Uma Leitura Missional de Marcos 7:1-23

Uma Leitura Missional de Marcos 7:1-23

O Evangelho segundo Marcos distingue-se dos outros três Evangelhos por causa de sua estrutura objetiva e resumida. Estas pistas literárias sugerem que Marcos foi o primeiro relato do Evangelho a ser composto, servindo como um esboço básico para os outros dois documentos sinópticos de Mateus e Lucas. O caráter objetivo da escrita de Marcos serve para apontar para o núcleo ontológico e teleológico das “boas novas sobre Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1:1). Marcos parece ter a intenção de resumir como deve ter sido caminhar com Jesus, embora ele mesmo não tenha feito parte dos doze. Ele faz isso particularmente enfocando nos confrontos de poder de Jesus como o Filho de Deus. Marcos cumpre isso descrevendo os elementos miraculosos da missão de Jesus, o poder libertador da sua mensagem e as dinâmicas de poder entre o movimento de Jesus e as estruturas de poder de seu tempo, vis-à-vis o Império Romano e os líderes judaicos. Assim, em Marcos, o título “Filho de Deus” tem uma certa ressonância sócio-política. Ele não só se refere ao Filho de Deus, como participante da natureza divina. Mais que isso, o termo “Filho de Deus” se refere a Jesus como o Messias, o novo senhor e governante de Israel.

É dentro deste contexto mais amplo que encontramos o encontro entre Jesus e os fariseus em Marcos 7: 1-23. Esta passagem específica é preludida pelos acontecimentos no capítulo 6, onde Marcos parece ter a intenção de relatar que o ministério de Jesus era desenvolvido em meio à muitas lutas. A mensagem de Jesus era como a dos profetas antigos. A medida que Jesus começou a pregar a vinda do Reino de Deus, ele o fez por atos de poder que procuravam desmantelar estruturas de injustiça em Israel, para finalmente, reestruturar a sociedade judaica. Os eventos no capítulo seis apresentam uma crise no movimento de Jesus. Sua autoridade é questionada em sua cidade natal por seus parentes, e ficamos sabendo que João Batista, o seu precursor nesta missão profética, foi decapitado em uma exibição de poder político por parte dos romanos.

No entanto, é no capítulo seis que encontramos o ministério de Jesus se tornando ainda mais público do que antes. Mesmo em meio à perseguição imanente de ambos os romanos e os judeus, pela primeira vez Jesus envia os doze apóstolos para proliferar a mensagem do Reino. Marcos esclarece que o movimento de Jesus foi ganhando popularidade à medida que os doze discípulos começaram a ter sucesso em sua própria missão (6:13). O nome de Jesus foi se tornando conhecido e sua popularidade atingiu o palácio real dos romanos (6:14) e o Sinédrio dos judeus (7: 1). A missão de Jesus estava começando a atrapalhar as estruturas consolidadas de poder. O capítulo seis representa uma mudança no movimento de Jesus. Nele, os discípulos começam a assumir papéis ativos na missão. Isto marca o importante fato de que, a missão de Jesus de instaurar o Reino de Deus iria exigir a participação ativa de seus seguidores.

No capítulo seis, vemos essa mudança acontecendo de duas maneiras. Primeiro, eles foram enviados dois a dois, para anunciar o evangélion do Reino de Deus, assim como Jesus fez (6: 8). Os seguidores eram agora apostolos, aqueles que são enviados para declarar a Boa Nova. A proclamação do evangélion era uma prática romana destinada a enfatizar o domínio do César e os benefícios que isto trazia através da Pax Romana. Os apóstolos no entanto estavam declarando um outro reinado, o de Jesus o Messias. Os seguidores se tornaram os enviados. Ao enviá-los, Marcos destaca o caráter centrífugo da missão de Deus. Esta era para ser uma missão de envio, para que eles participassem da atividade kerigmática pela qual o próprio Reino de Deus era estabelecido. Os apóstolos eram embaixadores de um outro império, propondo um outro caminho ao shalom de Deus. Jesus então envia como ele mesmo foi enviado. Não demorou muito para que os discípulos experimentassem sucesso como apostolos tou evangélion. Eles então voltam notificando à Jesus as maneiras pelas quais o Reino de Deus tinha sido estabelecido.

