Três Maneiras de Ler e Interpretar a Bíblia – parte 2

Lendo e Interpretando a Bíblia Contextualmente

Como expus na primeira parte desta série, se o Antigo Testamento serviu como a base histórica na qual Jesus e os apóstolos entenderam a revelação de Deus, o Novo Testamento serviu para solidificar a nova revelação de Cristo na igreja primitiva através de uma interpretação contextual da imaginação e textos do AT . Em outras palavras, os apóstolos (especialmente Paulo), foram formados pela imaginação histórica judaica, mas interpretaram a revelação de Cristo à luz da realidade na qual eles mesmo viviam. O mundo por trás do texto foi significativo na compreensão do que Deus estava fazendo no mundo na frente do texto.

No tempo dos Apóstolos, apenas o Antigo Testamento era considerado como Escritura. O “Evangelho” era uma expressão querigmática (mensagem falada) que surgiu a partir de uma interpretação contextual das Escrituras. Essa interpretação contextual identificou a vinda de Cristo como a representação de temas missiológicos encontrados no imaginário judaico. O Evangelho, atos de Cristo, tornou-se a Palavra de Deus, que anunciava a vinda do Reino de Deus num contexto e momento histórico particular. Os Apóstolos usaram as Escrituras Hebraicas, sua história compartilhada e o contexto onde viviam como parte do ciclo hermenêutico que construiu a mensagem que ficou conhecido como o “Novo Testamento”. Esse exercício interpretativo foi em grande parte feito em comunidade quando os discípulos lembravam-se do que Jesus tinha dito e feito e testemunhavam à esta mensagem de forma oral, escrita e prática.

A Igreja tornou-se uma comunidade interpretativa das Escrituras judaicas, porém agora à luz da revelação de Cristo. De certa forma, esta era a prática do que conhecemos hoje como crítica narrativa. Considerando que a crítica histórica trata narrativas bíblicas como janelas que nos permitem aprender algo sobre tempos e lugares no passado, a crítica narrativa trata esses mesmos textos como espelhos que convidam a participação do público na criação de significado. As Escrituras são trazidas à vida como a Palavra viva de Deus (Logos tou Theu) quando interpretadas contextualmente por uma comunidade local num tempo e espaço atual. A inspiração das Escrituras age para reformar a auto-percepção e imaginação das pessoas a respeito de como eles se encaixam em história maior de Deus que visa a regeneração (re-criação) de todo o mundo.

Desta forma, a Igreja Primitiva interpretou a vida de Cristo e as Escrituras como o evangélion (boas novas) do Reino de Deus. Interpretação contextual e crítica narrativa permitem uma certa criatividade artística, a fim de contar a história de Deus e inspirar adoração da maneira que faz sentido ao receptor. O emissor precisa comunicar a nova revelação de forma que os receptores possam entender. Isso foi feito na Igreja Primitiva através do uso inteligente de recursos literários tais como alegorias, analogias e tipologias. A interpretação alegórica foi uma ferramenta hermenêutica muito usada até os tempos pré-modernos. O próprio Jesus usou parábolas como ilustrações para comunicar verdades teológicas mais profundas assim como os Apóstolos e os Pais da Igreja. Interpretação alegórica foi usada para transmitir um significado literal de maneira que fazia sentido para os ouvintes. Ela aplica as Escrituras intertextualmente com base na prioridade de um conhecimento compartilhado.

