser uma prática universal que se estende aos marginalizados, as pessoas que estão fora da nossa esfera de conforto. Não era apenas para nutrir uma comunidade de crentes que pensam igual um ao outro, mas também para oferecer uma maneira para que os marginalizados pudessem ser incluídos. Jesus contou esta parábola para derrubar as diferenças culturais e promover a reconciliação entre os dois grupos.

Em segundo lugar, uma comunidade não é definida pelas suas “atividades no templo”, mas sim pela prática da hospitalidade missionária para com os necessitados. Na parábola, os líderes religiosos que tinham acabado adorar não estavam dispostos a tratar das feridas da vítima. Para o sacerdote e levita, eles já haviam cumprido o seu papel. Detalhes em sua forma de culto significava que não podiam ir além do papel que lhes fora atribuído. O sacerdote e o levita estavam tão envolvidos em suas funções que eles ignoraram o chamado de Deus para a verdadeira adoração. “Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Oséias 6:6). A intenção de Deus para a hospitalidade institucional demonstra que as necessidades das pessoas devem prevalecer sobre deveres organizacionais ou estruturais.

Em terceiro lugar, as comunidades de adoração devem praticar um tipo de hospitalidade que incentiva a cura, o cuidado e a recuperação daqueles que foram agredidos pela circunstâncias da vida. A intenção de Deus é que a hospitalidade na igreja assuma um papel transformador na realização da missão redentora de Deus no mundo. O Bom Samaritano estava pronto e equipado para mostrar hospitalidade, e ministrar às feridas do viajante maltratado. Sua principal fonte de cuidado era azeite e vinho, os quais são representações do poder divino e de cura hoje. Além disso, quando ele disse: “quando eu voltar, vou reembolsá-lo para qualquer despesa extra que você pode ter” (Lc 10:35 NVI), o samaritano estava se referindo à um tipo de atendimento que é contínuo e progressivo. Ele sentiu-se pessoalmente responsável, e não ia abandonar o futuro da vítima nas mãos de um estranho.

Estas afirmações servem para redefinir a nossa visão e responsabilidade para com o próximo. Com o nosso mundo tornando-se intensamente mais globalizado, e fronteiras geopolíticas começando a desaparecer, será a responsabilidade de cada seguidor de Cristo definir sua visão de “vizinho” de acordo com o paradigma Samaritano. Assim como no tempo de Jesus, o mundo hoje é um lugar complicado com variedades de culturas, valores e religiões logo à nossa porta. Que o paradigma Samaritano possa servir como um lembrete ao nos perguntarmos: “Quem é o meu próximo?”

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