O caminho da cruz tem um significado tremendo para todos os segmentos do cristianismo. A tradição católica, por exemplo, venera este caminho, que muitas vezes é chamado de Via Dolorosa. Até hoje, católicos do mundo todo visitam a cidade antiga de Jerusalém para peregrinar nos passos de Cristo. Por outro lado, as tradições reformada, anabatista e, consequentemente, a evangélica atual tendem a não atribuir significado ao ato de peregrinação, e sim à narrativa bíblica e ao fato histórico.
Há muita especulação sobre qual exatamente foi o caminho trilhado por Cristo. Tanto a tradição católica quanto a ortodoxa mantêm que Cristo foi crucificado e sepultado no lugar onde hoje se encontra a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém. As tradições reformadas/evangélicas não encontram base histórica ou arqueológica para estas afirmações, e acham que o lugar mais provável é o Jardim da Tumba, que fica fora dos portões da cidade conforme narram os evangelhos. Independentemente da tradição, estudiosos acreditam que este caminho tinha em torno de 1 (um) quilômetro de distância.
No caminho da cruz há uma profunda verdade espiritual que vai além de fatos históricos, arqueológicos, peregrinações ou venerações. Para Cristo, o caminho do Gólgota resultou em sua morte e consequente ressurreição. Porém para nós, simbolicamente falando, o último quilômetro rumo ao Gólgota é o caminho que nos leva para fora do tumulto e barulho da cidade, para um lugar retirado. Este caminho nos leva para um lugar de profunda reflexão, um lugar de morte para si e crucificação do ego, ou como o próprio significado original indica, um Lugar da Caveira.
É no caminho do Gólgota que encontramos um homem chamado Simão. Mateus 27:32 nos conta que ele era de Cirene, uma cidade situada no norte da África. É muito provável que Simão fosse um judeu africano e que estava em Jerusalém por conta das festas da Páscoa e Pentecostes. O cenário então explica que Simão estava vindo do campo em direção à cidade, provavelmente num ritmo alegre de festa e de descontração, junto com os seus dois filhos Alexandre e Rufo. De repente, Simão se encontra numa situação complicada. Ele cruza o caminho de Jesus, que estava carregando a sua cruz rumo ao Gólgota.
Naquela época, o Império Romano tinha uma lei que obrigava os cidadãos das províncias imperiais a carregar por 1 milha romana qualquer coisa que o exército romano mandasse. Cidadãos eram obrigados a carregar armamentos e outros mantimentos quando as tropas se deslocavam. Por força da lei, Simão foi obrigado a carregar a cruz de Jesus, sendo Jesus um prisioneiro do império prestes a ser executado. A partir deste momento, a vida de Simão de Cirene nunca mais foi a mesma.
Este relato nos ensina um princípio. Ainda hoje, quando cruzamos o caminho de Jesus, somos obrigados pela sua Palavra, a Lei do Espírito, a tomarmos uma atitude semelhante à de Simão de Cirene. Vale lembrar que a cidade inteira de Jerusalém estava em alvoroço por causa da Páscoa e da crucificação de Cristo. A sua condenação havia se tornado um episódio público e, por motivo da festa pascal, os cidadãos de Jerusalém haviam escolhido a Barrabás. Ao carregar a cruz, Simão havia se identificado com o Jesus condenado. Muito além disso, para os judeus, Simão havia se identificado com o blasfemo que dizia ser o Filho de Deus. Simão havia se identificado com Cristo na sua vergonha, fraqueza e aparente derrota. Nesse momento, até os próprios discípulos de Cristo já o haviam abandonado, pois não queriam receber a mesma perseguição. No caminho da cruz, Cristo foi exposto à humilhação pelo mundo e pela religião. Ambos agrediram, insultaram, cuspiram e envergonharam o suposto Messias. Simão estava ali, sentindo na sua própria carne a humilhação, sentindo na pele os resquícios dos cuspes, o peso das pedras e dos insultos proferidos. Simão foi forçado a identificar-se com a vergonha de Cristo. A vergonha de quando Deus parecia ser falso ou fraco demais para se defender.
Esta é a lição de Simão no último quilômetro rumo ao Gólgota. Simão se identifica com Cristo quando o mundo e a religião o condenam como falso e sem poder. Quantos de nós somos envergonhados hoje por sermos cristãos? Pela lei romana, Simão não podia apenas largar a cruz e afastar-se de Cristo. Porém, quantos de nós hoje somos rápidos em fugir da vergonha para pouparmos a nossa própria imagem? Até onde estamos dispostos a carregar a cruz e nos identificarmos com Cristo sob os olhos do mundo? Vemos que em nenhum momento Cristo se defendeu, pois a perseguição era uma ferramenta de Deus para o cumprimento da sua missão. Da mesma forma, Cristo não nos promete que não teremos perseguição. O que Deus promete é a ressurreição, uma nova vida no poder do Seu Espírito. Esta ressurreição só é atingida se nos identificarmos com o Cristo crucificado, conforme a lição de Simão.




