As Semelhanças entre o Movimento Missionário e os Reality Shows

Antes de qualquer coisa, preciso deixar um aviso: eu mesmo sou um missionário.

Os reality shows funcionam com uma fórmula simples: fazer o máximo de drama com as menores circunstâncias. Um olhar de lado vira uma traição. Uma refeição queimada vira uma crise. A audiência não assiste ao comum. Ela assiste ao extraordinário, mesmo quando o extraordinário precisa ser fabricado.

Fico me perguntando quanto do movimento missionário já aprendeu a mesma fórmula.

Uma vez ouvi um diretor ensinando missionários a escrever uma carta de notícias com o máximo de apelo. O conselho dele era simples: cite seus filhos e não economize nos recursos visuais. Toque o coração. Ele não estava errado sobre o que funciona. A questão é o que isso custa.

Porque por trás de cada carta que toca o coração há um cálculo mais silencioso: fabricar valor para impulsionar o financiamento. Nessa economia, o valor é medido pela caridade que move as pessoas a doar. Quanto mais dramática a necessidade, mais generosa a resposta. E quanto mais generosa a resposta, mais dramática precisa ser a próxima carta. Isso se alimenta de si mesmo.

E há a armadilha do “longe dos olhos, longe do coração”. Ela atrai a nossa carne a nos expormos, a sermos vistos, a exibir uma virtude verdejante como a figueira no caminho para Jerusalém. Folhas por toda parte, prometendo frutos. Mas de perto, nada para comer. Pelo menos não naquela estação.

Jesus não amaldiçoou a figueira por ser uma figueira. Ele a amaldiçoou por anunciar frutos que ela não tinha.

Os reality shows precisam de audiência. O movimento missionário, no seu pior, também precisa. A nossa audiência não se mede em pontos de audiência. Mede-se numa base de doadores, numa igreja enviadora, numa lista de cartas de oração. A tentação é a mesma: encenar a missão em vez de vivê-la, montar os melhores momentos em vez de contar a verdade.

Não ouça o que eu não estou dizendo. A comunicação importa. Os mantenedores merecem saber o que Deus está fazendo. Mas há uma linha entre o testemunho e o teatro, entre relatar a obra e produzi-la. Um serve à missão. O outro serve ao missionário.

Eis a pergunta à qual sempre volto: se as câmeras estivessem desligadas, sem carta de notícias, sem fotos, sem apelo de fim de ano, a obra ainda valeria a pena? Se a resposta for sim, então conte a história com simplicidade e deixe os frutos falarem. Se a resposta for não, nenhum drama cobrirá os galhos vazios.

Eu sou um missionário. Já senti essa atração. E estou aprendendo que a coisa mais radical que um missionário pode fazer na era dos reality shows é uma fidelidade sem glamour: fazer a obra quando ninguém está vendo, contar a verdade quando a verdade não impressiona, e confiar que Deus, que vê em secreto, é a única audiência que realmente importa no final.

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