Três Maneiras de Ler e Interpretar a Bíblia – parte 1

Lendo e Interpretando a Bíblia Historicamente

O último século tem proporcionado significantes mudanças de paradigmas no campo da interpretação bíblica e produção teológica. A primeira mudança ocorreu no mundo ocidental com a desilusão da modernidade que exaltava a evidência histórica como a única base da verdade bíblica. A segunda mudança ocorreu mais recentemente através da globalização do Cristianismo e da proliferação de teologias contextuais, que de certa forma, serviram para enriquecer a Igreja e a prática de interpretação das Escrituras. No entanto, o cristianismo global enfrenta um novo conjunto de desafios baseados nessas quebras de paradigmas. O primeiro desafio é o potencial de uma a anarquia hermenêutica sob a fachada do pluralismo pós-moderno. Já que a escola histórica-crítica falhou, agora todo que é tipo de interpretação bíblica é importante, válida e permitida. O segundo desafio são os perigos do sincretismo que podem surgir quando teologias contextuais são forjadas para comunicar apenas com uma única cultura ou sociedade específica. Esse desafio geralmente cria uma manipulação da mensagem bíblica a partir do contexto sócio-político. É no âmbito das recentes mudanças de paradigmas e novos desafios que reflito sobre as três formas importantes de ler e interpretar as Escrituras no contexto global atual.

A primeira maneira importante para a leitura das Escrituras é interpretá-la historicamente. Antes de ir adiante, devo salientar o que quero dizer aqui com “historicamente”. Não estou me referindo à abordagem racionalista e objetiva da escola histórica-crítica, a qual emergiu da modernidade e se concentrou principalmente em desmitificar a Bíblia tentando “desencarná-la” da sua mensagem e significado. Pelo contrário, o que eu quero dizer com interpretação histórica é a abordagem que baseia a interpretação das Escrituras na premissa de que a Bíblia é uma testemunha histórica da história que ela mesma conta. A Bíblia conta a história de Deus e do mundo através de um enredo que é composto de diferentes atos. Esses atos incluem a Criação, o Êxodo, a formação de Israel, Jesus e a Igreja. A história de Deus com o Seu povo de está contida dentro destes atos diferentes. Deus se move e age através da história bíblica, oferecendo camadas de informação sobre quem é Deus, o que Deus fez, e o qual é a sua intenção para o mundo hoje. Contudo, o que me refiro à interpretação histórica pode ser também uma interpretação narrativa, e vice-versa.

Interpretar a Bíblia historicamente é importante para obter um quadro completo da história de Deus com a humanidade. A Igreja de hoje faz parte desta história que começou na criação do mundo. É esta meta-narrativa e as histórias dentro dela que moldam a imaginação de um povo. Ela forma uma estrutura teológica e epistemológica através das quais o escritor é capaz de comunicar a revelação de Deus de uma maneira que faz sentido para seus ouvintes alvo assim como para nós hoje. Vemos isso na própria Bíblia com os escritores do Novo Testamento, que foram moldados pela história, tradição e práticas judaicas predominantes nos seus dias. A história do Antigo Testamento providenciou um pano de fundo para a construção de uma nova imaginação e interpretação do que Deus estava fazendo através da revelação de Cristo. Esta nova revelação não surgiu ex-nihilo (do nada). Ela foi entendida e interpretada à luz da Torá e os Profetas que marcavam e contavam a história de Israel. Ouve-se então continuidade sobre aquilo que Deus sempre fez na história redimindo o seu povo e o que Deus estava fazendo agora em Cristo. Os temas comuns na missão de Cristo, como a libertação e shalom com a vinda do Reino, teriam sido mal interpretados se não fosse o imaginário coletivo formado por uma história comum e a expectativa messiânica que era predominante no contexto de opressão imperial nos dias da igreja primitiva. Deus então entra na história através de Cristo para revelar sua divindade e missão redentora de uma forma que o seu povo possa entender.

