Unidade & Diversidade na Igreja Global

Diversidade e cristianismo andam juntos. O o movimento lançado por Cristo nasceu na junção de três continentes cercado por dois impérios. Até o final do primeiro século, o Evangelho já havia chegado à Índia através de importantes rotas comerciais e mercantis do mundo antigo. Junto com a sua fé , os cristãos primitivos levaram suas culturas, línguas e costumes. Desde o seu início, o cristianismo foi um movimento policêntrico, polifônico e multiétnico. Assim, a Igreja Cristã não se tornou o produto de uma única etnia, mas uma expressão multicultural da fé cristológica que foi demonstrada pela primeira vez no dia de Pentecostes em Atos 2.

Hoje, o cristianismo continua a ser um fenômeno global, fazendo da Igreja uma comunidade global em busca de unidade. Muito tem sido feito para unir a igreja mundial em testemunho e serviço através de movimentos ecumênicos ao longo do século passado. Por exemplo, o Conselho Mundial de Igrejas, o qual alega reunir 345 igrejas de mais de 110 países, tem se esforçado para ser uma “comunhão de igrejas que confessam o Senhor Jesus Cristo como Deus e Salvador, segundo as Escrituras, e portanto, buscam cumprir juntos sua vocação comum para a glória do Deus único, Pai, Filho e Espírito Santo.” Ao usar declarações de fé, como a unicidade de Cristo e a adoração do Deus Triúno, o movimento ecumênico é capaz de promover a união da igreja global. No entanto, o Corpo de Cristo é também um movimento polifônico e multiétnico. Portanto, juntamente com confissões de fé comuns, há também a necessidade de preservar a diversidade global e identidade local.

Críticos sociais e estudiosos afirmam que o mais recente processo de globalização tecnológica e econômica tem contribuído para “achatar” o mundo. O sociólogo George Ritzer, afirma que um dos efeitos da globalização tem sido um processo que ele rotula como “McDonaldização” da sociedade e da cultura. A idéia por trás McDonaldização é um processo onde os princípios da indústria de fast-food, tais como a eficiência, uniformidade e previsibilidade são aplicados a outros setores da sociedade. O produto final é um sistema de homogeneização e desumanização que visam unicamente a melhoria da produção e eficiência. Ritzer, em seu livro “The McDonaldization of Society” explica que, “A disseminação da filosofia do fast-food americano faz com que haja cada vez menos diversidade de um contexto para outro. Neste processo, o desejo humano para novas e diversas experiências é limitado, se não ao todo extinto. Este desejo por diversidade é suplantado pelo desejo da uniformidade e previsibilidade.”

A mesma filosofia por trás McDonaldização está sendo aplicada no campo da eclesiologia. Líderes da Igreja atual tem cada vez mais se apaixonado pelos modelos eclesiásticos que são mais eficientes na produção de resultados. Como resultado, temos visto o modelo do “entretenimento” e “seeker-sensitive” da América do Norte sendo exportado para o resto do mundo. Em contraposição, temos visto também o modelo de “células” da América do Sul sendo aplicado à diferentes contextos e mercados religiosos. Com isso, a igreja global já adotou uma abordagem orientada por modelos eficazes, como dita a filosofia por trás da mcdonaldização. Nós muitas vezes tendemos a julgar missionários do século por não haverem contextualizado o evangelho. Porém hoje, vemos que louvor indie-rock é tocado em igrejas da Califórnia e Nigéria, levados pelos ventos da eclesiologia mcdonaldizada. Na prática, o macdonaldização da eclesiologia já começou a acontecer em escala global.

Na busca pela unidade, a Igreja deve resistir às tentações de formar sistemas teológicos homogêneos e previsíveis. Ela deve esforçar-se em permitir espaço onde a multiculturalidade e diversidade é comemorado através da contextualização da adoração e teologia. O processo de construção de um espaço comum começa por primeiro desmontar os sistemas macdonaldizados já presentes em nossa eclesiologia e teologia. Ao desmontar teologias homogênicas, entramos em um processo de transocidentalização (movendo além  dos modelos ocidentais) em direção a uma realidade global pós-colonial. Transocidentalização leva a um aprofundamento e ampliação do processo da adoração e teologia. Oscar Garcia -Johnson, um professor de Teologia Pós-Colonial no Fuller Theological Seminary, explica que “o aspecto aprofundamento busca a auto-interpretação e auto-representação, operando uma epistemologia que é desvinculada das tipologias ocidentais, as quais ofuscam discursos locais. O aspecto da ampliação procura então construir o diálogo intercultural e interlocal.”

A desvinculação epistêmica das tipologias ocidentais referida por Garcia-Johnson desencadeia um processo de descolonização da teologia, dando espaço para a criação de teologias contextuais que podem melhor representar um discurso local. A descolonização cria uma realidade pós-colonial (não mcdonaldizada), onde as escolas de pensamento outrora consideradas “subalternas” podem se reunir e produzir uma teologia global através do diálogo intercultural e interlocal. Neste ambiente comum, a teologia e eclesiologia ocidental (American/Européia) torna-se apenas mais um tipo de igreja/teologia contextual, e não “o” modelo, ou “a” norma. Um modelo a mais, visto em igual patamar com as outras teologias contextuais do mundo. Através desta abordagem, a uniformidade de Babel (macdonalização) é transformada em diversidade (Pentecostes), conservando a identidade policêntrica, polifônica e multiétnica da igreja de Cristo.

O primeiro grande desafio para os apóstolos em Atos não foi tanto a perseguição de Roma, isso era esperado. O maior desafio estava em como conciliar a conversão e o batismo do Espírito Santo entre os gentios. Vemos estas deliberações acontecendo em Atos 15, no Conselho de Jerusalém. Com o tempo, a tradição paulina desenvolveu um entendimento dinâmico da expiação que incluía a reconciliação de judeus e gentios através do sangue de Cristo. Cristo promove a paz não só entre Deus e a humanidade, mas entre a humanidade consigo mesma, este é o centro da mensagem de Efésios. Cristo ou Paulo não chamam os convertidos ao Evangelho à adotarem uma única expressão cultural. Mas chamam a promoverem uma nova metacultura onde Cristo é o centro, promovendo a unidade e diversidade da Sua Igreja global.

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