Visão Global para Justiça Social

Meus últimos posts exploraram os elementos que eu julgo importantes para a Igreja Global no contexto da globalização e descentralização do Cristianismo atual. Neste post, gostaria de defender que juntamente com as afirmações básicas da fé e a diversidade do Corpo de Cristo, a Igreja Global deve preocupar-se também com a justiça social em nível mundial.

O século 21 apresenta grandes desafios para a missão da igreja no mundo. Os recentes processos de globalização econômica, tecnológica e cultural têm operado para achatar o mundo, criando culturas e sociedades hegemônicas. Assim como culturas hegemônicas hoje, injustiças sociais, tal como a pobreza e o tráfico humano, também têm sido globalizadas. O que argumento neste post é que injustiças sociais globais requerem ações globais. Assim sendo, a Igreja Cristã no mundo todo não deve apenas unir-se numa única fé, mas também numa missão comum.

Uma recente publicação chamada Deviant Globalization (Globalização Depravada) pinta o lado negativo da globalização na tela do otimismo econômico do capitalismo global. Esta revela como certos crimes tem expandido seu mercado por conta da globalização. Crimes como invasões de privacidade, fraudes financeiras e tráfico de drogas. Hoje em dia, hackers do outro lado do mundo podem roubar dados e usá-los para cometer fraudes. Assim também, narcotráfico originado na Bolívia ou Colômbia chega até a países como a China e Japão. Na onda de crimes e injustiças globalizadas, talvez a realidade atual mais alarmante é a do trafico humano para sexo. Nesta realidade, corpos de mulheres são vendidos como comodidades num comércio global do sexo, fazendo esta uma industria multibilionária.

O valor exato do comércio global do sexo é na verdade $186 bilhões de dólares ao ano. Os autores do Deviant Globalization defendem que o aumento no índice de prostituição e tráfico humano é sustentado pelo crescimento da desigualdade social causada pela globalização. Eles afirmam que muitas vezes meninas são vendidas para cafetões por suas próprias famílias. Ainda mais, crianças são sequestradas em regiões mais pobres do mundo para serem vendidas como prostitutas em regiões mais ricas, isto tudo como parte de comércio global do sexo. Muitas destas meninas são levadas da Africa, América do Sul e Ásia para Europa e América do Norte. Os principais destinos são países como a Tailândia, Grécia e Itália. Porém, atualmente estima-se que cerca de 50,000 mulheres são traficadas para os Estados Unidos à cada ano. Neste cenário, uma injustiça social que era antes local agora tornou-se um problema global.

Na face de tão grandes desafios, injustiças globais hoje requerem uma resposta da Igreja Global. Passaram-se os dias onde teologias contextuais, como a da Libertação e Teologia Negra, comunicavam apenas para um certo contexto local. Nós hoje temos injustiças globais, como tráfico de sexo, que não dependem de raça, classe social ou localização geográfica. Como resposta, é necessário que haja parceria entre igrejas locais e ONGs cristãs com o intuito de servir como uma bússola moral para a igreja global. Nós já vimos como a Eucaristia pode servir para unir diferentes seguimentos do cristianismo debaixo da centralidade de Cristo. No contexto da missão, o chamado para justiça social pode servir como o imperativo teológico que redefine a identidade missionária da igreja além de um humanitarismo simplista.

Assim como lado depravado da globalização, humanitarismo hoje também é uma indústria global e multibilionária. Desastres naturais como o tsunami na Tailândia em 2004 e o terremoto no Haiti em 2010, comprovam como a igreja global é capaz de unir-se num único chamado missionário. Este chamado pode servir para promover um sentido de justiça que é interno e externo, reconciliando o indivíduo com Deus, consigo mesmo e com outros. Os grandes santos da igreja antiga revolucionaram suas realidades porque eles ofereceram ao mundo uma nova visão metafísica de uma vida ancorada no transcendental. Eles não providenciaram apenas programas para mudanças sociais, mas um sistema de significado e propósito para a própria existência do indivíduo. Humanitarismo torna-se missional quando religa o indivíduo ao seu Criador através de uma abordagem que restaura o valor pessoal e redimi o indivíduo das mazelas sociais.

Assim sendo, uma visão global para justiça social é ciente da magnitude dos desafios que encaramos no mundo. Esta visão busca desenvolver parcerias globais entre a Igreja e ONGs presentes em certos contextos sociais. Esta dinâmica então promove uma justiça baseada no Reino de Deus que é ao mesmo tempo soteriológica e escatológica.

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