Da mesma forma, a interpretação contextual usa a história e experiência compartilhada de uma comunidade com o intuito de comunicar a revelação divina de uma nova maneira que é fiel à história maior de Deus. Em Romanos e Coríntios, Paulo também usa analogias da história de Israel para construir o sentido e significado da fé cristã. Tipologia foi outra ferramenta predominante usada pelos discípulos para a interpretação contextual. Os escritores do Novo Testamento interpretaram Jesus usando tipologias das Escrituras judaicas. É interessante destacar a variedade de “cristologias contextuais” encontrados dentro do próprio cânon bíblico. Por exemplo, em Mateus, Jesus é o Rei dos judeus. Em Marcos, ele é o Servo Sofredor. Em Lucas, ele é um amigo de todos, e em João, Jesus é o preexistente Verbo da Vida. Adicionalmente, em Paulo, Jesus é o segundo Adão e o protótipo da nova criação. Todas essas tipologias complementam uma à outra e nos dão um sentido mais completo sobre a revelação de Cristo.

A outra faceta da interpretação contextual é ler as Escrituras à luz dos nossos contextos locais atuais. Os últimos 100 anos tem proporcionado uma mudança dinâmica na centralidade do cristianismo. O cristianismo se afastou do hemisfério norte pela primeira vez em mais de mil anos e agora encontra-se predominantemente no mundo emergente conhecido como o “Sul Global”. O “cristão” de hoje é um indivíduo não-ocidental, não-branco, provavelmente do sexo feminino e de um país emergente (do “terceiro mundo”). Consequentemente, o processo de interpretação da Escritura tornou-se também muito diversificado. Esta tendência é evidenciada pela variedade de teologias contextuais que podem ser encontradas hoje. Algumas abordagens interpretativas que estão presentes nesse espectro são a Teologia da Libertação, teologia negra, feminista e teologias pós-coloniais. Cada uma dessas teologias pretende representar a sua realidade contextual através de um discurso que prioriza a comunicação e a identificação do receptor com a mensagem bíblica, o Evangelho. A prática de interpretação contextual traz a mensagem bíblica dos segmentos “sagrados” aos “profanos”, permitindo que ela ilumine as nossas práticas sociológicas e presunções na busca de discernir a nossa realidade e promover a justiça do Reino de Deus.

A Interpretação Contextual é vista como o processo de fazer teologia a partir de baixo, ou do mundo à frente do texto. Um risco de fazer teologia a partir de baixo é a grande tendência de um indivíduo ou comunidade de inferir diferentes filosofias ou éticas locais no processo de interpretação da Bíblia. Estas inferências são muitas vezes expressas na forma de conceitos absolutos que refletem o idealismo do tempo presente. A Bíblia então torna-se uma ferramenta para capacitar ou justificar uma certa prática, ao invés de inspirar um conjunto de novos ideais. Devido a isso, a interpretação bíblica a partir de baixo tende a concentrar-se em aspectos humanísticos da revelação divina. Cristo torna-se o líder do movimento galileu que leva seu bando de militantes a implementar novas políticas sociais, confrontando sistemas religiosos opressivos do judeus e até o Império Romano. Cristo não é mais a encarnação de Deus, que chama as pessoas ao arrependimento para que eles possam pensar de forma diferente (metanoia) e dar continuidade à missão de Deus de reconciliação, que começou com a queda da humanidade. Por isso, as interpretações contextuais correm o risco de negligenciar a história salvífica atemporal, a fim de implementar os ideais éticos de justiça populares hoje.

O Novo Testamento depende deste paradigma de interpretação contextual. Nele, vemos a Igreja como uma comunidade interpretativa que interpreta a sua própria história no contexto da história de Deus, para assim formar uma história compartilhada de esperança salvífica no futuro. Todo processo de interpretação deve começar a partir de sua realidade existencial. É impossível presumir uma completa neutralidade ou objetividade, como propôs a escola da histórica-crítica. No entanto, a interpretação é uma prática teocêntrica onde a Igreja cumpre a sua missão sob o poder e a agência de Deus no mundo. A Bíblia molda a comunidade a fim de que ela possa comunicar o Evangelho do Reino de Deus contextualmente, porém também fielmente, no seu mundo atual. Ao fazer isso, a Igreja torna-se a concretização de uma nova comunidade onde a humanidade é reconciliada consigo mesma e com a criação através da constante mediação de Cristo.

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