Em segundo lugar, os apóstolos tornaram-se pastores de Israel através da alimentação dos cinco mil (6: 30-44). O trabalho de um pastor era um dos trabalhos mais humildes de Israel. Neste ofício não havia nenhum glamour, e geralmente era feito pelas pessoas mais humildes da sociedade. Alimentando os cinco mil eles tornam-se servos do povo (06:39), movidos de compaixão, reunindo-os como ovelhas, a fim de nutrir suas necessidades. Os pregadores de sucesso, e poderosos embaixadores do Reino que antes foram enviados, eram agora pastores e servos do povo por meio da compaixão e serviço. Aqui, Marcos destaca o caráter centrípeto da missão de Deus. A missão de ir se tornou numa missão de acolhimento. Uma missão de trazer as pessoas para o rebanho do Reino de Deus, sob a liderança e proteção do Bom Pastor, Jesus. Com isto em mente, o capítulo seis destaca-se como o lugar onde Jesus define a missão dos discípulos. Eles eram para ser poderosos embaixadores do novo Reino, mas também eram para ser servos e pastores de todos. Como as forças centrípetas e centrífugas, eles eram para vir e para ir no poder do Espírito Santo.

Os discípulos haviam seguido a Jesus na esperança de que ele era o cumprimento de uma expectativa profética. Marcos 6 afirma que a esperança havia sido cumprida, confirmando que os discípulos estavam agora fazendo as mesmas obras que Jesus fizera. Acima de tudo, em Marcos 6, Jesus torna seus seguidores em apóstolos (aqueles que são enviados). Ele os enviam para emular sua própria missão messiânica, a qual tinha como objetivo trazer a liberdade ontológica que permitiria Israel cumprir a sua missão no contexto da ocupação romana e na revelação de vinda do reino de Deus encarnado em Cristo.

Nosso texto em Marcos 7: 1-23 destaca as lutas dos líderes judaicos a respeito do que Jesus e seus discípulos estavam ensinando e fazendo. Os “fariseus e alguns mestres da lei de Jerusalém” (7:1) que vieram ver o que Jesus estava fazendo eram mais provavelmente emissários do Sinédrio, que se encontrava em Jerusalém. No tempo de Jesus, o Sinédrio servia como a mais alta corte judaica. Seus líderes eram judeus zelosos que tentavam conduzir e liderar Israel agindo como tribunal e órgão legislativo durante o domínio romano. Eles eram os líderes e pastores do povo, que instruíram como Israel tinha de viver à luz de sua tradição baseada na Torá. As tradições dos anciãos se tornaram em costumes que abrangiam religião, política, economia e cultura. Este esquema de tradições era para formar o imaginário coletivo judaico, o qual definia o que era ser um verdadeiro judeu. No centro do sistema de crença farisaica estava o entendimento de que o exílio de Israel sob a ocupação romana havia sido causado pela sua desobediência à Deus. A restauração de Israel, simbolizada pela derrota definitiva dos seus opressores romanos, era para ser o resultado da obediência inabalável de Israel e devoção à Deus através de muitos costumes que foram inspirados pela Torá.

Em consonância com o caráter de sua escrita, Marcos 7 não se coíbe de registrar o choque de poder entre Jesus e os representantes do Sinédrio. Jesus estava se tornando uma ameaça para a agenda do Sinédrio e um perturbador da ordem. O membros do Sinédrio eram os pastores de Israel, e o movimento de Jesus estava desviando-se das tradições judaicas, que destinavam-se a unir Israel através de um imaginário coletivo e um conjunto bem definido de práticas e costumes. Uma dessas práticas era a lavagem cerimonial antes de cada refeição, que se tornou o ponto de discórdia entre os fariseus como os discípulos comiam sem ter lavado as mãos (7: 2). O que se seguiu foi uma repreensão severa por Jesus. Jesus baseia-se em Isaías 29:13 e observa um julgamento profético de Isaías contra Jerusalém enquanto ele adverte os emissários do Sinédrio (7: 6-8). Jesus destaca a hipocrisia do sistema de costumes farisaicos que tinham como fim apoiar a causa da elite e excluir todos que não eram considerados como verdadeiros judeus (7: 10-13). Jesus ressalta que o plano farisaico negava até as Escrituras (7:13). A agenda do Sinédrio não era nem de acolher os necessitados, nem tão pouco de enviar seus mensageiros para cumprir a missão de Deus. Pelo contrário, os costumes judaicos estavam dividindo a sociedade judaica em suas próprias emendas. A obsessão farisaica com a tradição de Israel estava rasgando a comunidade de Israel começando pela celula mater da sociedade, a família judaica (7:10-12). A busca farisaica por definir a identidade judaica com base na pureza estava na verdade contaminando o resto da sociedade como um mal, assim como faz o fermento (8:15).

