Três Maneiras de Ler e Interpretar a Bíblia – parte 3

Interpretando a Bíblia Canonicamente

A terceira maneira importante de ler e interpretar a Bíblia é fazê-la canonicamente. Se a interpretação histórica se concentra no mundo por trás do texto e interpretação contextual incide sobre o mundo à sua frente, a interpretação canônica se preocupa com o texto em si. A interpretação canônica olha para como os versos da Bíblia trabalham juntas como um cânon (regra/medida) de fé. Por exemplo, uma leitura histórica dos Evangelhos incide sobre o contexto histórico que informou a mensagem que o autor estava tentando transmitir. Da mesma forma, uma leitura contextual implica em identificar os aspectos do ministério de Cristo que o autor ou comunidade interpretativa achou necessário destacar. Uma leitura canônica, no entanto, identifica as diferenças, mas também está preocupada com a forma de como os quatro Evangelhos trabalham juntos para dar uma imagem completa de Jesus Cristo e da sua missão ao leitor. A interpretação canônica trabalha para formar a compreensão do leitor a respeito de Deus, adoração e o testemunho da Igreja.

Interpretação canônica centra-se na função religiosa do cânon bíblico e como a Bíblia estabelece o que é verdade sobre um determinado assunto. À medida que os escritos apostólicos e cartas começaram a circular entre as igrejas primitivas, eles formaram um corpo comum, ou conjunto de doutrinas e fé que foram reconhecidas pela comunidade por ser ortodoxo. A Igreja Primitiva, como uma comunidade interpretativa, geralmente descartava escritos que variavam consideravelmente deste núcleo comum. Na época da morte dos apóstolos e das primeiras testemunhas de Cristo, uma medida, ou regra de fé (canon), já tinha sido compilada e mantida como o verdadeiro testemunho do que a Igreja acreditava a respeito de Deus e de si mesma como uma comunidade de adoradores. Esses escritos foram reconhecidos como sendo canônicos pela Igreja pela sua capacidade de comunicar a mesma verdade para diferentes leitores em diferentes contextos. A elevação de um escrito bíblico ao status de canônico requeria uma capacidade intrínseca de ser reinterpretado várias vezes de forma que edificava a fé de diferentes intérpretes em diferentes situações. Interpretação canônica então analisa a forma de como a Bíblia, como uma coleção de livros, molda o conhecimento da Igreja como sendo uma comunidade de fé e adoração.

Este aspecto canônico é claramente evidenciado na primeira carta de Paulo aos Coríntios. Paulo não só enviou a carta àquela igreja específica, mas também à todos que um dia iriam lê-la (1 Co 1:2). A natureza instrucional dos escritos do Novo Testamento revela um processo exegético das Escrituras judaicas (Antigo Testamento) que aponta para o sentido do que o autor queria comunicar. Por sua vez, a reflexão teológica que forjou as primeiras confissões da fé da Igreja foi um processo hermenêutico de interpretar o que Deus estava fazendo de trás para frente. Por exemplo, na Carta aos Romanos, Paulo faz uma ampla exegese do Antigo Testamento numa tentativa de comunicar o que ele tinha a dizer para a igreja daquele tempo e de hoje. Ele redefine a grande narrativa de Israel à luz de Cristo, usando interpretação intertextual de uma forma que a carta aos Romanos se encaixa no cânon das Escrituras judaicas. Através de interpretação canônica, o intérprete dá continuidade e reconhece que o Novo Testamento precisa do Antigo e vice-versa.

O processo de construção de significados através da interpretação canônica é dinâmico e contínuo. Como mencionado, o próprio cânon foi compilado por sua capacidade de ser interpretado várias vezes por pessoas diferentes em tempos diferentes. Hoje em dia, no contexto moderno individualista, essa abordagem correria o risco de ser um promotor de uma anarquia hermenêutica através de novas interpretações e suposições infundadas. No entanto, a interpretação canônica reforça a importância da teologia bíblica no âmbito de outros métodos de interpretação. A riqueza do método canônico reside na correlação horizontal entre os dois Testamentos que podem guiar a igreja na vivência da sua fé. Hoje, essas correlações estão reunidos em conjuntos que podem ser encontrados em algumas tradições interpretativas entre as diferentes denominações do cristianismo. Recursos como o Lecionário Comum e vários catecismos fornecem crentes e líderes com uma forma de entender a história textual da Bíblia, ao mesmo tempo fazendo sentido da liturgia da Igreja como comunidade de adoração. Interpretação canônica funciona como base de funções religiosas. O Espírito de Deus está ativo nesse processo ajudando a igreja fazer sentido das Escrituras e da sua existência.

Esta série de posts concentraram-se em “Três maneiras de ler e interpretar a Bíblia”. Práticas interpretativas são em grande parte sobre o primeiro aprender a ler a Bíblia, a fim de que o intérprete possa lê-la para aprender. Uma vantagem dos métodos de interpretação é que nenhum deles é completo em si. Tal como acontece com as três abordagens referidas neste artigo, o intérprete é sempre incentivado a olhar para a Bíblia através de ângulos novos e diferentes. Além disso, métodos interpretativos servem para complementar um ao outro. Este exercício forma um ciclo complementativo que culmina em um significado mais amplo do texto. Interpretação bíblica é uma prática formativa. Isso faz com que o leitor se mova dos pressupostos tradicionais pré-críticos, passando pelas demissões críticas da modernidade para chegar à aplicações pós-críticas que em última análise moldam a imaginação. A prática da interpretação bíblica é uma jornada que leva o intérprete a partir das conclusões individuais da interpretação histórica, para a aplicação comunitária de teologias contextuais, levando à uma identificação universal com a Igreja de Cristo na Terra, afirmando interpretação canônica da Igreja da Bíblia. No final, Deus é, e deve continuar a ser a parte central da interpretação bíblica.

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