Recentemente publiquei um post revelando como o processo de mudança requer um novo aprendizado. O post é uma análise de um estudo feito por Chris Argyris sobre a dificuldade que líderes altamente técnicos e objetivos possuem em aprender novas maneiras de ser. Líderes que operam predominantemente através de uma abordagem técnica tendem a usar a sua expertise para oferecer conclusões sumativas, uma “palavra final” por assim dizer.
No entanto, líderes e organizações também passam por desafios de adaptação onde conclusões sumativas muitas vezes podem falhar em oferecer um caminho adiante. Desafios adaptativos requerem um novo aprendizado, novos mapas de navegação. Porém, muitas vezes, líderes que atuam de forma objetiva e sumativa aplicam mapas antiquados a territórios ainda não explorados. Nessas ocasiões, conclusões devem ser formativas, permitindo espaço para novas maneiras de pensar e agir.
Talvez o maior desafio para líderes passando por desafios adaptativos seja saber quando, como, e para que fim devem usar suas posições de autoridade. Ronald Heifetz, o estudioso de liderança nos EUA, escreveu prolificamente sobre como “mobilizar trabalho adaptativo” (Mobilizing Adaptive Work). Nos seus artigos, ele explora como o líder deve interpretar certas pistas por parte de seus liderados que o ajudarão a conduzir o grupo e mobilizar mudanças.
Desafios adaptativos trazem líderes e subordinados para um “chão comum” de aprendizado e descoberta. Heifetz enfatiza que em tais momentos a autoridade do líder deve ser um recurso, pois ela provê os instrumentos e força para manter um grupo unido no processo aflitivo do trabalho adaptativo. A autoridade é restritiva porque ela é contingente à satisfação das expectativas dos constituintes. Desta forma, em desafios adaptativos, a autoridade é usada não para dar ordens, mas para construir um espaço de aprendizado e descoberta para navegar situações onde mapas antiquados já não servem mais. Liderança não é somente lançar uma visão ou providenciar uma narrativa que os demais devem seguir. Muito mais, o modo operacional do líder deve transcender o tipo de autoridade que tem todas as respostas para um novo tipo que constrói um espaço onde perguntas difíceis podem ser levantadas e refletidas.
A perspectiva de Heifetz é perspicaz porque desafios adaptativos muitas vezes perturbam e reorganizam a dinâmica organizacional entre um líder e seus subordinados. Com isso em mente, pessoas em postos de autoridade devem ser capazes de distinguir entre situações técnicas e adaptativas, para assim responder adequadamente. Isso implica que líderes devem desenvolver a habilidade de autorreflexão mesmo em meio a grandes desafios. O/a líder se torna um facilitador de novas descobertas e usa a sua autoridade para manter o grupo unido no processo de conscientização. Ele/ela então desenvolve uma epistemologia de problematização, sendo capaz de refletir se o progresso em certo desafio requererá uma mudança de valores, atitudes, hábitos e comportamento.
O uso apropriado de autoridade em meio a desafios adaptativos é algo que eu preciso muito aprender. Nos meus poucos anos de ministério eu tenho tentado modelar um tipo de liderança cristã que se distancia das estruturas altamente hierárquicas. Eu tenho feito isso da seguinte maneira. Mesmo sendo um ministro ordenado, eu jamais requeri que pessoas me chamassem pelo título de “pastor” ou “ministro”. Eu prefiro que congregantes e colegas me chamem pelo primeiro nome. Eu também aboli o uso do “púlpito numa plataforma” e geralmente prego usando um stand simples no mesmo nível da congregação. Eu encorajo líderes leigos a ensinarem e pregarem na igreja e desencorajo o uso de vestuário muito formal.
Essas mudanças têm trazido grandes benefícios para a nossa cultura interna, mas também têm produzido um novo conjunto de perguntas. A primeira é a simples questão de quem, em última análise, está encarregado. Eu descobri que a tentativa de “liderar a partir de baixo” muitas vezes confunde a congregação a respeito de quem está realmente qualificado para executar uma determinada tarefa. Em segundo lugar está a questão do uso de autoridade para oferecer respostas quando desafios técnicos surgem. “Dinâmicas horizontais” muitas vezes podem borrar a linha entre os “discípulos” e o discipulador, o pupilo e o mentor.
A perspectiva de Heifetz me ajuda a entender que a autoridade formal tem seus usos e não deve ser negligenciada no meio eclesiástico, ainda que muitos pastores e líderes usem e abusem de seus cargos. A autoridade formal tem seus usos em produzir um ambiente de aprendizado transformativo. O líder então serve como uma liga para manter o grupo unido, comunicando segurança e confiança ao mesmo tempo orquestrando mudanças. O líder efetivo é aquele que abraça plenamente a sua posição, trabalhando como facilitador e mediador das discussões necessárias, mesmo que possam parecer difíceis. Em tais casos, a autoridade formal não deve ser evitada, mas sim acolhida de tal forma que ela reforça a dinâmica de grupo necessária para uma transformação adaptativa profunda, produzindo um ambiente seguro de aprendizagem.