Considerando que Jesus usa um enigma a ensinar a multidão sobre o que realmente contamina a pessoa humana (7:15), ele aborda a “apatia” (7:18) dos seus discípulos diretamente da mesma maneira que fez com os fariseus. No cerne do discurso de Jesus encontra-se a questão da pureza. Seria tentador olhar para esta narrativa através de uma lente dicotômica moderna e assumir que Jesus se aqui preocupa mais com o coração, em detrimento do corpo físico. Como se Jesus priorizasse as coisas espirituais, e os fariseus priorizassem as naturais. Ao mesmo tempo, seria enganoso supor que Jesus está tentando derrubar a importância da tradição e do imaginário coletivo, priorizando só a “Palavra de Deus”. Como se Jesus estivesse falando de uma visão individualista e pessoal da religião, onde uma pessoa pode ser totalmente completa sem as práticas que formam uma comunidade. Em vez disso, Jesus faz o oposto. Ele parece sintetizar o coração e corpo, o individual e o coletivo, destacando a propensão individual para o mal e suas conseqüências em relação ao coletivo. O mal que sai do coração tem consequências para com toda a comunidade (7:20-23). Realmente, parece claro que, enquanto ninguém desobedece isoladamente, também não há desobediência coletiva sem a colaboração individual.

No final, Marcos 7: 1-23 representa uma reorganização da sociedade e uma remodelagem da imaginação que molda o Reino de Deus. Na minha opinião, esta passagem é para ser lida e interpretada dentro do contexto mais amplo da missão centrífuga e centrípeta de Deus. Neste exercício, o movimento de Jesus acolhe o povo de Deus através de uma nova imaginação a respeito do que significa realmente significa ser o povo santo de Deus. Enquanto a mesa farisaica não tinha espaço para aqueles que não eram puros, mesa de comunhão de Jesus incluía a todos. Enquanto o paradigma farisaico sustentava que a santidade através da observância das tradições por fim iria produzir a unidade e redenção de Israel, o modelo Jesus pregava que a unidade através do serviço mútuo, e a inclusividade de todos pela graça de Deus por fim iriam produzir uma comunidade santa, liberta e redimida.

Nos versos que preludem a narrativa em Marcos 7: 1-23, encontramos Jesus e seus discípulos prestes a atravessar o Mar da Galiléia a caminho de Betsaida. Jesus envia-los à frente dele como seus apostolos enquanto ele fica para trás para orar. Enquanto os discípulos lutavam contra o vento no mar (6:48), Jesus estava longe de ser visto. Quando eles já estava cansados, e assim como a noite é mais escura antes do amanhecer, Jesus aparece antes da primeira luz da manhã andando sobre as águas, como alguém que está acima do caos (6: 48b). Na medida que um novo dia nasce, eles chegam a um novo destino. Eles vêm para Genesaré, em vez de Betsaida, e ali começam trazer uma nova realidade para aquele lugar. A correspondência alegórica entre esta perícope com a história da criação não é para ser ignorada. Assim como na criação, aqui Jesus está fazendo uma coisa nova. As caóticas águas do caos da realidade é posta em ordem, e Jesus conduz os discípulos para um novo lugar para trazer a ordem divina à toda criação. No Evangelho de Marcos, Jesus recria a comunidade de Israel. Os conflitos do Reino de Deus contra as forças deste mundo servem para estabelecer uma realidade onde a famintos são alimentados, os doentes são curados e os impuros são incluídos como parte da santa e redimida comunidade de Deus.

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