Salvação da Alma? Uma Reflexão sobre Ontologia e Antropologia Teológica

O que a Bíblia diz sobre a natureza dos seres humanos? Será que ela tem uma única posição sobre isso? Melhor ainda, como você interpreta o que a Bíblia tem a dizer sobre este tema? Meu trabalho interdenominacional como missionário me permite estar dentro e fora de vários círculos teológicos e tradições de fé cristã num contexto multicultural. O que talvez seja mais diversificado do que os lugares que visito é a forma como as pessoas tendem a interpretar a natureza dos seres humanos (ontologia) e como isso afeta a sua soteriologia (teologia da salvação). Muitas vezes vejo pessoas debatendo sobre perspectivas dicotomistas ou tricotomistas, e por aí vai.

No meu trabalho no Ocidente (principalmente nos Estados Unidos), a salvação é amplamente vista como um esforço individual. Muitas vezes, é internalizada, onde Deus está só disposto a salvar a alma das pessoas. Tudo começa com uma decisão pessoal que depois encarreta outras conseqüências. Isto leva a duas perspectivas polarizadas. De um lado, Deus quer salvar a alma e então o corpo não importa. Por outro lado, as pessoas desenvolvem uma visão elevada da ética e formam padrões pessoais de moralidade. No meu trabalho no Oriente (principalmente na Grécia), a salvação é uma obra coletiva. Você jamais precisa decidir pessoalmente se quer ou não seguir a Cristo, esta decisão já foi feita para você quando nasceu e foi batizado na igreja. Também não importa o que as pessoas fazem de certo ou errado, uma vez que pertencem à igreja coletiva que será salva no final. A salvação não se refere ou traz implicações para a ética pessoal. Ela é ligada à revelação de Deus no contexto da comunidade de Cristo. É menos sobre regeneração ontológica e mais sobre um processo coletivo de theosis.

A questão da ontologia humana (a natureza dos seres humanos) e seus efeitos sobre a salvação é um tema recorrente em toda a Escritura. Pode-se dizer que ela está presente do início ao fim. Desde os conceitos da imago Dei que falam sobre imagem e semelhança de Deus nos seres humanos em Gênesis, até à natureza dos corpos ressuscitados no eschaton como apresentado por Paulo em 1 Coríntios 15, a Bíblia parece colocar alto valor na natureza humana como uma entidade coesa. Mas, assim como em outros temas, as Escrituras não parecem apresentar um único conjunto de teologia sistemática da natureza humana. Pelo contrário, ela parece permitir que os seus autores usem perspectivas que partem do seu contexto sócio-cultural particular. Assim, encontramos interpretações holísticas hebraicas de salvação no AT, e até uma perspectiva tricotomista aparentemente grega quando Paulo aborda o contexto grego através de uma visão de mundo helenista/judaica no NT.

Tal como acontece com aplicações contextuais da ontologia nas Escrituras, a história mostra que as deliberações ontológicas parecem coincidir com visões filosóficas e científicas dominantes do dia. Leron Shults, professor de Teologia e Filosofia na Universidade de Adger na Noruega, fornece insights significativos de como posições filosóficas afetadam interpretações ontológicas ao longo da história. Por exemplo, ele argumenta que Agostinho adotou uma antropologia neoplatônica em que a alma foi facilmente separada do corpo, para que ele pudesse defender a ressurreição da alma e um estado intermediário após a morte. Por outro lado, Shults afirma que na Reforma, a inclinação Alexandrina de Lutero em sua cristologia o levou a enfatizar uma verdadeira união de corpo e alma em sua teologia antropológica. Da mesma forma, teologias contemporâneas da natureza humana também são informadas pelo pensamento filosófico e descobertas científicas nos dias de hoje.

Então, descobrimos que assim como o judaísmo popular influenciou a perspectiva ontológica bíblica no Antigo Testamento, Paulo também usou o pensamento helenista para comunicar a importância da pessoa humana no NT. Esta tendência se repetiu ao longo da história no pensamento de pessoas como Agostinho, Lutero, e ainda se repite hoje. Ninguém é capaz de fornecer uma ontologia humana completamente imparcial. É presunçoso pensar que sim, uma vez que a própria Bíblia não está preocupada com isso. Se você assume uma posição tricotomista, você tem que jogar o Antigo Testamento fora. Se o contrário, o NT não mais se aplica e precisa ser descartado. A questão não é encontrar uma única perspectiva bíblica, mas sim, tentar entender a mensagem que a Escritura quer comunicar sobre ao valor ontológico dos seres humanos e de toda a criação.

Este é um desafio para nós hoje. Temos visto significantes avanços científicos no estudo da origem do universo e da natureza dos seres humanos que reformularam significativamente a nossa antropologia teológica. A teoria da evolução colocou a humanidade com o resto da natureza, olhando para o desenvolvimento humano em meio a outras espécies. Por outro lado, o Darwinismo falhou em acatar uma linguagem de valor e explicar a protensidade humana à ética social, que mostra que seres humanos não operam a partir do princípio da sobrevivência dos mais fortes. Mesmo assim, desde a astrofísica até a pesquisa genética, estamos aprendendo que somos mais interdependentes do que se pensava inicialmente. Não somos apenas seres internalizados, indivíduos auto-expressivos como o Ocidente parece pensar. Nem tão pouco precisamos nos preocupar apenas com a espiritualidade, como o Oriente parece enfatizar.

Neste âmbito, a visão da Antropologia Integral pode ajudar a guiar a nossa reflexão no contexto de mudanças tão fundamentais e dinâmicas. A perspectiva integral defende que os seres humanos são unidades ontológicas capazes de se relacionar consigo mesmos e com demais outros. Além disso, ela revela que o ser humano também carece do relacionamento com o transcendente. Esse entendimento coeso leva em conta os avanços psicológicos, como a realidade de doenças psicossomáticas, que apresentam corpo e psique como igualmente importantes e mutuamente dependentes. Nesta perspectiva, a salvação é de todo o ser, trazendo tudo debaixo de um desenvolvimento dinâmico de crescimento que nos leva até a imagem de Deus encarnada em Cristo. Esta se torna a teleologia da ontologia. Contudo, este processo culminará somente no eschaton, onde alcançaremos a medida da plenitude de Cristo (Ef 4:13).

Related Posts