Interpretar historicamente é olhar para a Bíblia e tentar entender o que está acontecendo no mundo por detrás do texto. Este exercício reúne informações sobre os personagens, o que eles comunicam sobre o seu mundo e o que eles pretendiam comunicar ao escrever o seu relato. A abordagem histórica é principalmente importante para a leitura e interpretação dos livros proféticos e das cartas de Paulo. Neste exercício, o leitor pode fazer perguntas a partir do texto, tais como; Em qual tempo na história de Israel este relato acontece? O que era particularmente importante sobre esse tempo? Qual era o contexto cultural neste tempo? E, como pode a geografia, a economia e a realidade política-social me informar sobre o que a Bíblia está comunicando a respeito de Deus e da sua missão? A interpretação histórica oferece ao leitor informações sobre outro tempo e lugar. Quando o intérprete encontra respostas para algumas dessas perguntas, ele/ela pode começar a experimentar formas de aplicar a mensagem bíblica no mundo na frente do texto, o atual.

A outra faceta de interpretação histórica é olhar para a razão pela qual o texto foi produzido e que isso significava para as pessoas que o estavam lendo. Esta abordagem histórica explora a semântica do texto na presunção de que a autoria é conhecida. Embora este método possa encontrar falhas em datar precisamente um texto, o significado ainda pode ser extraído na interpretação dentro daquilo que já é conhecimento sobre história geral de Israel e da Igreja. Por exemplo, ao interpretar historicamente narrativas como o Evangelho de Mateus, pode-se perguntar o que o Evangelho poderia ter significado para a igreja de Antioquia que o estava lendo, se o leitor presumir que Antioquia era realmente o público-alvo de Mateus. A mensagem de Mateus e o que ele relata sobre Jesus então passa a fazer sentido a partir da comunidade que a interpretou. No entanto, também se poderia interpretar o Evangelho de Mateus refletindo sobre o que o texto poderia ter significado para a Igreja geral no mundo mediterrâneo em 100 d.C., uma vez que sabemos que os primeiros textos bíblicos circulavam entre diferentes igrejas da época. Algumas das questões norteadoras deste exercício podem ser; quem foi o autor? O que o texto diz sobre ele/ela? E, o que sabemos sobre o público-alvo? Perguntas deste tipo definem o significado histórico do texto bíblico. Quando essas perguntas são aplicadas, somos formados pela mesma imaginação missiológica que formou o consciente coletivo da igreja primitiva. Da mesma forma, começamos a interpretar a nossa própria história hoje como uma continuação de um discurso maior da qual a Bíblia nos informa. Nossa história passa a fazer parte da história bíblica, a qual começa na criação do mundo, passa por Israel, Jesus e chega a nós que somos a Igreja mesmo nos dias de hoje.

A interpretação histórica tem sido o método preferido da academia racionalista desde o advento da modernidade. No entanto, a busca pela historicidade bíblica da escola histórica-crítica produziu nada mais do que fracassos e desilusão com a Bíblia. Esta desilusão criou a proliferação de ferramentas hermenêuticas e generalizações descontextualizadas que ignoram a importância da continuidade da mensagem como uma história a ser contata. Estas abordagens têm-se tornado as práticas institucionalizadas de um quadro pluralista pós-moderno, cujo objetivo tem sido o de fugir da identidade histórica e criar uma nova hermenêutica. O problema da abordagem pós-moderna está na comunicação da verdade e na autoridade da Bíblia, uma vez que a verdade não está mais ligada à história que a Bíblia conta e sim ao que o leitor deseja extrair dela. A Bíblia é moldada na imaginação atual, ao invés da imaginação ser moldada pela história bíblica.

A autoridade Bíblica está na história redentora que ela conta. Nunca se pode desligar a mensagem de seu tempo e espaço original. A interpretação histórica reconhece que a mensagem é eterna e atemporal. A mensagem que Bíblia comunicava à Igreja do primeiro século é a mesma que ela deseja comunicar hoje. A interpretação histórica fornece continuidade entre a Igreja primitiva e a contemporânea como uma mesma entidade e comunidade interpretativa, independentemente do momento da história. A interpretação histórica pode servir como uma chamada para renunciar interpretações manipuladoras de todos os tipos, ao mesmo tempo estando ciente das tendências da banalização do racionalismo moderno e do pluralismo pós-moderno. Esta abordagem torna-se significativa quando usada para transportar o leitor para o mundo por trás do texto. Ao fazer assim, o leitor contemporâneo é moldado pela imaginação bíblica, enquanto procura interpretar e aplicar as Escrituras no mundo na frente do texto, que é o seu próprio.

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